Iphan aprova registro dos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte (CE)
Reconhecimento ocorreu no segundo dia da 113ª Reunião Ordinária do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural

O sol mal desponta no horizonte do Cariri e as estradas já se tingem com a poeira deixada pelos caminhões e ônibus que vêm de longe. Milhares de romeiros desembarcam com chapéus de palha e a fé no peito, prontos para percorrer uma cartografia desenhada pelo afeto e pelo mistério que rompeu o silêncio do sertão em 1889. No Largo do Socorro, mãos calejadas buscam o toque em objetos que guardam a "presença" do Padim, transformando o museu em santuário e o luto em oração compartilhada que atravessa gerações. É por meio dessa vivência coletiva e ritual que se manifestam os Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte, no Ceará — bem cultural aprovado para registro como Patrimônio Cultural do Brasil nesta quarta-feira (10/6), durante a 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O conjunto foi inscrito no Livro de Registro dos Lugares, que reconhece espaços onde práticas culturais coletivas se concentram e se renovam — mercados, feiras, santuários e praças que funcionam como pontos focais da vida social, carregando sentidos de pertencimento, memória e identidade para suas comunidades. No caso de Juazeiro do Norte, o registro celebra uma "hierópolis" — uma cidade-santuário — onde a paisagem urbana e a devoção popular se fundem de forma inseparável.
A diretora do Departamento de Patrimônio Imaterial (DPI) do Iphan, Marina Lacerda, destacou os desafios enfrentados pela instituição na elaboração do dossiê sobre os lugares de devoção ao Padre Cícero Romão Batista (1844-1934). Segundo ela, “o Iphan se coloca diante de um desafio importante: traduzir em palavras aquilo que pertence, sobretudo, à experiência. Esse desafio se intensifica ainda mais quando os bens estão relacionados à fé, na medida em que somos chamados a expressar algo que, não raro, é muito mais fácil de ser sentido do que de ser dito. E a fé em torno de Padre Cícero, sem dúvida, é um desses casos. Ela está presente no cotidiano dos romeiros e não se limita à contemplação, mas se realiza na vivência contínua dessa experiência”.
A diretora lembrou que o pedido de reconhecimento foi apresentado em 2018 e se apoia em um amplo conjunto de estudos já desenvolvidos pelo Iphan, especialmente a partir do Inventário Nacional de Referências Culturais realizado pela Superintendência do Iphan no Ceará. Ela enfatizou que todos os lugares de referência mencionados no dossiê foram identificados e validados por meio de pesquisas e de diálogo com a comunidade detentora, ressaltando que o processo foi marcado por intensa articulação entre o Iphan, a Prefeitura de Juazeiro do Norte, a Igreja Católica e, principalmente, os romeiros. A diretora também destacou a importância do vídeo disponibilizado no site do Bem Brasileiro, por retratar com sensibilidade a dimensão simbólica e afetiva desses espaços, e elogiou o trabalho do produtor Rosemberg Cariry, responsável pela produção. “É impossível não se emocionar com um material produzido de forma tão sensível. É um trabalho muito bonito e que vale a pena ser visto”, afirmou.
Os oito espaços sagrados
O bem cultural é composto por oito espaços: a Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Capela do Socorro, a Casa dos Milagres Padre Cícero, a Casa Museu Padre Cícero, o Santuário dos Franciscanos, o Rio Salgadinho, a Ladeira do Horto e o Complexo do Horto. Juntos, esses lugares formam um território simbólico vivo, continuamente ressignificado pela fé popular — paredes que guardam ex-votos, rios que testemunharam promessas, ladeiras subidas de joelhos. Ali, o sagrado não é estático: ele respira e se renova a cada romaria, a cada geração que chega ao sertão com o coração cheio de fé.
Na Ladeira do Horto, corpos que sobem de joelhos entre pedras purificadoras vivem uma experiência ao mesmo tempo mística e profundamente física. A sacralidade desse espaço é transmitida de geração em geração pela memória oral dos próprios devotos. "O romeiro quando vem ao Juazeiro tem que ir ao Horto, tem que tocar no meu Padim. É chegar até a frente da imagem, tocar, fazer o pedido e dar a volta em torno do cajado", conta Maria das Dores Guilhermino Damião - para os mais próximos, Dorinha Catequista, residente do Horto, que desde criança ouviu dos mais velhos que "se a gente bem soubesse o que é o Horto, não cuspiria nem no chão". Para ela e para milhares de romeiros, o Horto é sagrado porque foi do Padre Cícero — era lá que ele passava a quaresma, meditava e rezava diante do Bom Jesus, imagem que, segundo a tradição oral, testemunhou suas lágrimas e suas preces.
1889: o milagre que fundou uma cidade-santuário

