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Bullying contra crianças e adolescentes com fissuras labiopalatinas é tema de atividade no HULW
Com lápis e cola colorida na mão, Maria Luiza faz arte na folha de papel. Como toque final, desenha uma boca pequenina na figura que acabou de criar. O gesto reflete o sentimento do dia: “Cada sorriso é único”. A frase se alinha a uma ação realizada no Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW-UFPB/Ebserh) com o objetivo de conversar sobre bullying com crianças, adolescentes e familiares assistidos pelo Serviço de Fissuras Labiopalatinas. O Dia Mundial do Sorriso é celebrado na primeira sexta-feira de outubro.
A iniciativa do hospital-escola integra uma ação da Smile Train Brasil, organização internacional que é parceira do HULW no tratamento de crianças fissuradas. Com o tema "Todos os sorrisos são lindos", a II Semana Internacional de Fissura Labiopalatina Smile Train visa a construir um diálogo em torno da inclusão e do combate ao bullying bem como a conscientizar sobre as condições de fissura.
De acordo com o médico Paulo Germano, fundador do Serviço de Fissuras Labiopalatinas do Lauro Wanderley, eventos desse tipo são muito importantes, porque as pessoas com fissura labiopalatina são grandes vítimas de preconceito. “Os fissurados, além do defeito na face, que é a parte mais visível do corpo, ainda têm defeito na fala, e viram alvo do bullying, por isso é necessário proteger esses pacientes e conscientizar as crianças e os pais”, explica.
Paciente do HULW desde quando era bebê, o técnico de enfermagem Phrancynyldo de Sousa Silva, 30 anos, participou da programação no hospital-escola. “É muito chato ter esse problema e lidar com o preconceito dos outros. Mas a gente vai crescendo e vê que isso não é nada, apenas um pequeno percurso que tem de seguir. Então, a gente tem sempre de levantar a cabeça, não deixar que os outros nos menosprezem por coisas tão pequenas”, diz.
Lembrando o Dia Mundial do Sorriso, o técnico de enfermagem falou que seu sorriso é muito espontâneo. “Eu gosto muito de sorrir. Eu sou feliz. Já passei muito por bullying, mas hoje em dia sei que o melhor para conviver com o bullying é você se aceitar. Então, digo a todos: sempre sorria”.
Ação educativa reforça a autoestima
No HULW, a programação ocorreu na quinta (30) e sexta-feira (1º) e contou com sala decorada com balões, lanche especial e atendimento às crianças e aos adolescentes. Na quinta-feira, houve uma apresentação da psicóloga Patrícia Menezes Pereira, que faz parte da Residência Integrada Multiprofissional em Saúde Hospitalar (Rimush/UFPB). A apresentação teve como foco auxiliar mães e crianças a lidar com o bullying. Já na sexta, a ação foi direcionada aos adolescentes e pacientes já adultos.
“Realizamos uma atividade de conscientização sobre a fissura labiopalatina, tentando reforçar a autoestima das crianças e trazendo à tona, também, a questão do bullying, que é um problema que elas acabam enfrentando muito por terem uma aparência ou uma forma de falar que é diferente da maioria das pessoas”, afirma Patrícia Menezes.
Ela lembra que outras crianças, ao se depararem com um coleguinha com a fissura no rosto, costumam reagir de forma até agressiva com quem é diferente. “Às vezes, são até mesmo um pouco cruéis, mas sem essa intenção. É pelo desconhecimento do que é estranho, da falta de informação, e aí reagem com piadas, com comentários, com risos, e tudo isso tende a provocar diminuição da autoestima de quem é alvo desse tipo de atitude”, explica a psicóloga.
Se isso for um comportamento repetitivo, explica a especialista, se configura como bullying e faz com que a vítima tenha sua confiança diminuída. “Ao ser foco dessas atitudes negativas, a criança com fissura labiopalatina perde a espontaneidade do sorriso, que é o tema da ação aqui no HULW, e o bullying vai minando o seu desenvolvimento emocional e sua liberdade de expressar emoções”, esclarece Patrícia Menezes.
Assistência no HULW contribui para lidar com o bullying
A dona de casa Fabiana Silva é mãe do pequeno Samuel, de pouco mais de 2 anos de idade e que é atendido no HULW desde os 7 meses. Ela conta que ficou muito assustada ao ver que Samuel nasceu com a fissura labial. “Foi muito difícil, mas agora ele já fez duas cirurgias. Quando comecei a ser atendida aqui, me senti melhor, fui me acostumando ao ver outras crianças como ele”, diz.
Também usuária do HULW, Josicleide Miguel de Brito é assistida na instituição desde que a filha Maria Luiza nasceu. “Ela tinha a fissura no lábio e nasceu prematura, aí me encaminharam logo para aqui. Vai fazer 7 anos que ela é atendida aqui e já fez duas cirurgias. Acho tudo maravilhoso”, afirma. “Acolhem a gente muito bem, principalmente as crianças”.
Sobre a palestra, Josicleide disse que achava muito importante, porque ela e a filha já foram vítimas de bullying. “As pessoas não entendem porque elas (as crianças) nascem assim. Ficam apelidando, ficam falando que essas crianças não eram para ter nascido, que é maldição. Já escutei muito isso dentro do ônibus, quando eu vinha para cá com ela”, comenta.
Angélica Lúcio - Jornalista HULW-UFPB