Iphan reconhece mais dois novos bens como Patrimônio Cultural do Brasil
Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado e Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte (CE) foram os temas apreciados no 2o dia de reunião do Conselho Consultivo do órgão

Uma das mais importantes expressões dos saberes de povos e comunidades tradicionais da região central do Brasil, o Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado, foi registrada nesta quarta-feira (10) como Patrimônio Cultural do Brasil. A ação ocorreu durante o segundo dia da 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, promovida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Na reunião também foi aprovado o registro dos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte (CE) como Patrimônio Cultural do país.
Um sistema ancestral de cuidado, cura, proteção e transmissão de conhecimentos, construído ao longo de gerações por povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, vazanteiros, comunidades rurais e demais coletivos tradicionais do bioma Cerrado. Esta é uma definição do Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado, que está diretamente relacionado às práticas de manejo sustentável de plantas medicinais, aos modos próprios de produzir saúde e às relações espirituais e territoriais construídas com o Cerrado.
“Esses conhecimentos foram sendo transmitidos entre gerações por meio da oralidade, da convivência comunitária, da observação da natureza e das práticas cotidianas realizadas nos quintais, roçados, matas e caminhos do território”, observa a conselheira relatora do processo, Vercilene Francisco Dias.
A relatora, que é também uma representante da comunidade quilombola Kalunga, localizada no norte de Goiás, expressou a sua comoção relativa ao processo apreciado pelo Conselho. “Apresentar parecer sobre esse Ofício é, para mim, um momento de profunda emoção, responsabilidade e pertencimento. Falo não apenas na condição de relatora, mas também como mulher quilombola Kalunga, filha, neta, bisneta e tetraneta de raizeiras e raizeiros, parteiras e benzedeiras do Cerrado goiano. Minha trajetória pessoal, comunitária e ancestral está profundamente entrelaçada com este ofício, com os saberes das plantas, com as rezas, os cuidados, os quintais e as caminhadas pelo Cerrado”, disse.
Ao longo da tramitação do processo, consolidou-se o entendimento de que o Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado constitui referência cultural fundamental dos povos do Cerrado, articulando conhecimentos tradicionais, sistemas próprios de cuidado, manejo sustentável da biodiversidade, espiritualidade, transmissão oral e proteção territorial.

“O registro desse bem possui uma dimensão profundamente reparatória. Trata-se de afirmar que os conhecimentos tradicionais produzidos pelos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais possuem valor, legitimidade, ciência, ética e espiritualidade. Trata-se de reconhecer que esses saberes sustentaram e continuam sustentando a vida de milhares de comunidades em todo o Cerrado brasileiro”, concluiu Vercilene.
Saiba mais: Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado é reconhecido como patrimônio cultural pelo Iphan
Fé, memória e devoção
Outro importante registro realizado no segundo dia da 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural foi o dos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte, no Ceará.
A partir de um evento interpretado como um milagre realizado pelo Padre Cícero Romão Batista, é sinalizado o marco de uma trajetória religiosa que atrai constantemente para Juazeiro do Norte uma série de romeiros de diversas localidades. A ação coletiva desses romeiros foi a base para a escolha de lugares que mobilizam o processo de registro em questão: a Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Capela do Socorro, a Casa dos Milagres Padre Cícero, a Casa Museu Padre Cícero, o Santuário dos Franciscanos, o Rio Salgadinho, a Ladeira do Horto e o Complexo do Horto.
“A memória do Padre Cícero Romão, marcada pela dedicação plena ao sacerdócio popular, com todos os seus feitos e virtudes, mas, também, de ambiguidades, contradições e paradoxos, nos chega até os dias de hoje através da ação coletiva mobilizada pela fé do povo brasileiro. Essa fé é renovada e retroalimentada todos os anos, a partir das práticas romeiras rumo aos Lugares Sagrados do Juazeiro do Norte”, observou o conselheiro e relator do parecer, André Luis Nascimento.
“Contemporâneo de figuras públicas emblemáticas da sua época, a exemplo de Antônio Conselheiro (1830-1897), Lampião (1898-1938), Maria Bonita (1910-1938), Beata Maria de Araújo (1862–1914), Beata Mocinha (1864-1944), dentre outros, Padre Cícero é a encarnação de um Brasil extremamente marcado por contradições, ambiguidades e paradoxos. A sua verve messiânica e salvacionista é o elemento norteador de uma certa imagem do Brasil que se reflete na fé do seu povo e na capacidade desse mesmo povo em sacralizar, beatificar e santificar pessoas, lugares e memórias”, afirmou o conselheiro.
Saiba mais: Iphan aprova registro dos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte (CE)
Demais registros
No primeiro dia da 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, nesta terça-feira (9) foram aprovados os registros do Palacete Celina Guinle e Linneo de Paula Machado e seus jardins (RJ) e do Teatro Municipal de Ouro Preto - antiga Casa da Ópera de Vila Rica (MG).
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