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CONSCIENTIZAÇÃO
Tuberculose ainda afeta milhões de brasileiros, alertam especialistas da Rede Ebserh
O tratamento dura, no mínimo, seis meses e está disponível gratuitamente no SUS (Crédito: Freepik).
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Brasília (DF) - A tuberculose é uma doença infectocontagiosa que ainda figura como sério problema de saúde pública. Ela afeta principalmente os pulmões, mas também pode atingir outros órgãos, como rins, ossos, cérebro e gânglios linfáticos. Os hospitais universitários administrados pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) são referência no tratamento gratuito para usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
Na Semana Nacional de Mobilização e Luta Contra a Tuberculose (de 24 e 31 de março), especialistas da Rede Ebserh falam sobre prevenção, diagnóstico e tratamento dessa infecção micobacteriana. A campanha visa conscientizar a população sobre sintomas, como tosse persistente por mais de três semanas, febre e perda de peso, a fim de reduzir a transmissão da doença que ainda afeta milhões de brasileiros.
Prevenção, tratamento e desafios
A transmissão da doença acontece por via respiratória, através da inalação de partículas no ar produzidas pela tosse, fala ou espirro de uma pessoa com tuberculose ativa e que ainda não tenha iniciado o tratamento. “A transmissão não ocorre, portanto, por objetos, copos, talheres ou contato físico, mas sim pela inalação dessas partículas, especialmente em ambientes fechados e pouco ventilados”, explicou o pneumologista Abel Barros, do Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI).
Segundo o especialista, o abandono do tratamento é outro desafio na saúde pública. “No Brasil, a taxa de abandono gira em torno de 10%. Como o tratamento é prolongado, algumas pessoas acabam interrompendo a medicação antes do tempo, implicando ainda no risco do surgimento de formas resistentes da bactéria”, alertou Abel.
O infectologista Arthur Paiva, da Unidade de Doenças Infecciosas e Parasitárias (UDIP) do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes, da Universidade Federal de Alagoas (HUPAA-Ufal), relatou que, no passado, o índice de abandono do tratamento de tuberculose era alto, cerca de 33%. No entanto, com a reorganização do serviço e criação de um ambulatório dedicado à doença, o hospital alcançou zero abandono em um ano, feito inédito na América Latina. “Atualmente, o serviço atua como referência, focando nos casos mais complexos”, destacou o especialista.
O tratamento da doença dura, no mínimo, seis meses e está disponível gratuitamente no SUS. O esquema básico consiste no uso de quatro medicamentos: rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol.
A infectologista e especialista em Medicina Tropical, Francielly Marques, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU), destacou alguns fatores para o sucesso da cura. “Entre eles, o diagnóstico precoce; o uso correto das medicações em jejum, com prescrição adequada ao peso do paciente; não usar medicações que possam alterar a eficácia do tratamento, como omeprazol, esomeprazol, pantoprazol; e o controle das comorbidades, sobretudo do diabetes, que pode impactar na resposta imunológica para combate ao bacilo causador da doença”, elencou a médica.
Referência para casos complexos e resistentes
O pneumologista Paulo Costa, coordenador do Programa de Controle de Tuberculose Hospitalar (PCTH/IDT), do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CH-UFRJ), afirmou que o serviço é referência para tratamento de tuberculose em pacientes com comorbidades. “A nossa capacidade de diagnóstico é bem moderna, desde tecnologias de abordagem das lesões suspeitas - seja por procedimentos invasivos ou não - até à retaguarda laboratorial, com tecnologias de ponta disponíveis para o diagnóstico”, relatou Paulo.
O HU-UFU dispõe de biologia molecular, além de pesquisa direta e cultura de Bacilo Álcool-Ácido Resistente (BAAR), um exame laboratorial de alta sensibilidade e especificidade, utilizado para detectar micobactérias, principalmente a da tuberculose, a Mycobacterium tuberculosis. Exames de imagens e anatomopatológico também são utilizados para auxiliar na investigação do paciente. “Ainda possibilitamos o manejo de possíveis complicações e comorbidades complexas, sobretudo relacionadas ao uso de polifarmácia, ou seja, uso de várias medicações”, acrescentou a infectologista Francielly.
No HU-UFPI, são usados o teste rápido molecular (TRM-TB) e exames laboratoriais, como a baciloscopia e a cultura com antibiograma, para identificar o agente infeccioso e definir o medicamento. “Se necessário, o serviço dispõe de métodos invasivos, como a biópsia cirúrgica e a broncoscopia com lavado broncoalveolar, exame endoscópico que visualiza as vias aéreas e coleta secreções para análise laboratorial”, completou o pneumologista Abel.
Assistência e pesquisa alinhadas contra a doença
Uma pesquisa desenvolvida no HUPAA-Ufal avaliou o teste rápido lipoarabinomanano de fluxo lateral (LF-LAM), que detecta a tuberculose pela urina em cerca de 25 minutos. O estudo, realizado de 2023 a 2025, pelo então residente do Programa de Residência Médica em Infectologia, Denes Carvalho, mostrou alta eficácia, sobretudo em pacientes com HIV e imunossupressão.
O infectologista e orientador da pesquisa, Arthur Paiva, destacou que o diferencial do estudo foi validar, com pacientes do próprio hospital, um teste já estudado em ensaios clínicos, confirmando resultados semelhantes aos da literatura. “O exame mostrou eficácia inclusive em casos fora do perfil clássico, como pacientes sem HIV. Além disso, o teste urinário diagnosticou tuberculose mesmo quando outros exames deram negativo, permitindo o início do tratamento”, explicou.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Suzana Gonçalves, com edição de Rosenato Barreto
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh