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À PRIMEIRA VISTA
Projeto inovador permite aos irmãos visitarem os bebês na UTI Neonatal
O tempo considerado ideal para um bebê nascer é após, pelo menos, 37 semanas de gestação. Mas Salomão apressou-se e com apenas 30 semanas veio ao mundo. Pesando 800 gramas, era de uma fragilidade que muitos podiam pensar que não resistiria. Ao completar dois meses, e ainda internado na UTI da Maternidade Escola Assis Chateaubriand, ele recebeu, pela primeira vez, a visita do irmão, Kauê Lucas, de 11 anos. O encontro foi possibilitado pelo projeto “Visita dos irmãos”, implementado na última sexta, dia 13 de maio.
A ideia da visita dos irmãos na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC) é relativamente antiga. Psicólogos e enfermeiros da UTI Neo pensavam em colocá-la em prática, mas não havia profissionais suficientes. Com a entrada de concursados, o projeto saiu do papel. “A gente viu a necessidade pelas próprias mães da Neo que sinalizavam o desejo de que seu outro filho visse o irmãozinho, porque a criança que fica em casa não entende esse irmão imaginário, que não parece real pra ele”, relembra Natalie Brito, que ao lado de Socorro Leonácio, forma a equipe de psicólogas responsáveis pela iniciativa.
A cada sexta-feira, três bebês internados recebem seu irmãozinho. A escolha das famílias que serão contempladas na semana é feita às quartas-feiras, no grupo terapêutico das mães que estão com os filhos na UTI Neo. “Nesse grupo, fazemos uma triagem pra saber quais os casos com maior necessidade, a partir da problemática de cada família, e também avaliamos as condições das crianças de virem”, explica Natalie.
Quando os irmãos chegam, participam de um pequeno grupo de preparação. As enfermeiras Izélia Gomes e Roberta Bandeira prepararam um bonequinho que simula o bebê com todos os dispositivos que possivelmente seu irmão esteja usando na UTI, como sondas, acessos venosos, curativos... Para o irmão, é então explicado como a criança está lá dentro. Observa-se suas expectativas, se ele tem alguma fantasia (por exemplo, se ele imagina um bebê muito diferente da realidade) e as psicólogas vão trabalhando essas fantasias com o irmão.
Em seguida, elas aplicam um questionário com as mães pra saber como está a saúde dessa criança, pra saber se ela tem condições de adentrar no ambiente da neonatologia. As três crianças vão, então, desenhar seus irmãozinhos. Esse desenho dá às psicólogas subsídios pra avaliação antes de entrar no berçário.
A visita é guiada. “O irmão entra conosco, todo paramentado, com os equipamentos de proteção individual. Ensinamos a higienizar as mãos, dizemos o que ele pode ou não fazer lá dentro e pedimos pra ele conversar com o bebê. A última fase da visita é uma conversa, na qual eles nos contam como se sentem”, afirma Natalie Brito.
Na avaliação da enfermeira Izélia Gomes, a primeira turma do projeto foi muito boa. “Superou todas as nossas expectativas, tivemos uma entrega completa da equipe. As crianças estavam bastante ansiosas pra conhecer os irmãos. Todos colaboraram, entendendo a necessidade daquele momento”, disse. Izélia é uma das profissionais que acalentavam esse sonho há vários anos e não conteve as lágrimas ao acompanhar a emoção dos familiares dos bebês reunidos.
As mães também ficaram bastante felizes. Elisabete Custódio, a mãe do Salomão e do Kauê, disse que fazia muito tempo que o primogênito pedia para ir. “Ele agora vai entender melhor porque todos os dias eu tenho que vir para cá e o que fico fazendo”, disse. “Essa visita estreita os laços e agora quando eu chegar em casa contando como o Salomão está melhorando, ele já tem uma imagem na cabeça”, completou Elisabete, ainda comovida.
Quando Kauê foi entrevistado, estava desenhando o irmão caçula. Para ele, a maior alegria foi ver o rostinho do irmão. “Não imaginava que ele era tão pequeno!”, disse. “Quando o Salomão for pra escola, vão começar a brincadeira de dizer que ele é aperreado, que se apressou em nascer”, comentou brincando. Agora, Kauê, Carlos Henrique e Guilherme já conseguem entender porque os irmãos precisam de tanta dedicação das mães e porque estão em um ambiente diferente, com cuidados especiais. E já contam os dias pra tê-los em casa. “Vou cuidar muito dele, vou ajudar minha mãe”, completou Kauê, cheio de confiança.