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APÓS 12 ANOS
CAPS promove reencontro de usuário com familiares
Wellington dos Santos Ferreira tinha 27 anos quando saiu de casa e perdeu o contato com os familiares. No total, foram doze anos sendo considerado desaparecido, vagando por diversas cidades, algumas ainda desconhecidas. Apenas em 2019 o reencontro foi viabilizado, a partir da atuação das equipes do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS Liberdade), administrado pelo HU-UFJF/EBSERH, e do Grupo Espírita de Assistência aos Enfermos (Gedae), responsável pela residência terapêutica onde Wellington residia.
Desde que chegou a Juiz de Fora, em 2017, Wellington recebia os cuidados disponibilizados pelo CAPS aos moradores da residência terapêutica mantida pelo Gedae. Segundo a responsável técnica do Grupo, Joelma Aparecida de Souza, ao chegar na instituição Wellington não informou quem era ou de onde veio. Ele era descrito como um morador quieto, de pouca comunicação, limitando-se apenas a saudações como “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”. “Sempre que tentávamos colher alguma informação para resgatar a história dele, Wellington se esquivava, geralmente levantava e não conversava”, revelou Joelma.
A partir do trabalho da equipe médica e multiprofissional do CAPS, Wellington voltou a se comunicar. Assim, ele pôde identificar sua cidade de origem: Aparecida de Goiânia (GO), a cerca de 800km de Juiz de Fora. “O médico fez uma série de adequações na medicação dele. A partir desse momento, percebemos mudanças em seu comportamento. Ele começou a falar. Não contou sobre o passado, mas começou a pedir pela mãe. Disse que queria ir para casa. Como o Wellington possui limitações na fala, perguntei se ele sabia escrever. Ofereci um pedaço de papel e uma caneta e ele escreveu o nome da mãe, o endereço e o nome do irmão”, explica Joelma. A profissional aponta que, com base nas informações, entrou em contato com a equipe do CAPS Liberdade, que reiniciou a mobilização para encontrar os familiares.
Segunda tentativa
Essa foi a segunda tentativa de localização dos familiares. “A busca começou ainda em 2018, mas o sobrenome que tínhamos nos registros estava errado. Até a Polícia Civil já havia sido acionada para realizar a busca pela impressão digital. Também contatei um hospital em Barbacena, onde ele esteve internado, mas também não descobrimos a cidade de origem. Na última semana de janeiro ele começou a se comunicar. Foi aí que conseguimos encontrar a família”, esclarece a enfermeira do CAPS Ilda Cristina Andrade.
De acordo com a enfermeira, que acompanhava Wellington mensalmente, após dizer o nome da cidade de origem a Guarda Mirim [projeto social com foco na assistência aos jovens] de Aparecida de Goiânia foi acionada, já que ficava próxima ao endereço informado. “Foram eles que encontraram a casa da família e nos encaminharem o telefone do irmão. A equipe foi muito atenciosa”, explica.
As profissionais relatam que, após localizarem o irmão, Edberto, o contato foi estabelecido por chamadas de vídeo que possibilitaram o reconhecimento de Wellington e da família. “Eles se reconheceram e nos encaminharam fotos e documentos do Wellington. A partir daí, entramos em contato com o departamento de saúde mental, para viabilizar o reencontro”, enfatizou a enfermeira do HU-UFJF/Ebserh.
Reencontro
O irmão de Wellington, Edberto Mendes da Silva, relata que, apesar do longo período, nesses 12 anos a família não desistiu das buscas. “Tínhamos esperanças. Meu irmão costumava se ausentar por alguns períodos. No entanto, esse sumiço aconteceu de repente e foi martirizante para toda família, principalmente para nossa mãe”, evidencia. Desde o reencontro, na última semana de janeiro, Wellington reside com a mãe, Leuzimar dos Santos Cristina, em Silvânia (GO). A cidade fica a cerca de 100km de Aparecida de Goiânia, município identificado por Wellington e onde reside Edberto.
Após a reunião da família, o sentimento da equipe de profissionais é de alegria e de dever cumprido. “Todos estavam muito ansiosos para restabelecer essa conexão. O Wellington é acompanhado pelo CAPS desde novembro de 2017, e todos nós criamos um vínculo com ele. Fazíamos visitas mensais à residência terapêutica. Agora, estou em paz”, celebra Ilda.
Edberto afirma que, sem o acolhimento e a atenção das equipes do Gedae e do CAPS Liberdade, a procura pelo irmão seria muito mais difícil. “Agradeço ao trabalho dos profissionais que o atenderam. Sou muito grato ao acolhimento do Gedae e à atenção do CAPS com o meu irmão. Os outros médicos só ‘tacavam’ remédio nele, o que certamente prejudicou ainda mais seu raciocínio e fala, demorando para que nós pudéssemos encontrá-lo. Agradeço muito a todos que o atenderam. A equipe foi muito atenciosa”.
Além de acionar a família, o CAPS também entrou em contato com a Secretaria de Saúde de Aparecida de Goiânia, para que houvesse a continuidade do tratamento. “A terapêutica prescrita a ele por nós, funciona. Por isso é importante continuá-la. Agora, o lugar do Wellington é perto da família. Nosso objetivo sempre foi esse”, celebra Ilda.
Para a chefe da Unidade de Atenção Psicossocial, Sabrina Barra, o reencontro faz parte das atribuições do serviço prestado aos pacientes. “Nós pudemos atingir nosso principal objetivo, que é a reinserção na família e na sociedade. É uma reparação histórica”, comemora.
Bolsista: Nayara Martins.