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EPIDEMIOLOGIA
Doenças tropicais negligenciadas colocam milhões de brasileiros em risco, alertam especialistas do Huap e da Ebserh
Doenças tropicais negligenciadas exigem vigilância permanente
O Dia Mundial de Luta contra as Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs), celebrado em 30 de janeiro, chama a atenção para enfermidades que afetam milhões de pessoas em todo o mundo. Nos hospitais universitários federais geridos pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), a data mobiliza ações de prevenção, diagnóstico e tratamento para doenças como Hanseníase, Doença de Chagas, Dengue (Arboviroses), Esquistossomose, Parasitoses intestinais, Leishmaniose, Malária, Tuberculose e outras.
Essas enfermidades são denominadas negligenciadas, pois apresentam indicadores inaceitáveis e investimentos reduzidos em pesquisa, produção de medicamentos e vigilância epidemiológica. As DTNs são causadas por diferentes agentes, como vírus, bactérias, parasitas e fungos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1,7 bilhão de pessoas no mundo podem estar sob risco de adquirir DTNs, com a ocorrência de 200 mil mortes por ano. No Brasil, a estimativa do Ministério da Saúde é de cerca de 30 milhões de pessoas em risco.
Segundo a dermatologista do Hospital Universitário Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense (Huap-UFF), Sandra Durães, essas doenças têm sido causa e, ao mesmo tempo, consequência da condição de pobreza estrutural, ocasionando incapacidade física e deficiência, estigmatização, exclusão social, discriminação e morte prematura. “A estratégia para o controle dessas doenças envolve ações intersetoriais, para além da assistência à saúde, de enfrentamento à pobreza como: melhoria das condições de moradia, saneamento, acesso à água, educação e renda”, destacou.
A infectologista do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU), Francielly Gastaldi, explica que as DTNs são aquelas que afetam principalmente países de clima tropical, associadas a condições socioeconômicas precárias e vulnerabilidade. “São patologias que não possuem grandes investimentos para pesquisa farmacêutica, diagnóstico, prevenção e tratamento. Apesar disso, têm um impacto significativo na população que aflige”.
Principais sintomas e sinais de alerta
Conforme as especialistas, os sintomas das DTNs podem se assemelhar aos de outras patologias mais comuns, o que dificulta o diagnóstico precoce. Febre prolongada, perda acentuada de peso, lesões de pele e mucosas, falta de ar e aumento progressivo do volume abdominal estão entre os sinais que devem motivar investigação clínica rápida e criteriosa.
A atuação dos profissionais deve ser voltada para a investigação, antes mesmo da evolução dessas doenças determinarem sequelas irreversíveis ou risco de vida. É realmente desafiador esse papel, e deve ser amplamente incentivado. Para isso, ressaltou a infectologista Gastaldi, “a epidemiologia pode auxiliar na investigação mais adequada para cada caso, considerando as características e incidências/prevalências de cada doença, além de individualizar o risco de cada paciente”.
Tratamento especializado na Rede Ebserh
Para Gastaldi, “Considerando as dificuldades para sua investigação, o passo primordial é a suspeição, que depende de um profissional capacitado, com conhecimento sobre as características clínicas e epidemiológicas das doenças”. O HC-UFU possui Serviço de Infectologia que possibilita a investigação ambulatorial e hospitalar (regime de internação) dessas doenças.
A maioria dos tratamentos necessários para essas doenças é disponibilizada mediante notificação e solicitação via Ministério da Saúde, possível de ser realizado em qualquer serviço de saúde, público ou privado. Além disso, a equipe do HC-UFU, em conjunto com outros serviços especializados, oferece acompanhamento contínuo após o tratamento, abordando possíveis complicações ou sequelas.
A instituição conta com o Núcleo Hospitalar de Epidemiologia, responsável por encaminhar amostras para os laboratórios credenciados pelo Ministério da Saúde, garantindo o diagnóstico preciso. “O núcleo realiza também notificações e o acompanhamento epidemiológico, além de solicitar tratamentos e investigar óbitos. Os demais serviços e terapias necessários são fornecidos de forma individualizada pela instituição”, enfatizou Gastaldi.
Já a dermatologista Sandra enfatiza que as DTNs que mais afetam a pele incluem a hanseníase, a leishmaniose, cromomicose, micetomas e ectoparasitoses como escabiose. O Huap-UFF oferece diagnóstico e tratamento para essas doenças. A Dermatologia, em conjunto com profissionais das Doenças Infecciosas e Parasitárias (DIP), coordena um projeto de extensão com ações educativas em doenças negligenciadas. Entre as atividades do projeto estão a produção de panfletos informativos e a divulgação de conteúdos educativos sobre as DTNs em ambiente digital.
Complicações e sequelas das doenças
Se não tratadas ou com diagnóstico e tratamento tardios, essas doenças podem causar comprometimento sistêmico, com perda de peso intensa e impacto no desenvolvimento infantil. Além disso, há o risco de lesão orgânica grave, como aumento do baço, hipertensão portal, fibrose pulmonar, lesões cutâneas e mucosas mutilantes. Arboviroses e malária podem evoluir rapidamente para óbito, com lesões renais e hepáticas.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Neurizete Duarte, com revisão de Andreia Pires
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh