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ENTREVISTA
Dermatologista explica métodos de prevenção ao câncer de pele
O Rio Grande do Sul é o estado no Brasil que mais possui casos de câncer de pele do tipo melanoma, o mais grave. No verão, após o inverno rigoroso, aproveitamos para ir à praia, parques e, também, para utilizarmos roupas mais curtas e leves. Essa exposição ao sol, posterior ao longo período em que ficamos complemente cobertos por grossas camadas de roupa, pode causar situações indesejáveis, como as queimaduras de sol. Essas queimaduras são extremamente prejudiciais e são o principal fator de risco para o câncer de pele.
Dessa maneira, pensando em sanar dúvidas a respeito da prevenção a essa doença, conversamos com o professor do departamento da Clínica Médica da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), André Costabeber, que nos passou métodos de cuidado, assim como trouxe informações relevantes sobre sintomas, tratamento e diagnóstico do câncer de pele.
Sobre prevenção:
Quais são os métodos de prevenção contra o câncer de pele?
Em todos os tipos de cânceres de pele o maior fator de risco é o Sol. Dessa maneira, entre a população de pele e olhos claros, sendo pessoas ruivas mais suscetíveis que loiros. Então, olhos claros, pela clara e sardas, é um fator de risco altíssimo. E temos também a nossa população de agricultores que trabalham diariamente ao sol. Então assim, cada vez mais estamos dando importância a proteção física. E o que é isso? É o uso de roupa e chapéu. O filtro solar, muito usado como método de prevenção, não substitui o uso de roupa comprida. O filtro solar ajuda na proteção do rosto, das mãos, a proteger a área que a roupa não cobriu. Nós tentamos descontruir uma ideia que se tem de que o filtro solar é o principal na proteção, mas não, o principal é a roupa. O filtro é um adicional.
Por que o Sol é o principal causador de câncer de pele?
Porque assim, o Sol tem vários tipos de radiação, mas as que causam riscos à pele são as radiações ultravioleta. Nós temos dois tipos principais de radiação ultravioleta, que são a radiação ultravioleta A e a radiação ultravioleta B. A radiação ultravioleta A é a radiação do sol das oito às nove horas da manhã. A radiação ultravioleta B, ela só penetra quando o sol está a pino (quando atinge o máximo de altura no céu), porque na perpendicular é mais fácil dela penetrar. Uma questão importante de apontar é a seguinte: na região norte do Brasil anoite e amanhece todos os dias do ano no mesmo horário, não existe variação. Nós aqui do Sul, no subtropical, no inverno amanhece às oito e anoitece às seis. No verão amanhece às seis e anoitece às oito, então o dia é bem mais longo. Isso implica que, no nosso verão, o tempo de radiação ultravioleta B é enorme. A gente precisa começar a se proteger do Sol desde às dez horas da manhã e vai se proteger até às seis da tarde e não das onze às três, como é na região tropical. No nosso verão, a radiação ultravioleta B, que é a mais cancerígena, ela começa a penetrar cada vez mais cedo e com mais intensidade.
Qual o modo correto de utilizar o protetor solar?
Se recomenda, no mínimo, o fator 30. A protetor do filtro solar, ela vai gastando. Primeiro de tudo é saber que existe uma quantidade mínima de aplicar. Então se tu usar um protetor solar muito ralo (baixo fator) e espalhar, a proteção diminui. Por exemplo, uma pessoa com um metro e 60, na praia, deve usar em média 30 ml de protetor, com reaplicação de, no máximo, duas horas. Então, em meio dia exposto ao Sol na praia, uma pessoa dessa estatura teria que usar um frasco inteiro de filtro solar. O importante é ter em mente que o uso do filtro é fundamental, se faz necessária uma reaplicação com intervalo de no máximo duas horas e evitar horários do sol forte.
Existe algum outro tipo de proteção?
Existem, atualmente, roupas especiais para se usar na praia que vão ter um fator de proteção para a radiação ultravioleta. Com o uso dessas roupas, não se faz necessário o uso do filtro embaixo. No momento em que vestiu está protegido e o benefício é que essa proteção não gasta, o que a torna melhor que o filtro solar. Utilizar essas roupas é uma questão de hábito, cada vez mais vemos pessoas utilizando roupas assim na praia e essas roupas estão cada vez mais baratas e acessíveis.
O que faz com que o filtro solar e essas roupas especiais bloqueiem a radiação do Sol?
Elas vão bloquear, ou refletir a radiação ultravioleta. O filtro ou ele vai refletir, ou ele vai transformar a radiação ultravioleta em outras formas de energia, inócua.
Existe uma estimativa de quanto tempo de exposição ao sol faz com que uma pessoa tenha câncer de pele?
