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OUTUBRO ROSA
Entrevista com o médico Evandro Canhaço – Mastologista do HU-UFGD
O médico mastologista Evandro Canhaço atua no HU-UFGD e fala sobre os principais tópicos relacionados ao câncer de mama, doença que acomete 50 pessoas a cada 100 mil habitantes
O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre mulheres no Brasil e no mundo. Quais fatores podem ser apontados como causadores ou colaboradores para o surgimento da doença? Agrotóxicos presentes nos alimentos estão entre eles?
Dr. Evandro: O câncer de mama só perde para o câncer não melanoma (um tipo de câncer de pele). A incidência dele é alta. Para se ter uma ideia, em uma população de 100 mil habitantes, a gente vai ter uma média de 50 novos casos de câncer de mama por ano. Então, Dourados, com uma população de 200 mil, teria cem novos casos de câncer de mama a cada ano.
O câncer de mama é multifatorial e o que tem colaborado para o aumento da incidência seria a mudança no estilo de vida da mulher, principalmente a postergação da maternidade. O fato de ela ter o primeiro filho após os 30 anos colabora para um aumento do índice de câncer de mama, por conta também do número de ovulações que ela acaba tendo, porque o câncer de mama também tem uma relação com a ovulação da mulher.
Além disso, o câncer de mama também recebe influência do estilo de vida da paciente. Se ela sofre estresse, isso é importante por conta da urbanização, se há ausência de atividade física, ou, com relação à alimentação, a ingestão de álcool, tudo isso aumenta a incidência do câncer de mama, além da obesidade, principalmente na pós-menopausa. Quanto ao uso de agrotóxicos, até hoje a gente não tem nenhum estudo que conseguiu comprovar esse aumento na incidência de câncer de mama.
Como prevenir, indo além do autoexame? Qual profissional deve ser procurado inicialmente?
Dr. Evandro: O autoexame é estimulado porque, em muitos casos, é a paciente mesmo que acaba descobrindo um nódulo, principalmente as paciente mais jovens. Além disso, o autoexame é estimulado para a paciente se conhecer e perceber se houve alguma mudança no seu corpo.
Mas o que a gente orienta é que a paciente procure um ginecologista, fazendo os exames de prevenção anuais, e, além disso, também procure um mastologista para fazer os exames relativos à mama.
O que a paciente tem que ter em mente é que, a partir dos 40 anos, ela tem o dever e o direito de fazer uma mamografia anual. A mamografia é o único exame considerado rastreamento para câncer de mama e essa mamografia é liberada pelo serviço público. Então, a paciente pode procurar um serviço de assistência para obter a solicitação desse exame.
As pacientes de alto risco, que seriam aquelas com um caso de um familiar de primeiro grau com câncer de mama, têm que procurar fazer o rastreamento dez anos antes da idade com que o parente foi diagnosticado. Então, por exemplo, se ela tem mãe ou uma irmã que teve câncer de mama aos 45, ela tem que procurar fazer mamografia a partir dos 35 anos. E, em caso de qualquer dúvida, ele deve procurar um especialista.
Exames como ultrassonografia de mama e mamografia são indicados a mulheres a partir de qual faixa etária e de quanto em quanto tempo?
Dr. Evandro: A mamografia deve ser realizada em pacientes a partir de 40 anos, a periodicidade deve ser anual e essas pacientes têm direito garantido pelo governo federal brasileiro. Elas podem procurar uma Unidade Básica de Saúde, que o médico ou a enfermeira vão solicitar esse exame para elas. Esse é considerado um exame de rastreamento. O rastreamento também pode ser realizado um pouco mais antecipadamente para as pacientes com alto risco de câncer de mama, com um histórico familiar importante, como a ocorrência do câncer num parente de primeiro grau.
A ultrassonografia é um exame complementar importante, que a gente pode utilizar quando há dúvidas com relação à mamografia, quando ela ficou inconclusiva, auxilia também nas biópsias que a gente realiza e é um exame importante para as pacientes mais jovens. Nas pacientes que têm de 20 a 30 anos, ele é muito utilizado para os casos de nodulações com aspecto benigno na palpação. É um dos primeiros exames a serem solicitados.
Tem, ainda, a ressonância magnética de mamas, que é um exame que a gente pode utilizar também quando há alguma dúvida em relação à mamografia, ou até para as pacientes de alto risco.
É uma doença facilmente tratável? De que maneira a mulher deve proceder após o diagnóstico? E como funciona o tratamento?
Dr. Evandro: O tratamento do câncer de mama é um pouco complexo, porque depende principalmente do estadiamento*. Então depende de, no momento do diagnóstico, qual é o tamanho desse nódulo, se há alguma manifestação axilar e isso é que vai influenciar. Além disso, existem ouros fatores, como o receptor hormonal desse tumor, se a paciente tem receptor positivo ou não.
Nos casos de pacientes com diagnóstico inicial, paciente que teve o diagnóstico bem no início da doença, o tratamento seria ela ser submetia a uma cirurgia de mama. Na maioria dos casos, é uma cirurgia conservadora (atualmente a gente consegue manter a mama em uma grande parcela da população e a gente até utiliza técnicas de oncoplastia), então dificilmente a paciente acaba saindo mutilada da cirurgia, como acontecia antigamente. Além disso, ela tem que ter uma avaliação da axila quando o caso dela é positivo. É feita uma congelação intraoperatória e se der positivo o diagnóstico axilar, a gente também precisa fazer um esvaziamento e retirar os outros linfonodos** da axila.
O primeiro passo é esse para os casos iniciais. Em segundo caso, dependendo do grau, essa paciente vai para fazer uma quimioterapia e, em último caso, numa cirurgia conservadora de mama, ela vai fazer a radioterapia.
Se os receptores hormonais dessa paciente forem positivos, ela vai receber uma hormonioterapia no decorrer de cinco anos. Nos casos de diagnósticos mais avançados, essa paciente vai ser submetida a uma quimioterapia (a gente chama de quimioterapia neoadjuvante), que tem o intuito de diminuir o tamanho do tumor e fazer com que a cirurgia seja um pouco mais conservadora. Depois da cirurgia, ela vai ser submetida à radioterapia, no final.
*Estadiamento é a terminologia utilizada para se falar sobre o grau de comprometimento tumoral referente ao órgão específico (T), ao espalhamento para os gânglios (N) e a presença de metástase sistêmicas para ossos, fígado, pulmão e demais órgãos (M) constituindo o sistema TNM de estadiamento do câncer. Este sistema se aplica a praticamente todos os tipos de tumores.
**Linfonodos (gânglios linfáticos) são pequenas estruturas que funcionam como filtros para substâncias nocivas. Eles contêm células do sistema imunológico que ajudam no combater às infecções atacando e destruindo germes que são transportados pelo líquido linfático.
A possibilidade de recuperação de mulheres com câncer de mama é alta. Mas o que deve ser feito para que a doença não reincida?
Dr. Evandro: Essa paciente, na verdade, se torna “crônica”, digamos assim. É uma paciente que nunca pode deixar de fazer acompanhamento com um especialista. Então, nos primeiros dois anos, ela fica acompanhando a cada três meses com um mastologista, ela deve fazer os exames periódicos, e, além disso, a hormonioterapia que ela toma diminui a reincidência em torno de 50%. Então, a adesão ao tratamento é o principal fator que faz com que ocorra menos recidiva nesse tipo de tumor.
Recentemente, algumas mulheres, como a atriz norte-americana Angelina Jolie, têm adotado a mastectomia preventiva como forma de evitar o surgimento de um possível câncer de mama. Essa prática é indicada? A que grupo de mulheres se recomenda?
Dr. Evandro: Foi um caso polêmico, que ganhou mídia por conta de ser uma atriz mundialmente conhecida. A Angelina Jolie tem uma mutação nos genes BRCA1 e BRCA2, então ela acabaria tendo o risco de desenvolver o câncer de mama em torno de 70% e o câncer de ovário em torno de 50%. A gente chama esse tipo de cirurgia de cirurgia redutora de risco. Como eu disse, é polêmico, em todos os congressos há muito debate, muita discussão sobre isso, só que a indicação atual para esse tipo de cirurgia de prevenção é nas pacientes que têm uma mutação genética. Somente nesses casos é que está sendo indicado, após o rastreamento e evidenciando que ela tem uma anomalia genética. Então, nesses casos em que a gente acaba fazendo a cirurgia redutora de risco, acaba reduzindo em 90% o risco dessa paciente desenvolver câncer de mama.