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OUTUBRO ROSA
Fisioterapia no HU-UFJF melhora qualidade de vida de mulheres pós-câncer
Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), quase 60 mil novos casos de câncer de mama são estimados para este ano de 2019 no Brasil, e a taxa bruta de mortalidade foi de 15,4 óbitos por 100 mil mulheres no país. Um dos maiores problemas relacionados à doença é a detecção tardia, quando o tumor está em estágio mais avançado, piorando o prognóstico. Isso tem relação com fatores relacionados ao conhecimento sobre o câncer de mama e às dificuldades de acesso das mulheres aos métodos diagnósticos e ao tratamento adequado, afirma o INCA.
No Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF/EBSERH), mulheres com câncer de mama são atendidas nos serviços de ginecologia, oncologia e cirurgia plástica. Após a cirurgia, muitas são encaminhadas para o serviço de fisioterapia. É um encaminhamento interno. A fisioterapeuta pélvica e oncológica do HU-UFJF, Priscila Almeida Barbosa, explica que os grandes problemas são o diagnóstico e o tratamento tardios. Dessa forma, com câncer em estágio mais avançado, não é possível fazer uma cirurgia mais conservadora, com a preservação da mama e sem comprometimento de peitoral, de músculos. Ao contrário, faz-se necessária uma cirurgia mais agressiva, muitas vezes associada ao esvaziamento axilar, que acaba levando a sequelas muito maiores. “Os complicadores estão aí, porque têm disfunções de ombro, lesão nervosa, síndrome da rede axilar, alterações relativas à lesão nervosa periférica induzida pela quimioterapia, são as várias toxidades, linfedema [inchaço causado por obstrução no sistema linfático], um problema que a gente encontra hoje aqui e que nem tem cobertura do SUS”, esclarece.
A fisioterapeuta indaga a respeito da qualidade de vida dessas mulheres, mesmo com a queda na mortalidade por câncer de mama e a sobrevida. “Sabemos que a medicina avançou muito, proporcionou aumento do número de vida aos anos, mas e a qualidade de vida oferecida nesses anos pela sobrevida aumentada?”. Além das disfunções físicas extremamente incapacitantes citadas, há também os aspectos laboral, emocional e sexual. “Nossa preocupação, enquanto fisioterapeutas, não é só uma questão da função física, da reabilitação, mas é também saber da questão laboral, se a mulher será captada novamente para o mercado de trabalho, além da função sexual. Elas ficam muito deprimidas, já que muitas vezes a quimioterapia induz uma menopausa precoce. Isso não é informado, é um dado subnotificado, entretanto existe tratamento também, em conjunto com a fisioterapia”.
Dessa forma, as mulheres em acompanhamento pós-câncer de mama precisam de uma abordagem multidisciplinar e integral. “Precisamos ter um olhar para essa mulher durante anos, até porque existem sequelas duradouras, por mais que tenhamos hoje técnicas cirúrgicas melhores e um avanço da medicina”, ressalta Priscila.
Grupos de apoio
Pensando nisso, no HU-UFJF existe uma rede de apoio às pacientes. Capacitações são realizadas com toda a rede assistencial do hospital para informar sobre o fluxo, cuidados pós-operatórios envolvendo médicos, enfermagem, psicólogos, nutrição até a fisioterapia.
Há também, às segundas-feiras, uma roda de conversa com mulheres atendidas na fisioterapia e que já passaram pelo câncer de mama. “É um momento de troca, quando cada uma conta a sua história, divide a sua dor, a sua angústia. Uma mulher, ao passar por um câncer de mama, vive sempre com medo da recidiva e fica pelo menos cinco anos em controle, tanto de exames laborais quanto pelo oncologista, mastologista e ginecologista. Elas têm sempre que ficar relembrando essa experiência e vivenciando o câncer”, esclarece a fisioterapeuta Priscila.
“A fisioterapia é fundamental, aqui no HU eles cuidam de tudo! Estamos aqui toda semana, temos todo o apoio”. Essa é a opinião da paciente Patrícia Mamedes, participante do grupo. Ela também lembra que aprende exercícios para fazer em casa e destaca a importância da convivência com as outras mulheres e as profissionais: “Só de vir aqui e encontrar com as meninas já é muito bom, porque a gente não entra em depressão. A fisioterapia ajuda a aliviar a dor, porque essa é uma dor que não vai acabar, mas, sem a fisioterapia, como vai ficar? Tem gente que desanima porque acha cansativo, mas não vê que o benefício compensa muito! Eu tive apoio fisioterapêutico desde o leito, e isso foi fundamental para eu não ‘fazer arte’ e não deixar meu braço inchar”.
