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Aracaju (SE)
Pesquisa no HU-UFS mostra que hormônio do crescimento pode ser importante no desenvolvimento de câncer, Alzheimer e doenças cardiovasculares
Aracaju (SE) – Pouco mais de 30 anos após o início da pesquisa sobre a relação entre o hormônio do crescimento e o nanismo, a linha de estudo liderada por pesquisadores que atuam no Hospital Universitário de Sergipe (HU-UFS), da Rede Ebserh, continua fértil. Foi aceito, para publicação numa das revistas mais importantes do mundo na área de endocrinologia (European Journal of Endocrinology), um trabalho da equipe liderada pelo professor Manuel Hermínio Aguiar, endocrinologista e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e atuante no HU-UFS/Ebserh. Ele iniciou, há 32 anos, uma pesquisa que não apenas identificou a causa do nanismo em dezenas de indivíduos do município sergipano de Itabaianinha como também transformou a comunidade em um modelo vivo de estudo inédito no mundo.
“O trabalho aceito no periódico internacional é chamado de Bioatividade do IGF-1. O IGF-1 é o mediador principal das ações do hormônio do crescimento. Estudando a bioatividade, a gente compreende, de certa forma, como prevenir doenças graves - câncer, Alzheimer e cardiovasculares - tem relação não só com o nível do hormônio do crescimento, mas também com a atividade desse hormônio. Ou seja, a quantidade e o comportamento do IGF-1 no organismo podem acarretar baixa estatura e serem fatores importantes para o desenvolvimento dessas enfermidades”, ressalta professor Manuel.
O nanismo em Itabaianinha
O município sergipano de Itabaianinha, distante cerca de 120km da capital Aracaju (SE), guardava uma incógnita genética que, ao ser desvendada pela ciência sergipana, revolucionou o entendimento mundial sobre o hormônio de crescimento. Mais precisamente no povoado Carretéis, a quantidade de pessoas com nanismo impressionava o mundo, até que, em 1994, o professor Manuel iniciou numa verdadeira jornada científica na região.
De acordo com o médico, o nanismo em Itabaianinha foi perpetuado por uma peculiaridade social e geográfica. “A população vivia em uma área de ‘isolamento geográfico’, concentrada em um raio de cerca de 25km, na qual casamentos consanguíneos - que ocorrem entre primos, tios e sobrinhos - eram comuns. Essa endogamia permitiu o encontro e a união das cópias de ‘genes mutados’, resultando em uma condição que se manifestava na deficiência isolada do hormônio de crescimento”, resume o médico.
Elucidação
Ele explica que a elucidação do defeito genético foi possível graças a uma colaboração internacional. “Enviamos material sanguíneo ao endocrinologista e pesquisador atuante na Universidade John Hopkins, em Baltimore (EUA), Roberto Salvatore, que permitiu identificar o problema: uma mutação no gene do receptor que libera o hormônio de crescimento. É a mesma coisa de você ter o receptor para um canal de televisão aberto, mas não poder ver os outros canais”, compara o professor. “O sinal está presente, mas o receptor está ausente ou ineficaz, e, portanto, o hormônio de crescimento é muito pouco liberado”, diz.
Inicialmente, o foco do estudo, que teve a participação de outros professores, foi o tratamento. “Com injeções diárias e subcutâneas, os pacientes começaram a crescer, gerando entusiasmo. Contudo, infelizmente, ao atingirem uma altura acima de 1,40m, muitos desistiram do tratamento. E a razão social subjacente a essa decisão foi que o fato de ser pequeno sem gerar fator de discriminação, em uma comunidade que eu chamo amigável, em uma comunidade natural, sem gerar preconceito, não trouxe maiores incômodos para eles” observa o pesquisador.
“Era uma operação de guerra no começo, porque boa parte dos pesquisados morava em zona rural, inclusive sem acesso à eletricidade, e a gente conseguiu algumas geladeiras a gás, sendo que o gás era pago por nós. Para aplicar as injeções acondicionadas nessas geladeiras, nós treinamos pessoas da comunidade. Tudo foi válido, porque desde então temos o único modelo disponível no mundo todo para se caracterizar o papel desse hormônio de crescimento. Estudamos o que se puder imaginar no organismo humano, sobre quase todos os aspectos, quase todos, pois nunca podemos dizer todos”, relata.
Polo de investigação
A partir dos primeiros resultados da pesquisa, a UFS se tornou um polo de investigação multidisciplinar, avaliando o papel do hormônio de crescimento na altura, na composição corporal, no aspecto cardiovascular, no metabolismo, na voz, no osso, no músculo, no psiquismo, na pele, nos dentes e, por fim, na imunidade, incluindo mais recentemente a resposta a doenças como a Covid.
“A pesquisa evoluiu para uma dimensão de estudo de impacto global. Os indivíduos de Itabaianinha se tornaram o único modelo disponível no mundo para se caracterizar o papel do hormônio de crescimento no organismo humano. Esta riqueza de dados já gerou mais de 50 dissertações de mestrado e doutorado”, ressalta Manuel Hermínio.
“Estudamos todos esses aspectos de uma forma muito respeitosa com as diversas áreas do conhecimento e ajudamos, com isso, a formar um grande número de professores que atuam hoje no HU-UFS/Ebserh”, complementa.
Assistência global
Atualmente, após 32 anos do início da pesquisa, aproximadamente 60 pessoas da comunidade de Itabaianinha permanecem sendo acompanhadas pelo HU-UFS/Ebserh, com uma equipe multidisciplinar ativa composta por cerca de 30 a 40 profissionais, garantindo assistência de qualidade até o fim da vida desses pacientes.
“A expectativa de vida dos indivíduos com nanismo é considerada normal. Embora houvesse a suspeita de que pudessem viver mais, devido ao vigor juvenil que mantêm na idade avançada, o fato de se submeterem, com mais frequência, a atividades insalubres ou acidentes prejudica essa longevidade. O grande desafio agora é garantir uma atenção global que vai além do tratamento médico. É preciso um maior engajamento das prefeituras locais para oferecer assistência social, fisioterapia e atividades de lazer que fiquem mais próximas do local onde eles vivem”, aborda.
O professor Manuel Hermínio, que celebrou, em 2025, 45 anos na universidade, diz estar satisfeito por construir um legado sólido, garantindo que jovens pesquisadores continuem a prestar essa assistência essencial. "É uma atividade que não é exclusivamente um mérito meu. De fato, tenho uma grande participação, realmente sem vaidade, no estabelecimento da Universidade Federal de Sergipe como importante produção de ciência, especialmente nessa pesquisa, que teve início também com a professora Anitta Hermínia, o professor Walter Marcelo (in memorian) e Roberto Ramalho, e acabou por tomar uma proporção mundial”, declara.
Como forma de humanizar a pesquisa e fortalecer os laços com a comunidade, os pesquisadores mantêm a tradição há mais de três décadas de realizar uma confraternização de Natal anualmente. A última, em 12 de dezembro de 2025, ocorreu em um clube de Aracaju (SE).
Sobre a Ebserh
O HU-UFS faz parte da Rede Ebserh desde outubro de 2013. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Andreza Azevedo, com edição de Ludmila Wanbergna
Coordenadoria de Comunicação Social da Rede Ebserh