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“Cuidado paliativo é para que a vida que pulsa seja plena e digna, é sobre como viver bem”

Publicado em 22/03/2021 17h51 Atualizado em 06/04/2021 15h11
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A minha história no Hospital das Clínicas da UFMG/Ebserh/MEC se confunde com a minha história com os cuidados paliativos. Em 2003, ainda estudante, tive meu primeiro contato com a área em um projeto de extensão chamado “CATHIVAR”, em que promovíamos ações de humanização direcionadas para pacientes com câncer e aids e o foco era ofertar cuidados paliativos.

Em 2012, me tornei médica do HC-UFMG e, em 2014, iniciei meu trabalho na equipe de cuidados paliativos como assistente e, desde então, aprendo um pouco a cada dia. A gente lida com uma população que, em sua maioria, tem uma insuficiência social e familiar importante, e isso tem que ser levado em conta na formulação do plano de cuidados. Muitas vezes, o nosso paciente vem de uma trajetória de vários tratamentos e intercorrências e a gente só o conhece no estágio final da doença.

Ao longo desses anos, foram vários pacientes marcantes, mas me lembro de uma paciente com um câncer incurável e avançado, porém muito autônoma, tentava preservar ao máximo sua independência. E um dia ela foi obrigada a ficar deitada na maca por conta de um tratamento anterior e ficou traumatizada. Desenvolveu verdadeiro pânico de morrer se tivesse que se deitar novamente. Ela falava que sentia falta de ar ao se deitar e optou por passar as noites sentada. Foi um desafio tratar essa senhora, mas ela nos ensinou que o tratamento tinha que ser conforme os valores dela e foi assim até o fim. Quando percebeu que tinha chegado o dia de sua morte, ela aceitou se deitar e faleceu de madrugada, de forma muito serena.

Sei que morrer não é fácil. Na maioria das vezes é sofrido e doloroso, mas um dos objetivos dos cuidados paliativos é minimizar essa dor. É muito gratificante quando a gente consegue dar esse suporte para os pacientes e seus familiares. Eu acho que eu me encontrei quando no cuidado paliativo. É uma atividade que me traz satisfação profissional e pessoal muito grande. A Cora Coralina fala que o saber a gente aprende nos livros, e a sabedoria a gente aprende com os pobres e os humildes, com as pessoas, com os idosos, com essas pessoas simples cuidamos todos os dias. E eu aprendo com essas pessoas todos os dias, com essas vidas das quais participamos em momentos tão importantes da vida.

A morte faz parte da vida e oferecer cuidados paliativos a pessoas em fase final é cuidar não somente para que seja menos sofrida, mas, sobretudo, cuidar para que a vida que pulsa seja plena, seja digna, que a pessoa possa conviver melhor com a doença, estabelecer suas prioridades de vida para aproveitar esse momento junto de seus familiares. Paliativo é sobre como viver bem.

 

Tatiana de Carvalho Espíndola Pinheiro

Equipe de Cuidados Paliativos do HC-UFMG/Ebserh/MEC

 

Sobre a Ebserh

A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), estatal vinculada ao Ministério da Educação, administra atualmente 40 hospitais universitários federais, incluindo o Hospital das Clínicas da UFMG. O objetivo é, em parceria com as universidades, aperfeiçoar os serviços de atendimento à população, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), e promover o ensino e a pesquisa nas unidades filiadas.

Com informações do HC-UFMG

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