A sacralidade de Juazeiro do Norte tem uma origem precisa. Em 1889, durante a distribuição da comunhão, a hóstia recebida pela beata Maria de Araújo se transformou em sangue nas mãos do padre Cícero Romão Batista — episódio que ficou conhecido como o Milagre da Hóstia e abalou o sertão como um tremor espiritual. "Padim Ciço", como o povo o chamava com a intimidade de quem fala de um familiar, tornou-se muito mais do que um sacerdote: era conselheiro, protetor e intercessor entre o céu e a terra seca do Cariri.
O que se seguiu foram décadas de tensão institucional. A Igreja Católica nunca reconheceu oficialmente os milagres, Padre Cícero foi suspenso de suas funções sacerdotais e a devoção popular foi repetidamente marginalizada pela hierarquia eclesiástica. Ainda assim, a fé resistiu com a teimosia característica do povo sertanejo: proibida pelos altares oficiais, ela floresceu nas ruas, nas romarias e nos ex-votos, consolidando-se como uma das maiores manifestações de religiosidade popular da América Latina.
Esse fenômeno espiritual não se cristalizou no passado — ele pulsa em quatro momentos cruciais do ano. Em setembro, a Romaria de Nossa Senhora das Dores abre o ciclo das grandes peregrinações; em novembro, o Dia de Finados convoca multidões para honrar os mortos e renovar promessas; em fevereiro, a Romaria de Candeias ilumina a cidade com chamas de devoção; e em 20 de julho, o aniversário de morte de Padre Cícero reúne centenas de milhares de fiéis num luto que é, paradoxalmente, celebração. Juntas, essas datas movimentam mais de dois milhões de romeiros por ano.
O parecer foi relatado pelo conselheiro André Luis Nascimento Santos, que definiu com precisão o significado histórico do bem: "Juazeiro do Norte foi o barro pelo qual Padre Cícero moldou no passado essa grande obra que superou o seu criador e se transformou nessa criatura que neste momento estamos prestes a alçar à categoria de bem cultural registrado pelo Estado brasileiro."
Para o conselheiro, a singularidade desse patrimônio reside justamente em sua origem conflituosa: "Trata-se, portanto, de uma religiosidade marcada pelo conflito — um conflito que se aproxima mais da resistência, da resiliência e dos saberes populares."
As expressões culturais e patrimoniais que cercam a figura do Padre Cícero

A devoção a Padre Cícero nunca se limitou às igrejas e capelas — transbordou para as ruas, os quintais, as feiras e as canções, gerando um ecossistema cultural tão rico quanto a própria fé que o alimenta. Em Juazeiro do Norte, a máxima popular "em cada sala um oratório e em cada quintal uma oficina" não é apenas uma expressão poética: é uma descrição literal de uma cidade onde religiosidade e produção cultural são inseparáveis. A memória do Padim é preservada e renovada pelo cordel — com destaque para a tipografia Lira Nordestina, polo vivo de produção de folhetos que difundem suas profecias e milagres —, pelo repente, pelas xilogravuras de mestres como Noza, e pelo artesanato em barro e madeira que povoa o imaginário nordestino. As canções de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, completam esse mosaico sonoro, evocando nos romeiros memórias e afetos que nenhum sermão conseguiria despertar com igual intensidade.
Mas é no corpo do devoto que essas expressões ganham sua forma mais viva. Na Missa do Chapéu e na Missa da Despedida, o canto e o gesto coletivo selam a renovação da fé. No Santuário dos Franciscanos, romeiros em ônibus e paus de arara realizam o ritual de dar três voltas em torno do monumento de São Francisco, buzinando para anunciar sua chegada ao território sagrado. Na Ladeira do Horto, corpos que sobem de joelhos entre pedras purificadoras vivem uma experiência ao mesmo tempo mística e profundamente física. Esse território acolhe ainda expressões de matrizes diversas: os Pankararu realizam anualmente o ritual do Toré na residência de Dona Dodô, integrando sua resistência étnica à devoção ao Padim; a Dança de São Gonçalo, executada como pagamento de promessas, é transmitida de geração em geração como memória viva que mistura o sagrado e o popular.
Nos espaços de memória como o Memorial Padre Cícero e o Museu Vivo do Padre Cícero, o acervo não é apenas histórico — é devocional. Tocar a cama do Padre Cícero ou contemplar o "paninho" que guarda o sangue do Milagre da Hóstia são gestos de fé tanto quanto de recordação. Já a Casa dos Milagres abriga milhares de ex-votos — bonecas de pano, fotografias, membros do corpo esculpidos em madeira — que documentam, com a linguagem crua e comovente da gratidão popular, as graças alcançadas por fiéis de todo o Brasil. Em Juazeiro do Norte, a fé não é contemplativa — ela caminha, sangra, canta e se ajoelha.
O caminho até o registro
O reconhecimento não foi um ato burocrático, mas o desfecho de um processo que combinou rigor técnico e legitimidade popular. Mais de 13 mil assinaturas de devotos — as chamadas anuências — foram colhidas ao longo do processo, transformando o pleito num gesto coletivo de afirmação identitária: não era o Estado reconhecendo a fé do sertanejo, mas o próprio sertanejo exigindo que sua fé fosse reconhecida.
Do lado técnico, a candidatura foi sustentada pelo Dossiê de Registro, que sistematizou décadas de memória e práticas simbólicas, e pelo Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), instrumento do Iphan que mapeou com precisão etnográfica as celebrações e os saberes que animam esse território. Pareceres de especialistas em patrimônio, antropologia e história completaram o conjunto de documentos que fundamentou a decisão do Conselho Consultivo. O resultado prova que, quando comunidade e Estado caminham juntos, até o sagrado encontra seu lugar nos livros oficiais da nação.
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