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LAÇOS ESSENCIAIS
A esperança não é artificial
Nesta reportagem você vai ver:
- O impacto no corpo e no cérebro
- O risco das respostas automáticas
- A força da espiritualidade
Vivemos na era da hiperconexão digital, mas nunca houve tanta solidão. Um relatório da Organização Mundial da Saúde, lançado em julho de 2025, estimou que uma em cada seis pessoas no mundo se sente sozinha — e, entre adolescentes, o índice chega a um em cada cinco. Plataformas que prometem companhia cabem na palma da mão, enquanto vínculos presenciais se enfraquecem. Em meio a esse cenário, estudos recentes apontam que a solidão prolongada não apenas adoece a mente, mas também o corpo — alterando o cérebro, fragilizando o coração e corroendo a saúde de forma comparável ao tabagismo e à obesidade.
O impacto no corpo e no cérebro
Segundo o professor de Medicina da Unirio e pesquisador do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG-Unirio/Ebserh), Julio Cesar Tolentino, a solidão é um fator de risco clínico tão relevante quanto doenças crônicas conhecidas. “Ela mantém o corpo em estado de alerta, semelhante ao estresse crônico. Isso libera hormônios e substâncias inflamatórias que comprometem, progressivamente, a saúde física e mental”, explica.
O efeito, acrescenta, pode ser visto diretamente no cérebro. “A solidão prolongada hiperativa as amígdalas cerebrais, ligadas ao medo e à ansiedade, e reduz a atividade do córtex pré-frontal e do hipocampo, que regulam memória, raciocínio e emoções. O resultado é um cérebro em ‘modo de ameaça’, mais vulnerável à depressão, à ansiedade, à insônia e até ao declínio cognitivo precoce”.
Pesquisas coordenadas por Julio identificaram impactos físicos desse sofrimento: estudantes de Medicina com sintomas depressivos apresentaram alterações na função endotelial, marcador precoce de risco cardiovascular. “Ou seja, o sofrimento não fica restrito à mente. Ele atravessa o corpo inteiro, enfraquece a imunidade, desregula o metabolismo e aumenta o risco de infarto e AVC. Cuidar das conexões humanas é também cuidar do cérebro, do coração e da longevidade”.
O risco das respostas automáticas
Se a solidão já fragiliza o organismo, o cenário se agrava quando ferramentas digitais passam a ocupar o lugar da escuta. Estudos da Universidade de Stanford e da revista Frontiers in Psychiatry mostraram que chatbots terapêuticos não apenas falham em oferecer suporte consistente, como podem reforçar estigmas e fornecer respostas rasas.
“O perigo está em substituir vínculos humanos por algoritmos”, afirma Tolentino. “Um chatbot pode simular conselhos, mas não sente, não compartilha silêncio, não reconhece nuances culturais ou emocionais. Ele oferece soluções genéricas, enquanto jovens em crise precisam de escuta genuína e suporte sensível”.
Para o pesquisador, confiar exclusivamente em interações digitais pode aprofundar o isolamento e retardar diagnósticos. “A inteligência artificial pode ser útil como complemento, reduzindo barreiras iniciais ou orientando para serviços adequados. Mas ela não tem a capacidade de oferecer empatia autêntica, nem de construir a confiança que nasce do olhar humano e da presença. A prioridade deve ser sempre fortalecer laços reais”.
O tripé da esperança
Se a tecnologia não consegue dar conta do acolhimento pleno, a resposta pode estar em dimensões exclusivamente humanas. Outras pesquisas do HUGG-Unirio coordenadas por Julio revelaram que a espiritualidade atua como fator de proteção contra a ansiedade em trabalhadores da saúde.
“Vimos que a fé reduzia a ansiedade e oferecia segurança diante das adversidades”, explica. Para ele, fé, pertencimento e sentido de vida formam um tripé essencial contra o isolamento. “A fé reduz a solidão existencial, trazendo esperança em momentos de incerteza; o pertencimento rompe o isolamento, ao criar vínculos autênticos que reforçam a identidade compartilhada; e o sentido de vida atua como bússola, ajudando a dar direção diante das dificuldades”.
Esses elementos, afirma, funcionam como um verdadeiro antídoto contra a solidão. “Um chatbot pode simular empatia, mas não transmite presença verdadeira, não compartilha silêncio, não oferece esperança ou transcendência. A espiritualidade toca dimensões exclusivamente humanas: a capacidade de encontrar significado na dor e transformar sofrimento em crescimento”.
Para Julio, o Setembro Amarelo é mais do que uma campanha de prevenção ao suicídio. “Ele pode ser entendido como um convite para restaurar vínculos humanos, lembrar que conversar, estar presente e oferecer apoio mútuo são atitudes capazes de salvar vidas de verdade”, afirma.
Ao unir ciência e experiência humana, a mensagem ganha força: cuidar da mente é também cuidar do corpo e do futuro. Em tempos de conexões digitais abundantes, mas relações frágeis, o Setembro Amarelo nos lembra que a verdadeira prevenção nasce do vínculo humano, seja ele construído pela família, pela comunidade, pela fé ou pelo simples gesto de escutar alguém em silêncio.
No fim, é a presença, e não o algoritmo, que salva.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Felipe Monteiro
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh