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Anemia falciforme requer acompanhamento contínuo e atenção multiprofissional, orientam hematologistas do HC-UFTM
Instituído em 2008 pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Dia Mundial de Conscientização sobre a Anemia Falciforme é registrado em 19 de junho, com o objetivo de chamar a atenção para essa doença hereditária e genética que provoca alterações no sangue, dificultando a passagem de oxigênio para o cérebro, pulmões, rins e outros órgãos do corpo humano.
Atualmente, 265 pacientes fazem acompanhamento ambulatorial dessa enfermidade no Hemocentro Regional de Uberaba, administrado pela Fundação Hemominas. Esse atendimento é realizado em parceria com o Hospital de Clínicas da UFTM, que disponibiliza consultas em diversas especialidades necessárias para tratar eventuais complicações derivadas da doença.
A hematologista Lilian Vieira de Sousa Oliveira, que atua no HC-UFTM e no Hemocentro, explica que na doença falciforme os glóbulos vermelhos do sangue, chamados hemácias, apresentam uma alteração na proteína responsável pelo transporte do oxigênio. Isso faz com que, em condições desfavoráveis como exposição ao frio, presença de infecção, estresse físico e emocional ou desidratação, as hemácias adquiram formato de meia lua, provocando obstrução dos vasos sanguíneos, dores, falta de oxigenação e lesões nos órgãos.
"Na presença de anemia desde a infância, dores nos ossos e icterícia (olhos amarelos), deve-se considerar a possibilidade diagnóstica de anemia falciforme", alerta Oliveira. A profissional informa que, na atualidade, o diagnóstico é realizado principalmente por meio do teste do pezinho, logo após o nascimento. “Nos casos em que não tenha sido realizado esse teste, a doença pode ser rastreada a qualquer momento pelo exame laboratorial eletroforese de hemoglobina”, acrescenta.
A também hematologista do HC-UFTM e do Hemocentro Pollyana Cristina Bernardes Valize atende crianças, adolescentes e adultos portadores de doença falciforme e reforça que o cuidado precoce, iniciado ainda no primeiro mês de vida, possibilita a orientação continuada da família, a realização de medidas para redução das complicações infecciosas (prescrição de antibióticos para profilaxia, vacinação especial) e a vigilância em relação a diversas complicações clínicas.
De acordo com Valize, no que diz respeito a esses pacientes, episódios de febre, dor, palidez, acentuação da icterícia e aumento do tamanho do baço devem ser prontamente avaliados em serviço de urgência, devido ao risco de complicações e óbito, uma vez que os portadores de doença falciforme são considerados imunodeprimidos.
“A enfermidade pode comprometer progressivamente o sistema nervoso central, olhos, coração, pulmões, rins, ossos e pele. O rastreio deste acometimento é feito regularmente e pode ser necessário o acompanhamento de especialidades como Neurologia, Oftalmologia, Cardiologia, Pneumologia, Nefrologia, Ortopedia, Cirurgia Vascular, entre outras”, Valize prossegue, pontuando que, dada essa complexidade, o atendimento especializado e multiprofissional disponibilizado pelo Hospital de Clínicas da UFTM é essencial.
A estudante de Serviço Social Maria Conceição Rosa Vilela, de 48 anos, descobriu ter anemia falciforme ainda na infância. À época, descobriu-se que um dos irmãos dela tinha a doença e um médico pediu o rastreamento para toda a família. Ela conta que foi a única também diagnosticada, e que ao longo de sua vida nunca conseguiu emprego com carteira assinada, devido a essa condição clínica.
Vilela retrata, a partir de sua experiência, que o mercado de trabalho em geral tem sido excludente e discriminatório em relação aos portadores da doença, cuja incidência é maior entre a população negra. “Passei por isso mesmo sendo aprovada em processo admissional, mas ao fazer o exame de sangue eles já chegavam para mim [dizendo] ‘olha, você foi bem, mas está com uma anemia muito profunda’... só que eu já sabia que era a doença falciforme, e nas entrevistas que não tinham exame admissional, se falasse que tinha a patologia, eles não contratavam”, relembra.
Assim como o irmão, que faleceu em virtude da doença, ela precisou ter o baço retirado aos seis anos de idade. Nos períodos em que esteve internada, chegando a passar meses hospitalizada, Vilela relata que "foi salva pelas transfusões de sangue". Conforme o tempo foi passando, as sequelas começaram a aparecer. “Tenho necrose na cabeça do fêmur do lado esquerdo, manco... são não sei quantos centímetros de diferença da perna direita para a esquerda, e às vezes dói muito; quando dói você pode tomar a medicação que for e não passa”, lamenta.
Trimestralmente, Vilela comparece para consultas no Ambulatório do Hemocentro. Ela se preocupa com “um dia de cada vez, pois as crises não têm hora para acontecer” e preside, atualmente, a Associação Regional dos Falcêmicos de Uberaba (Arfa), que dá suporte a pessoas com a doença, interagindo e representando-as junto a outras entidades no país. Na visão da paciente, o 19 de junho também é importante para tirar da invisibilidade a doença falciforme e sensibilizar a todos para a necessidade do diagnóstico correto, para que se comece o tratamento da condição crônica e o portador tenha uma melhor qualidade de vida.
Unidade de Comunicação Social HC-UFTM