Vila Serra do Navio (AP)

- Vila Serra do NavioConstruções da Vila Serra do Navio, no Amapá, cidade planejada e erigida entre as décadas de 1950 e 1960. Foto: Dalmo Vieira Filho
Mesmo com as transformações sofridas pela falta de conservação e por intervenções inadequadas, a Vila mantém as características originais que a distinguem na história da ocupação da Região Norte, na arquitetura e no urbanismo brasileiros. A proposta de tombamento foi debatida com os moradores, com foco na recuperação da memória social local e na busca de soluções adequadas para resgatar as características que fazem da Vila uma cidade absolutamente singular.
Apesar do desastre ambiental e social causado pela empresa Indústria e Comércio de Minério (Icomi), com a extração do minério - a contaminação do terreno e dos lençóis freáticos, igarapés e águas subterrâneas, por ferro, arsênio e manganês - o desafio de implantar uma cidade com as características da Vila Serra do Navio, no meio da Floresta Amazônica, levou à criação de um verdadeiro monumento da arquitetura e do urbanismo, onde as soluções propostas pela corrente modernista dialogam e interagem com as soluções construtivas locais, com o clima e a vegetação e, principalmente, com a cultura do lugar.
História
A Vila Serra do Navio, no Amapá, surgiu da necessidade de abrigar o contingente de moradores da periferia da Vila Operária da Indústria e Comércio de Minério (Icomi), para fomentar atividade agrícola de subsistência. Construída entre o final da década de 1950 e início dos anos 1960, era uma moderna cidade com infraestrutura de saneamento básico, água tratada, energia elétrica, residências confortáveis, aliada a uma completa rede de atendimento sociocultural: escolas, hospital, cinema, áreas esportivas e recreativas destinadas aos seus funcionários e familiares, sob a administração da Icomi.Um projeto ambicioso de implantação - nos moldes de muitas vilas que surgiram na Inglaterra durante a Revolução Industrial - de uma Company Town ou Cidade de Companhia. Tratava-se de um núcleo urbano dirigido e controlado por apenas uma única empresa, cuja economia é ligada a uma só atividade empresarial. Com pouco mais de 3,7 mil habitantes, foi projetada pelo arquiteto brasileiro Oswaldo Arthur Bratke para abrigar os trabalhadores da Icomi, associada à empresa internacional Bethelehem. Bratke escolheu, pessoalmente, o lugar de implantação - a Serra do Navio em uma região localizada entre os rios Araguari e Amapari, e também programou áreas de expansão futura da vila, projetando-as integradas ao traçado e ao sistema viário. Concebeu o projeto para uma cidade completa e autossuficiente, verdadeira ilha no meio da floresta, que significou uma experiência precursora na Amazônia.
O arquiteto elaborou o projeto de acordo com os preceitos modernistas, mas com atenção às construções locais, das quais assimilou elementos que o tornaram adequado à realidade amazônica, sobretudo ao clima quente e úmido dos trópicos. Ele estudou os tipos de habitação da região, os hábitos dos moradores, e todos os dados referentes ao meio ambiente, e visitou vilas de mineração construídas em outros países como Estados Unidos, Inglaterra, Venezuela, Chile, Colômbia e em países do Caribe.
O traçado urbano de Vila Serra do Navio, desenvolvido segundo os cânones da arquitetura moderna, apresenta um plano urbanístico distribuído em zonas destinadas à habitação, ao lazer, ao trabalho e à circulação. As unidades habitacionais individuais e unifamiliares são dispostas de forma hierárquica, de modo semelhante aos níveis funcionais da empresa: staff, vila intermediária e vila operária.
O acesso à área do projeto se dava apenas pelos rios e, apesar de enormes dificuldades, implantou-se ali o que deveria ser um modelo de empreendimento capitalista reproduzindo a hierarquia existente na empresa. Em plena floresta tropical, a Icomi oferecia as melhores condições de moradia e serviços urbanos para atrair mão de obra especializada de outros estados, fixando-a no Amapá. Os operários eram contratados e treinados pela própria mineradora.
Destacam-se, centralizadas, as áreas destinadas aos equipamentos de administração e comércio, educação, saúde, lazer e esporte, atividades religiosas. Uma cidade planejada para propiciar uma convivência harmônica e não impactante à floresta, onde os lotes não possuem muros e as casas são cercadas apenas por amplos jardins, foram construídas de forma adequada às condições climáticas regionais. O projeto priorizou a interação com o meio ambiente e o conforto ambiental no interior dos edifícios, utilizando recursos como direcionamento da ventilação, venezianas, elementos vazados, empenas vazadas para penetração da ventilação.
Mineração de Manganês
As notícias sobre a existência do minério de manganês, no vale do rio Amapari, surgiram antes de Getúlio Vargas criar o Território Federal do Amapá, em 1943, mas foi somente dois anos depois que as amostras colhidas pelo garimpeiro Mário Cruz foram identificadas com alto teor de manganês. O interesse na exploração veio com o parecer do especialista Glycon de Paiva, em 1946, que confirmou as grandes minas no território. Ele acreditava que a exploração mineral não seria apenas uma fonte de riquezas, mas poderia projetar o Brasil no comércio internacional e, inclusive, se tornar um elemento estratégico para a política externa do país.
Vencendo uma concorrência que incluiu mineradoras estrangeiras, a Icomi assinou o contrato de exploração mineral em 1947. Em 1951, confirmou a existência de quantidade superior a 10 milhões de toneladas de minério. As obras e os trabalhos da mineradora no então Território Federal do Amapá continuaram uma política de ocupação que remonta ao século XVIII, para garantir a presença portuguesa e, mais tarde, de brasileiros no Norte do Brasil.
A experiência em Serra do Navio atraiu brasileiros de todos os estados, que se instalaram no Amapá. Entretanto, a reserva de minério se esgotou antes do previsto e a Icomi deixou a região no final da década de 1990. Em maio de 1992, a vila passou a ser a sede do município de Serra do Navio.
Fontes: Arquivo Noronha Santos/Iphan e IBGE
