Lençóis (BA)
O patrimônio cultural de Lençóis retrata a época do auge econômico das vilas e cidades da chapada, no século XIX. Entre 1845 e 1871, foi a maior produtora mundial de diamantes e a terceira cidade mais importante da Bahia, tornando-se entreposto comercial de exportação de produtos minerais para a Europa e de importação de artigos de luxo, a ponto de ter se instalado na cidade um vice-consulado da França para facilitar o comércio com este país. Em uma época de acelerado desenvolvimento, surgiram os primeiros sobrados e as construções mais elaboradas da cidade.
Seu acervo arquitetônico é formado, basicamente, por casas e sobrados da segunda metade do século XIX, construídos com diferentes técnicas, entre as quais predomina a utilização do adobe ou pedra, e estruturas independentes de madeira com vedação em taipa de mão. Este casario se caracteriza pelas cores vivas de suas alvenarias e esquadrias. A arquitetura civil tem uma importância maior que a religiosa, e não existe apenas um monumento dominante no conjunto tombado.
Esse conjunto corresponde a toda a área urbana da cidade, em função da topografia e da ausência de planejamento na ocupação típica dos núcleos de mineração dos séculos XVIII e XIX. A povoação se formou a partir de dois núcleos: o Serrano e São Félix, locais onde se iniciaram, simultaneamente, a lavra diamantífera para, em seguida, se juntarem em uma única área urbana. O núcleo de Serrano situava-se em ponto elevado, à margem de uma corredeira do rio, deslocando-se à medida que o arraial se consolidava em direção à atual Praça Horácio de Matos, de topografia mais amena, de encontro ao outro núcleo, na margem oposta do rio.
O arruamento colonial surgiu a partir dos polos erguidos ao redor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e da ponte de ligação entre os núcleos instalados em ambos os lados do rio. A construção da ponte, em 1860, ocupou a mão de obra ociosa, vítima da grande seca que assolou o sertão, entre 1859 e 1862. A partir desta época se constroem os grandes sobrados, que compõem a antiga Praça do Mercado - atual Praça Horácio de Matos - onde há cinco residências tombadas. Um destes sobrados serviu como Casa do Conselho, mas foi demolido na década de 1940 para a construção da Agência dos Correios e Telégrafos.
Como todo assentamento de mineração, Lençóis se desenvolveu de forma desordenada: a tipologia urbana é composta por uma trama irregular de ruas que se adaptam aos acidentes do terreno, intercaladas por pequenas praças e largos. O piso de algumas ruas é constituído da própria rocha que aflora no local. As novas ruas - espontâneas ou da área de expansão aprovada pelo IPHAN - sobem e descem ladeiras, imitando a implantação das ruas coloniais, enquanto outras apresentam pavimentação de pedras irregulares que formam desenhos decorativos.
História
O povoamento da cidade de Lençóis - situada na Chapada Diamantina, no sopé da Serra do Sincorá - teve início em 1845, com a descoberta de minas de diamantes no local. As notícias sobre as pedras preciosas logo atraíram garimpeiros, senhores de engenho com escravos, negociantes e todos os que buscavam um enriquecimento rápido. A região de Lençóis ficou conhecida como um importante centro de mineração de diamantes e entreposto comercial e, em pouco tempo, as terras foram ocupadas por exploradores e comerciantes de diversos lugares do Brasil.
Para a formação da cidade contribuíram dois grupos: os garimpeiros (vindos do Serro Frio e do Alto Sertão) e os comerciantes da capital e do Recôncavo Baiano, que financiavam a mineração e controlavam sua exportação com comerciantes franceses, ingleses e alemães. Segundo versão popular, nessa época podia-se ver, do alto da serra, os tetos das barracas estendidas, como se fosse uma verdadeira “cidade de lençóis”, que terminou por denominar a nova povoação. Os garimpeiros também utilizavam as grutas das vizinhanças como habitação e, atualmente, ainda são encontradas algumas destas grutas na região.
Lençóis nasceu como um núcleo de mineração, mas logo arrebatou à Vila de Rio de Contas a condição do mais importante entreposto comercial regional, onde era reunida e exportada para a Europa toda a produção mineral, distribuídos os produtos do litoral e os artigos de luxo importados. A povoação do local ocorreu a partir do povoado de Mucugê, onde havia grande contingente de garimpeiros e comerciantes. A mineração seguia o curso dos rios e, quando foram descobertos os ricos garimpos do rio Lençóis (1845), imediatamente houve o interesse dos compradores de diamantes instalados em Mucugê. Em 1851, foi iniciada a construção da Capela de Nossa Senhora da Conceição que, mais tarde, cedeu lugar à nova igreja matriz.
Anos mais tarde (1856), foi desmembrada do município de Santa Isabel do Paraguaçu (atual Mucugê) e transformada na Comercial Vila de Lençóis (em referência aos grandes comerciantes de pedras e mercadores, inclusive estrangeiros, que proliferavam na região). A vila foi elevada à categoria de cidade em 1864. São desta fase as construções mais elaboradas da cidade, como a Capela de Nosso Senhor dos Passos e a exibição da riqueza: nos saraus (encontros das famílias e amigos onde se ouvia música ou liam-se poesias), era comum que os participantes usassem diamantes como joias e aplicações em seus trajes.
Entretanto, a descoberta de minas de diamantes na África do Sul (1865) e a simultânea escassez de pedras na região levaram ao abandono do comércio e do garimpo, por seus exploradores, e a um período de decadência e grande crise econômica. A cidade floresceu até 1871, quando o mercado internacional se voltou para os diamantes africanos. A partir de então, Lençóis começou a decair e para isto contribuiu a ida dos garimpeiros para as faisqueiras de Salobro (Canavieiras).
O esgotamento parcial dos solos da região e a concorrência de pedras preciosas africanas ocasionou um período de extrema pobreza e escassez de recursos. Muitos encontraram uma alternativa econômica na lapidação de pedras preciosas, outra importante atividade de Lençóis, e há registros da existência de três destas oficinas na cidade, a mais antiga datada de 1880. A plantação de café e, mais tarde, a extração do carbonato (de mesma composição do diamante, porém menos concentrado) ajudaram a retomar, em parte, a economia local. Assim, uma nova fase de desenvolvimento ocorreu, pouco depois, com a repentina valorização do carbonato como abrasivo industrial.
Monumentos e Espaços Públicos Tombados
Praça Horácio de Matos (espaço público mais importante da cidade), Mercado Público Municipal, ponte sobre o rio Lençóis, Prefeitura Municipal, imóvel onde funciona o Escritório Técnico do Iphan, antigo Posto de Saúde, Teatro de Arena, Igreja Nossa Senhora do Rosário, Igreja de Nosso Senhor dos Passos, Casa de Cultura Afrânio Peixoto e Anfiteatro, Biblioteca Pública, Arquivo Público, entre outros.
Fontes: Arquivo Noronha Santos/Iphan, Sítios Históricos e Conjuntos Urbanos de Monumentos Nacionais - Volume I: Norte, Nordeste e Centro-Oeste (Iphan/Programa Monumenta), Inventário Nacional de Bens Imóveis Tombados - Volume 82 (Iphan/Edições do Senado Federal), Prefeitura Municipal de Piranhas e IBGE
