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Projeto Diálogos Multiculturais promove intercâmbio de conhecimentos sobre segurança alimentar e geração de renda para as comunidades por meio de cogumelos comestíveis
Inpa destaca trajetória de pesquisas com povo Yanomami (Sanöma) e reforça integração entre ciência e saber tradicional
Reunião estratégica realizada no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) marcou um novo capítulo no desenvolvimento de uma das ações da instituição no campo da etnomicologia junto ao povo Yanomami. O encontro teve como objetivo apresentar o andamento das atividades e definir os próximos passos da iniciativa Diálogos multiculturais: intercâmbios dentro da Amazônia, que articula uma atuação mais propositiva da pesquisa científica, aliada ao conhecimento tradicional, para desenvolver outras soluções baseadas na cultura Yanomami, especialmente o grupo Sanöma, para que possam melhorar o nível de segurança alimentar.
Estiveram presentes o diretor do Instituto Henrique Pereira, as coordenadoras e pesquisadoras do Inpa Noemia Kazue Ishikawa e Ana Carla Bruno, o biólogo do Instituto Socioambiental Rodrigo Santana Cardoso e os representantes da Comunidade Kolulu, Marinaldo Sanuma, Marinho Sanuma e Xirixiri Sanöma. A presença dos três indígenas envolvidos no cultivo de cogumelos nas comunidades reforçou o caráter colaborativo e horizontal do projeto, que se consolida como uma construção conjunta entre ciência e território.
A parceria vem sendo construída desde a década de 1970, quando houve as primeiras documentações e registros científicos sobre o uso de fungos pelos Yanomami (Sanöma), realizados por Ghillean Prance, Bruce Nelson e José Ramos. São mais de 50 anos de trajetória e o Inpa tem ampliado esse campo de estudo, consolidando um acervo relevante para a etnomicologia brasileira, atualmente com cerca de 90 amostras na coleção do herbário do Instituto, evidenciando a importância científica e cultural desse conhecimento.
Impactos positivos
O conhecimento tradicional aliado à pesquisa científica resultou não apenas na identificação das espécies, mas também na transformação dos cogumelos em um produto comercializável. A produção ultrapassou os limites da Amazônia, ampliando as possibilidades econômicas para as comunidades.
“Os fungos, para a cultura Yanomami Sanöma, são um alimento essencial no enfrentamento das ameaças da insegurança alimentar”, destacou o diretor do Inpa.
Em 2019, pesquisadores do INPA, Noemia Kazue Ishikawa e Jadson Oliveira, junto às mulheres Yanomami da região de Maturacá, identificaram a nova espécie de fungo Marasmius yanomami. O fio preto do fungo é usado na ornamentação das cestarias yanomami, criando uma estética única e fortalecendo a geração de renda e a bioeconomia indígena.
“O cogumelo hoje é uma fonte de renda para eles, além do consumo e da transmissão cultural entre gerações”, reforça a coordenadora Noemia Kazue Ishikawa.
Visão de futuro
Após a pandemia, a retomada das atividades, em janeiro de 2026, revelou um cenário transformado. Os pesquisadores encontraram uma comunidade mais estruturada, com crianças e jovens em melhores condições nutricionais e educacionais, evidenciando a transição para uma nova fase. Agora o projeto avança para uma atuação mais propositiva, afirmou Henrique Pereira.
“Nessa terceira fase podemos notar uma ciência não apenas intercultural, mas transdisciplinar, para desenvolver soluções baseadas na cultura Yanomami Sanöma para a melhoria no nível de segurança alimentar”.
Ao reunir ciência, tradição e impacto social, o projeto reafirma o papel do Inpa e seu comprometimento com o desenvolvimento sustentável da Amazônia. A iniciativa evidencia como o conhecimento pode ser mobilizado para promover dignidade, autonomia e soberania alimentar, consolidando uma experiência que prioriza o diálogo e apresenta soluções aos desafios contemporâneos.