Mucugê (BA)
Localizada em um vale amplo e plano, embora envolvida por encostas muito íngremes, para ajustar-se ao vale, a cidade desenvolveu-se segundo a matriz em “L”, em cujas extremidades estão situadas as duas igrejas locais. Uma das pernas do “L” é a Rua Direita do Comércio, que segue paralela ao riacho Mucugê, e deve ter sido o núcleo inicial da povoação. Na convergência dos eixos, existe uma pequena praça. Sua tipologia é simples, isto é, mononuclear.
Apresenta, ainda nos dias atuais, os casarões coloniais de estilo português (datados da segunda metade do século XIX) e o sítio tombado corresponde a toda a área urbana da cidade e inclusive o cemitério localizado na encosta da colina, que se encontra dissociado do núcleo urbano original. A área urbana teve, como expansão, faixa de terrenos planos, imprensados entre o núcleo original, as cercas de pedra e a escarpa onde se localiza o cemitério. Neles foram construídas novas residências e edificações de serviços públicos que não puderam ser instalados nos imóveis coloniais.
Na cidade - fundada no fim do século XVIII - os casarões coloniais foram edificados em adobe ou pedra, em sua maioria. De arquitetura colonial totalmente preservada, a cidade possui ruas bem limpas, onde chamam a atenção os seus jardins e canteiros muito floridos. O acervo arquitetônico urbano é constituído por 300 casas térreas e 10 sobrados e a maior parte das construções é de uso exclusivamente residencial.
Além de locais de rara beleza - no município -, como cachoeiras, paisagens, vales e cânions, o patrimônio cultural é enriquecido com as histórias de lutas pela posse do garimpo, contra a invasão da Coluna Prestes e dos coronéis - lembrados pelo poder e riqueza que possuíam. Um dos atrativos naturais é o Alto do Capa Bode, considerado um local de contemplação onde habitantes e visitantes garantem que ali avistaram objetos voadores não identificados (OVNIs).
História
Em meados do ano de 1844, um garimpeiro (conhecido como Cazuza do Prado) passou pela região e suspeitou do cascalho existente no rio Mucugê, próximo ao rio Cumbucas. O material encontrado possuía características de um cascalho diamantífero e, naquele dia de São João, as terras altas da Serra do Sincorá começaram a justificar o nome pelo qual se tornaram conhecidas: “lavras diamantinas”. Após a revelação das jazidas, houve uma corrida desenfreada em busca do sonho da riqueza rápida, atraindo para o local uma população de mais 30.000 habitantes, entre 1844 e 1848. Um grande contingente de garimpeiros e comerciantes afluiu para a região e nasceu, assim, a povoação de Mucugê do Paraguaçu. A mineração seguiu o curso dos rios e se expandiu rapidamente pela região.
O município está localizado entre os vales dos rios de Contas e Paraguaçu, e ficou conhecido como a primeira localidade baiana onde foram encontrados diamantes de real valor. No local, se instalaram grandes comerciantes de diamantes que se transferiram, pouco a pouco, para a vila de Lençóis, devido à maior riqueza das lavras descobertas em 1845, naquela localidade.
Em 1845, foram descobertos os ricos garimpos do rio Lençóis, que despertaram imediatamente o interesse dos compradores de diamantes instalados em Mucugê. Vieram para a região mais garimpeiros, comerciantes da capital e senhores de engenho do Recôncavo Baiano, com seus escravos. Em 1847, foi criada a Vila Santa Isabel do Paraguaçu, desmembrada de Rio de Contas. A partir de 1871, a importância econômica da vila começou a decair - como aconteceu com outros centros diamantíferos - devido à concorrência dos diamantes da África do Sul.
Com o declínio da extração de diamantes, se desenvolveram - na margem direita do rio de Contas - as lavouras de cana, cereais, algodão e café. Na margem esquerda, onde predominam os “gerais”, foram implantadas as fazendas de criação de gado. Uma nova fonte de recursos para a população surgiu com a extração e exportação de flores dos “gerais”, especialmente a sempre-viva. Em 1886, o município sofreu uma terrível epidemia de cólera, quando houve a conclusão do Cemitério de Santa Isabel que integra o patrimônio tombado. A vila recebeu o nome de Mucugê, em 1917, quando foi elevada categoria de cidade.
Monumentos e Espaços Públicos Tombados
Cemitério de Santa Isabel, Igreja Matriz de Santa Isabel e Igreja de Santo Antônio, entre outros.
Cemitério de Santa Isabel - Entre o núcleo histórico e a encosta encontra-se o Cemitério de Santa Isabel (também chamado “cemitério bizantino”) que tem área plana e murada, e a área especial onde está um conjunto de mausoléus, em cujas fachadas se reproduzem miniaturas de fachadas de igrejas e capelas - apoiadas na encosta rochosa da serra - se distinguem por sua cor branca. O arranjo paisagístico integra os mausoléus à rocha em decomposição.
Construído no século XIX, tem em destaque a silhueta das sepulturas brancas diante do fundo montanhoso. Implantado na encosta rochosa da Serra do Sincorá, a noroeste de Mucugê, começou a ser construído em 1854, pela Câmara Municipal. A obra foi concluída em 1886, quando uma epidemia assolou a vila. A escolha deste sítio deveu-se, provavelmente, à existência de terrenos planos fáceis de escavar e próximos da cidade.
O cemitério está dividido em duas partes: uma plana, murada, situada sobre os terrenos de aluvião do vale onde estão as covas rasas e a outra, constituída por um conjunto de mausoléus implantado sobre a encosta rochosa da serra. Os túmulos caiados são vistos à distância e se integram de forma notável à paisagem do cerrado. Os mausoléus brotam da rocha nua, como a vegetação, em uma integração similar às "locas" ou "tocas", habitação dos garimpeiros que se instalavam na região. A distinção é promovida pela cor dos mausoléus - construídos em pedra e/ou tijolos, revestidos de reboco e caiados - e muitos terminam em arcos ornamentais, coroados e outros tantos são miniaturas de igrejas e capelas.
Igreja Matriz de Santa Isabel - Erguida em meados do século XIX, pelo frei Caetano de Troyria, com grande auxílio da população, em um terreno doado pelo coronel Reginaldo Landulpho. Totalmente restaurada pelo Iphan, em 2014, com obras de conservação da edificação, além da restauração dos bens móveis e integrados ao monumento (acervo de imagens sacras). O templo estava deteriorado pelas condições climáticas e desgaste natural dos materiais, o que comprometeu as atividades religiosas. Apresenta uma fachada neoclássica, com três naves internas e um coro em formato de U, estruturados por uma alvenaria em pedra e pilares internos. Em 1952, foram realizadas algumas obras, inclusive a substituição do piso de pedra pelo piso de ladrilho e, em 1978, houve a recuperação do telhado.
Fontes: Arquivo Noronha Santos/Iphan, Sítios Históricos e Conjuntos Urbanos de Monumentos Nacionais - Volume I: Norte, Nordeste e Centro-Oeste (Iphan/Programa Monumenta), Inventário Nacional de Bens Imóveis/Sítios Urbanos Tombados - Manual de Preenchimento – Volume 82 (Iphan/Edições do Senado Federal), IBGE e http://www.cidadeshistoricas.art.br/mucuge/muc_his_p.php