O que sabemos é que não tem por tempo, mas sim por queimaduras. Quanto mais queimaduras solares uma pessoa teve, maiores são as chances de ela desenvolver melanoma.
Com crianças, como se dá o cuidado?
Crianças podem usar o filtro solar a partir dos seis meses, os protetores infantis. É importante salientar que se a gente não quer que exista o câncer de pele, proteger às crianças da exposição ao sol é fundamental. Até os 18 anos, grande parte da população já pegou todo o sol que precisa, pois, o dano solar é cumulativo.
Sobre a doença:
Quais são os tipos de câncer de pele?
Nós temos dois tipos principais de câncer de pele, que é o melanoma e o não-melanoma. O melanoma ele é uma pinta preta, que surge em qualquer lugar da pele, não precisa ter um sinal de nascença para ele aparecer, mas ele pode também surgir de sinais que a pessoa já tem. E outro tipo de câncer de pele, que o que chamamos de não-melanoma, porque tem outros nomes, que são o basocelular e o espinocelular, eles são como feridas vermelhas. São lesões da cor da pele, um pouco mais avermelhadas, que podem produzir casquinhas e que sangram com alguma facilidade quando a casquinha cai, ou as vezes até a pessoas secando o rosto, porque o lugar mais comum do câncer de pele é o rosto, é o lugar onde a pessoa mais pegou sol. O melanoma pode aparecer em outras partes, nos homes nas costas e nas mulheres nas pernas, principalmente. Mas a maioria dos cânceres de pele que vimos é no rosto.
Quais são as diferenças entre o melanoma e o não-melanoma?
O melanoma, que é esse com uma pinta preta, ele tem um grande potencial de se espalhar pelo corpo, ou seja, de produzir metástase. Então quando ele não é retirado precocemente, rápido e na fase inicial, existe uma chance da doença se espalhar e isso implica na possibilidade de o câncer ser fatal. Ele é maligno, com uma tacha de óbito que não é muito alta. Quando ele é retirado precocemente, conseguimos chegar a mais de 90 por cento de chance de cura, mas quando é tardio a chance de cura é pequena. Os não-melanomas, tem no basocelular um grau de malignidade, já que possui uma capacidade destrutiva de regiões da pele, como os olhos, o nariz, orelhas e a metástase, em alguns casos, pode acontecer. Um dos subtítulos do não-melanoma, ele pode dar metástase em dez por cento dos casos, o que não é muito, se comparado ao melanoma que pode chegar a 100 por cento em diagnósticos tardios. A situação nos não-melanomas que mais preocupa é quando é nos lábios, porque quando essa ferida aparece no lábio nós sabemos que existe maior chance de metástase.
Quais são os sintomas?
No melanoma, pessoas que possuem pele muito clara e que, de repente, surge uma pinta escura, preta ou que tenha uma pinta que sempre esteve no corpo, mas que de uma hora para outra começa a crescer, a modificar ou escurecer. Esse é um fator de risco. Não coça, não dói e não sangra, simplesmente surge a pinta preta, ou uma pinta que era marrom e fica preta. Esse é o maior fator de risco e nós gostaríamos que as pessoas cuidassem, porque é justamente esse tipo de câncer de pele que pode matar. Enquanto que os outros, os não-melanomas, são pequenas feridinhas que crescem, normalmente, devagar – pode ser rápido, mas normalmente é de vagar – que eventualmente sangram um pouco, logo aparenta ter curado, mas depois de um tempo retorna a sangrar. E tudo isso sem dor e sem coceira, simplesmente vai aumentando, crescendo devagar e eventualmente sangra. Esse é o sinal de risco para o não-melanoma.
Com se dá o diagnóstico da doença?
O clínico geral, nas Unidades Básicas, já pode examinar e desconfiar. Nesse momento, ele pode encaminhar para o serviço de referência, que no caso é o Hospital Universitário de Santa Maria, no serviço de dermatologia. Aqui nós temos condições de fazer um diagnóstico clínico e, eventualmente, quando existem dúvidas a gente faz biópsia para a confirmação.
Como é o tratamento em cada um dos tipos do câncer?
Tanto o melanoma, quanto o não melanoma, o tratamento é exclusivamente cirúrgico. Se a cirurgia retirou a lesão inteira, no caso dos não-melanomas temos a certeza de que o paciente está curado. Já no melanoma, se não está em fase inicial, a gente não pode afirmar a cura, porque há possibilidades de já ter se espalhado. Não existe radioterapia, nem quimioterapia curativa nesses casos. Resumindo, o tratamento é cirúrgico, com altos índices de cura se retirado precocemente.