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PROTAL
HU disponibiliza tratamento para transtornos alimentares
Programa com equipe multidisciplinar atua na recuperação de pessoas com diagnóstico de anorexia, bulimia e compulsão alimentar
Publicado em
26/03/2019 10h21
Atualizado em
31/10/2022 08h26
Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, cerca de 70 milhões de pessoas no mundo sofrem com transtornos alimentares. A anorexia nervosa, a compulsão alimentar e a bulimia nervosa são patologias reconhecidas e enquadradas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como doenças mentais. Por isso, a fim de orientar e tratar pacientes que sofrem com esses distúrbios, o HU-UFJF/EBSERH criou o Programa de Transtornos Alimentares (Protal). O grupo iniciou as atividades em maio de 2018, sendo o primeiro serviço para atendimento de transtornos alimentares da região.
O serviço é direcionado ao município de Juiz de Fora e às cidades do entorno, sendo necessário encaminhamento de uma Unidade Básica de Saúde para o acolhimento. Acerca da participação no grupo, o coordenador e psiquiatra do HU-UFJF/EBSERH, Alexandre de Rezende Pinto, enfatiza: “a proposta é atender pacientes com transtornos alimentares. Não é puramente uma dieta para reduzir peso; é o tratamento de um distúrbio”. Por essa razão, é realizada uma triagem visando certificar que a população atendida de fato necessita do suporte.
De acordo com o médico, os principais casos de distúrbios alimentares estão presentes entre as mulheres, especialmente jovens adultas. Estima-se que, ao longo da vida, entre 0,5 e 4% da população feminina terá anorexia nervosa, de 1 a 4,2% bulimia nervosa e 2,5% transtorno do Comer Compulsivo. A questão é de extrema relevância, mas, no entanto, em muitos lares ainda é considerada um tabu, por tratar-se de um assunto sensível.
O psiquiatra destaca que até mesmo dentro da medicina ainda existem dificuldades para lidar com o paciente que apresenta transtorno alimentar, pois há poucos serviços de orientação e apoio.
Sobre os distúrbios
A anorexia é configurada por uma severa restrição alimentar, medo intenso do ganho de peso e distorções a respeito da própria imagem corporal. Já na bulimia, a pessoa ingere um número grande de alimentos e, logo em seguida, motivada pelo medo do ganho de peso, expele os alimentos, seja por indução do vômito, seja pela ingestão de laxantes.
E a compulsão alimentar, ao contrário do que acontece nos episódios bulímicos, não é seguida de expulsão destes alimentos do corpo. Deste modo, ao contrário dos outros dois transtornos, a doença resulta em sobrepeso ou obesidade.
Programa de Transtornos Alimentares (Protal)
Atualmente, o Programa de Transtornos Alimentares do HU-UFJF/EBSERH conta com uma equipe multiprofissional composta por médicos, psiquiatras, endocrinologistas, professores da Faculdade de Medicina, preceptores do Hospital Universitário, além de nutricionista, enfermeira, psicóloga, residentes do terceiro ano de Psiquiatria, alunos e estagiários. Também compõem o Protal colaboradores que integram o Projeto de Extensão da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
O acolhimento dos pacientes inclui uma avaliação inicial, composta por testes que analisam desde a Escala de Compulsão Alimentar (ECA) ao comportamento alimentar (EAT 26). Também é considerada a escala de silhueta, que analisa a autopercepção de cada paciente.
Para participar do Protal, o paciente deve passar por uma Unidade Básica de Saúde e, se observada a necessidade de tratamento, o médico fará o encaminhamento ao Hospital Universitário. Após a avaliação, a pessoa passa a receber os cuidados da equipe multidisciplinar do HU-UFJF/EBSERH.
Culto ao corpo e padrões
O psiquiatra Alexandre Rezende enfatiza que, de modo geral, os transtornos alimentares são produtos de uma complexa inter-relação entre os aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais. O médico pontua que o culto ao corpo presente em nossa sociedade atual, definindo os corpos magros como padrão de beleza, é um dos fatores que mais contribuem para o aumento destes distúrbios.
O profissional aponta a pesquisa realizada nas ilhas Fiji por Anne Becker, professora da faculdade de Medicina de Harvard, como um estudo de caso que ilustra essa questão. Nele, ficou demonstrado que o acesso à TV e à Internet contribuiu para prevalência e para o aumento de transtornos alimentares na ilha.
A pesquisa de Anne Becker foi realizada em duas etapas, em 1995 e 1998. Os resultados apontaram que os indicadores de transtorno alimentar (principalmente a perda excessiva de peso) foram significativamente mais acentuados após 1998, o que sugere um impacto negativo da mídia. Segundo Alexandre, essa imagem idealizada é um dos motores para os transtornos alimentares. “Observamos meninas com anorexia que iniciam este processo de emagrecimento devido ao balé, dança ou moda e não conseguem identificar a perda de peso. Estão sempre buscando encaixar-se em padrões magros”, explicita o coordenador.
Este “não-reconhecimento” da necessidade de tratamento é um dos desafios da recuperação do distúrbio. Por isso, é essencial que a família observe o comportamento dos membros de seu grupo e procure orientação médica objetivando o auxílio destas pessoas, defende Alexandre.
Bolsista: Nayara Martins.