Iphan homenageia detentores dos Saberes e Práticas Tradicionais associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca de SC
Evento ocorreu no último domingo (24), em Imbituba (SC), e contou com roda de conversa e exibição do documentário “Farinhar”

No último domingo, 24, o engenho da Associação Comunitária Rural de Imbituba (Acordi), em Imbituba (SC), foi palco de uma série de atividades para celebrar os “Saberes e Práticas Tradicionais associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca”. O bem foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil na última reunião do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ocorrida nos dias 10 e 11 de março.
O evento iniciou com um farto “café na roça”, que contou com alimentos produzidos na própria comunidade: mandioca, farofa, bolo e geleia de butiá (pequeno fruto de uma palmeira típica da região Sul do Brasil) estavam no cardápio. O plantio dessas culturas faz parte do Inventário Nacional de Referências Culturais “Areais da Ribanceira”, cujo lançamento ocorreu após a refeição. “Por meio dessa pesquisa, estamos colaborando para preservar a memória dos povos indígenas, africanos e açorianos que construíram e constróem nosso estado”, celebrou a presidente da Acordi, Marlene Borges.
Em seguida, o presidente do Iphan, Deyvesson Gusmão, a diretora do Departamento de Patrimônio Imaterial (DPI), Marina Lacerda, e a superintendente do Instituto no estado, Regina Santiago, entregaram certificados aos cerca de 60 detentores dos Saberes e Práticas Tradicionais associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca presentes. “Hoje celebramos os detentores e abrimos um canal de diálogo com eles. Isso nos levará a um futuro que manterá esses saberes e tradições preservados”, declarou Regina.
Marina Lacerda destacou a importância da comunidade no processo de fazer farinha nos engenhos. “Nós estamos na frente de pessoas muito fortes. A lógica do engenho é uma lógica que foca no processo, no papel de cada um, e não só no produto final. É um processo colaborativo e de comunhão, baseado na conexão com o sentimento desse saber/fazer”, pontuou a diretora.
Para além do título de patrimônio, a importância de registro do bem cultural pelo Iphan ficou evidente nas palavras de Dinha Clarisse Poty, fazedora de farinha da Aldeia Guarani: “A importância desse título é representar as mulheres indígenas e também dar continuidade a esse saber. E, muito além disso, manter a nossa cosmologia, que traz a mandioca do povo Guarani Mbya para nós, mulheres, mães e agora detentoras”.

Foi registrado, e agora?
No período da tarde, ocorreram a exibição do filme “Farinhar”, parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), através do Núcleo de Dinâmicas Urbanas e Patrimônio Cultural (NAUI), e uma roda de conversa entre a equipe do Iphan, detentores e autoridades, sobre o que ocorre com um bem após seu registro. A comunidade relatou a preocupação com a continuidade do bem, devido ao êxodo rural, às grandes plantações e à posse de suas terras.
“Um dos principais focos do plano de salvaguarda é garantir a continuidade dos saberes por meio de sua transmissão às novas gerações. O registro não resolve todos os problemas, mas abre muitas portas, inclusive facilita acesso a outras políticas públicas, de outras áreas, com outras parcerias, como os ministérios do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas e da Pesca”, explicou o presidente do Iphan.
No mesmo sentido, Marina Lacerda pontuou: “O registro é o que a gente faz dele. Para isso, precisamos de participação e da manutenção e ampliação dos diálogos com nossos parceiros”.
O presidente do Iphan ainda lembrou que a contribuição dos engenhos de farinha de Santa Catarina extrapola as divisas estaduais. “Esse trabalho tem implicações para a sociedade catarinense e também para a brasileira. Mostra uma relação harmônica com o território onde se planta e se produz comida de verdade e saudável”, disse Deyvesson Gusmão.
As atividades foram encerradas com apresentação do Boi-de-mamão da Acordi. A manifestação folclórica é típica do litoral catarinense e narra, em tom tragicômico, e ao ritmo de tambores e violas, a morte e a ressurreição do boi. Conta com os seguintes personagens: o boi, personagem principal, que dança, pula e acaba caindo doente ou morrendo; Mateus e Maricota, gigantes bonecos de pano representando o vaqueiro e sua companheira, que tentam cuidar do boi; o curandeiro/médico chamado para benzer e ressuscitar o boi; e a Bernúncia, um grande dragão de pano que "engole" as pessoas da plateia.
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