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HUMANIZAÇÃO
Horário estendido para visitantes é conquista dos pacientes
Paciente é amparado no centro cirúrgico: visita nas enfermarias ocorre das 14h às 20h
VITÓRIA (ES) - Aqui, o paciente tem voz. No Hucam-Ufes, há a convicção de que ouvir as necessidades do usuário do sistema, e não apenas “onde está doendo”, faz parte do sucesso do tratamento. A essa filosofia de trabalho, que deve permear todos os colaboradores e estudantes, dá-se o nome de humanização.
O termo, de tanto usado nos últimos anos, pode passar a ideia errada de que “humanização” é apenas pintar murais bonitos na fachada ou fazer recepções coloridas com cadeiras e televisores. Isso é só uma ponta mínima do trabalho. O Hucam-Ufes está além disso, e uma das formas concretas dessa maneira de pensar ocorre com a adoção de horários estendidos de visita aos pacientes internados.
“É o cuidado centrado no paciente, considerando-o como sujeito desse processo. O paciente deixa de ser passivo, passa ter voz ativa. E o desafio de levar esse movimento para os processos operacionais dos hospitais, parte do princípio que o paciente é único. Casa com a ideia do SUS de que é universal, integral e equânime”, define a assistente social Leandra Maria Borlini Drago, coordenadora da Câmara Técnica de Humanização (CTH) do hospital.
Estar ao lado da família no momento de dor é a reivindicação mais natural. No Hucam-Ufes, o horário de visita nas enfermarias ocorre diariamente, das 14h às 20h. E em outras clínicas específicas, como UTI e pronto-socorro, há horários especiais. Essas oito horas diárias não eram a prática na saúde pública de anos atrás. A assistente social Gislene Nascimento Brunholi, integrante da CTH e chefe da Ouvidoria do Hucam, explica que a presença do visitante e, mais que isso, do acompanhante – aquele que fica além do horário do visitante, numa relação mais próxima – é benéfica, inclusive, para a gestão de recursos públicos:
“Se eu adoto um procedimento que o paciente não demonstra adesão, sem ouvir sua vontade, geram-se mais custos. Projeto terapêutico singular é o conceito. Um outro paciente com mesmo quadro clínico não necessariamente segue a mesma terapia”.
Gislene lembra que houve um momento na história em que a relação com a Medicina era mais próxima da família. O nascimento era em casa, a morte também. Ao longo das descobertas científicas, o tratamento entrou numa ordem de isolamento. A humanização aí está para fazer esse resgate. Simbólico em um hospital que começou como sanatório para portadores de tuberculose, onde a regra era apartá-los da sociedade. Não à toa, o prédio está em um aclive:
“Os avanços continuam sendo importantes. Eles não se contrapõem à humanização, pelo contrário”.
A humanização precisa estar na cabeça de todos. Nada adianta uma parte da equipe cumprir seu papel e os demais envolvidos, desde o segurança até o especialista, não vestirem a camisa. Cogestão dos processos de trabalho ouvindo a todos, desde o superintendente até quem atende à beira do leito, é uma tônica do trabalho. Outra expressão é o projeto terapêutico singular, ou seja, cada paciente merece e deve ter suas necessidades ouvidas para que tenha o melhor atendimento multiprofissional. Ou de que adianta curar o idoso se ele está socialmente vulnerável e a família não foi informada sobre o que precisará fora do hospital? Recuperação também é afetividade. Por isso, a instituição precisa se preparar para receber a família.
Historicamente, uma das grandes justificativas contra a visita estendida era a possibilidade de aumento da infecção hospitalar.
“Mas no Hucam, isso não foi impeditivo. A partir de alguns cuidados e parcerias importantes dentro dos serviços, a visita se tornou uma realidade institucional”, complementa Gislene.
Além da visita estendida, o Hucam-Ufes também busca melhorias para o acompanhante. O hospital passou a oferecer três refeições diárias gratuitas a todos os acompanhantes.
Todos os avanços da humanização estão ligados a uma política pública de saúde (Política Nacional de Humanização, de 2003). Não se trata de programa de governo, mas é política de estado que transversaliza o SUS, onde o Hucam-Ufes a cumpre na perspectiva de construção de um cuidado integral.