Opinião parecida tem a paciente Heloisa Helena, mais conhecida como Helô. Ela passa pelo segundo tratamento de câncer de mama no HU-UFJF. “Eu tenho muito a agradecer ao hospital por ter cedido esse espaço para a gente e por nos acolher. Eu falo assim porque, por cada lugar onde a gente passa, é uma experiência diferente. Fui muito bem recebida e acolhida. Fiz a cirurgia pela Unidade do HU Santa Catarina e foi tudo muito bom na parte hospitalar e de internação. Aqui [na unidade do HU Dom Bosco], eu faço tratamento na parte de fisioterapia e psicologia, e para a gente é muito importante. Nós formamos um grupo. Durante esse caminho, a gente vai conhecendo pessoas e vai adquirindo novas experiências, nosso grupo é bem fortalecido, porque uma ajuda a outra e, aqui, a gente se fortalece.”
Para Helô, "a fisioterapia é coisa do bem. As pessoas falam que fisioterapia é chato, mas para mim é remédio. Quanto mais fisioterapia você faz, mais você vai adquirindo confiança nos seus fisioterapeutas, e isso é muito importante. Se eu não tenho confiança no fisioterapeuta que está fazendo o tratamento em mim, a fisioterapia não vai render, então o carinho e a acolhida que eles têm com a gente já são um caminho para que o serviço seja maravilhosamente bem feito! Eu só tenho a agradecer aos fisioterapeutas e à equipe médica que estão sempre de olho na gente. Nós não temos palavras e nem como pagar pelo carinho e pela dedicação, só temos a agradecer de coração.”
Júlia Engelmann, também fisioterapeuta do HU-UFJF, reitera que o grupo se encontra toda semana para se fortalecer e se reafirmar. “As mulheres usam esse grupo como um fortalecimento psicológico, essa é a hora que elas vêm para cuidar delas, quando param de pensar em outros problemas e vêm fazer a fisioterapia. A gente trabalha o global da saúde dessas mulheres, visando melhorar um pouco a qualidade de vida. Então nós trabalhamos o corpo como um todo, não só o braço ou o membro. A gente tem que pensar o tratamento pós-câncer. Elas são sobreviventes do câncer. É um processo de muita dor e muito sofrimento, e o sofrimento fala através do corpo - por meio de dores e dificuldades”.
Prevenção
Cuidados para prevenir o câncer de mama:
. Fazer o auto-exame: é importante se tocar;
. Estar com os exames em dia, principalmente a mamografia: O SUS prevê a partir dos 45 anos, já a Sociedade Brasileira de Mastologia, a partir dos 40 anos;
. Fazer atividade física regular;
. Ter uma alimentação saudável e boa saúde mental;
Importante lembrar que a genética pode ter um peso importante no desenvolvimento de um câncer assim como o estilo de vida. Também tem influência o aumento da expectativa de vida da mulher: o envelhecimento aumenta o risco de câncer, por isso a importância de se cuidar!
Entrevista – Maycon Reboredo – responsável pelo setor de Fisioterapia do HU-UFJF
Como se estruturou o atendimento às mulheres acometidas por câncer de mama no setor de Fisioterapia do HU?
Este atendimento teve início com a atuação dos alunos do curso de Fisioterapia nas aulas práticas sob a supervisão da professora Simone Meira Carvalho e, em 2001, foi criado o projeto intitulado “De peito aberto” com atendimento interdisciplinar para estas mulheres. O projeto, as aulas práticas e o estágio ainda permitem nos dias atuais um atendimento ampliado, diferenciado e de muita qualidade para esta população. O grupo de câncer de mama, por exemplo, atende cerca de 10 mulheres nas segundas-feiras às 13h45. São mulheres com histórico de sequelas referentes à terapêutica do câncer de mama, principalmente no que diz respeito às disfunções de ombro homolateral à cirurgia e às que apresentam dor crônica.
Como tem avaliado os resultados obtidos?
A atuação das fisioterapeutas, professoras, residentes e alunos nesta área permitiu aumentar de forma significativa o número de atendimentos, contribuindo para maior oferta de vagas para a rede SUS de Juiz de Fora. Outro resultado de extrema relevância é o elevado grau de satisfação das mulheres atendidas pelo serviço.
É um atendimento diferenciado na cidade de Juiz de Fora dentro do SUS?
Este serviço é muito diferenciado na rede SUS, uma vez que representa um dos raros centros que oferecem este atendimento ambulatorial com equipe especializada na área.
Qual a importância do trabalho de vocês para a capacitação de alunos, residentes e profissionais?
Considerando que o Serviço de Fisioterapia oferece um atendimento especializado nesta área, nossos alunos e residentes ampliam seus conhecimentos por meio de aulas práticas, atendimentos supervisionados, discussão de casos clínicos e artigos científicos, entre outros.
Veja também:
A situação do câncer de mama no Brasil – síntese de dados dos sistemas de informação
Exposição: A mulher e o câncer de mama no Brasil
Colaboração: bolsista Camila Wendling.