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FEVEREIRO LARANJA
“Realizando sonhos”: Jovem curada de leucemia se forma em Biomedicina e fará especialização em Hematologia
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Brasília (DF) – “Eu entendi que força não é ausência de medo, é continuar apesar dele”. São com essas palavras que a cearense Letícia Mota, 29 anos, relembra o período mais difícil de sua vida, ao receber o diagnóstico de leucemia, em 2013. Dali em diante, foram três episódios da doença e dois transplantes de medula óssea. Hoje, essas são apenas lembranças, pois a jovem está curada, após tratamento no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará (CH-UFC), vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).
No último semestre de 2025, Letícia realizou um grande sonho: concluir o curso de Biomedicina. Mas não para por aí: “Vou iniciar a pós-graduação na área que eu quero focar, que é Hematologia e Hemoterapia”, diz ela, referindo-se à especialidade médica que cuida de doenças do sangue, como a leucemia. Estamos no mês da campanha Fevereiro Laranja e, com isso, a história de Letícia ganha ainda mais relevância, pois é tempo de intensificar a conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado da doença.
Fevereiro Laranja: conscientização que salva vidas
As leucemias são doenças malignas que afetam o sangue, com diferentes tipos, e todas têm possibilidade de cura. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamentos de qualidade e 100% gratuitos, a exemplo do trabalho realizado no HUWC, hospital que alcançou a marca de 1.000 transplantes de medula óssea (TMO), no último dia 16 de janeiro.
Transplante de medula óssea: esperança para casos complexos
O TMO é um tipo de tratamento altamente eficaz, especialmente para as leucemias agudas de mau prognóstico ou mesmo nas refratárias e nas leucemias mieloide crônica, quando não responde ao tratamento convencional ou tem progressão para aguda, explica Fernando Barroso, chefe da Unidade de Hematologia e Hemoterapia do HUWC.
De acordo com o especialista, os tipos de transplante de medula óssea são: autólogo, quando as células-tronco hematopoiéticas (responsáveis pela produção permanente de todos os componentes sanguíneos) coletadas são do próprio paciente; alogênico aparentado, quando as células são de um outro doador que é membro familiar consanguíneo; e não aparentado, quando o doador não tem relação familiar; e haploidêntico, quando o doador é um familiar próximo do paciente.
No caso da Letícia, o transplante foi o alogênico não aparentado, para tratar a leucemia linfoblástica aguda. Ela conta que foi diagnosticada com a doença aos 16 anos, em 2013, período em que começou o tratamento em outra instituição de saúde. Anos depois, a jovem teve uma recidiva da doença e, em 2017, foi transferida para o HUWC, onde realizou o primeiro TMO.
Letícia enfrentou uma nova recidiva, o que demandou um novo transplante em 2019, do mesmo doador, Guilherme, que ela teve a oportunidade de conhecer em 2022. O encontro foi no Paraná, em um evento realizado pelo Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce) – parceiro dos transplantes realizados no HUWC.
Curada, a jovem segue realizando sonhos e espalhando esperança. Além de ter se formado em Biomedicina e estar prestes a iniciar a especialização em Hematologia, ela também é co-criadora de uma página no Instagram onde, junto com mais duas amigas transplantadas, compartilha informações sobre pós-transplante.
Leucemia: o que muda no organismo com a doença
O funcionamento adequado das células do sangue são fundamentais para a defesa e o equilíbrio do organismo. É na medula óssea que essas células são formadas, garantindo funções como o transporte de oxigênio, a coagulação e a proteção contra infecções. A leucemia surge justamente quando esse processo natural é comprometido.
“Ela se desenvolve a partir da multiplicação descontrolada de células imaturas, chamadas blastos, prejudicando a produção normal do sangue”, explica Januária Nunes, médica oncologista do Hospital Universitário Alcides Carneiro, da Universidade Federal de Campina Grande (Huac-UFCG/Ebserh).
Tipos de leucemia e sinais de alerta
As leucemias podem ser agudas (crescimento rápido) ou crônicas (crescimento lento), dos tipos: Linfoide Aguda, Mieloide Aguda, Linfoide Crônica e Mieloide Crônica. Segundo a médica Januária Nunes, a doença pode atingir pessoas de todas as idades e é o tipo de câncer mais comum na infância. A leucemia linfoide aguda é a mais recorrente, com maior frequência na fase pré-escolar, entre três e cinco anos. Para a medicina, disse, a leucemia é uma doença que surge de forma aleatória e sem causa definida.
É importante que os pais e cuidadores fiquem atentos a sinais de alerta. Muitas vezes, os sintomas são inespecíficos e podem se confundir com doenças comuns da infância, o que dificulta o reconhecimento da doença. “Mesmo assim, sinais como uma febre que persiste, aumento dos gânglios, palidez, perda de peso, manchas roxas sem traumas, sangramentos e dor óssea devem motivar a procurar atendimento médico para melhor avaliação”, informa Januária Nunes, que também reitera a importância do diagnóstico precoce em todas as fases da vida.
Avanços nos tratamentos ampliam chances de cura
Com o avanço da medicina, novas descobertas passaram a ampliar as possibilidades de diagnóstico e cuidado com os pacientes para além da quimioterapia. Exames mais modernos permitem identificar alterações genéticas e características específicas das células leucêmicas, o que ajuda os profissionais de saúde a entender melhor o tipo da doença e o risco envolvido em cada caso. Esses diagnósticos mais precisos contribuem para a escolha de tratamentos personalizados.
A partir da identificação dessas alterações genéticas, novos medicamentos passaram a ser incorporados ao tratamento das leucemias, como os inibidores de tirosina quinase. “O SUS disponibiliza três tipos de inibidores de tirosina quinase para os pacientes com leucemias agudas e mutações do BCR-ABL (imatinibe, dasatinibe e nilotinibe). No HUB, por exemplo, esses pacientes passaram a ter sobrevida elevada, acima de 85%”, comenta Flávia Dias, chefe da Unidade de Hematologia e Hemoterapia do Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB/Ebserh).
Pesquisa e inovação fortalecem o cuidado no SUS
Recentemente, a Unidade de Hematologia e Hemoterapia do HUB participou como centro recrutador de um estudo coordenado pela professora Angélica Amorim Amato, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Brasília (UnB), voltado ao diagnóstico molecular de mutações associadas à leucemia mieloide aguda. A pesquisa comparou diferentes técnicas laboratoriais e teve seus resultados publicados na revista British Journal of Haematology, em novembro de 2025. Além disso, “o hospital também participou de uma pesquisa nacional que avaliou os resultados de pacientes com linfoma do manto tratados no mundo real”, completou Flávia.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo em que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Redação: Elizabeth Souza e Marília Rêgo, com revisão de Danielle Campos
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh