Iphan entrega plano de salvaguarda para o Povo Inỹ Karajá
Instrumento que visa proteger os modos de fazer Bonecas de cerâmica Karajá foi apresentado em evento realizado na Aldeia Santa Isabel do Morro (TO)

Nesta segunda-feira (25/5), a Aldeia Santa Isabel do Morro, às margens do Rio Araguaia, na Ilha do Bananal (TO), teve um momento significativo para a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial brasileiro. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) marcou presença no lançamento do projeto "Ritxoko — fortalecimento da boneca de cerâmica do Povo Inỹ Karajá" e, na ocasião, entregou à comunidade dois documentos técnicos fundamentais para a continuidade e a sustentabilidade desse bem cultural inscrito no Livro dos Saberes.
As ritxoko — figuras femininas modeladas em argila pelas mulheres Karajá — carregam cosmologias, identidades e memórias de um povo que habita a maior ilha fluvial do mundo. Reconhecidas pelo Iphan como patrimônio cultural imaterial do Brasil (25/01/2012), as bonecas são, ao mesmo tempo, expressão artística, instrumento de transmissão de saberes e fonte de renda para dezenas de famílias.
Suporte institucional no momento do lançamento
O evento marcou o início oficial do projeto aprovado no edital da Teia da Sociobiodiversidade 2025, promovido pelo Fundo Casa Socioambiental em parceria com o Fundo Socioambiental CAIXA. Entre as 203 iniciativas selecionadas em todo o país, o projeto Ritxoko se destaca por articular geração de renda, protagonismo feminino e fortalecimento identitário, com ações previstas como a criação de um ateliê comunitário, a realização de oficinas para mulheres e jovens e o desenvolvimento de estratégias de comercialização das bonecas.
Acompanhando o lançamento, a comitiva do Iphan entregou exemplares impressos do Plano de Salvaguarda Modos de Fazer Bonecas Karajá e Ritxoko — Expressão Artística e Cosmológica do Povo Karajá, documento construído coletivamente ao longo de anos de diálogo entre o Instituto e a comunidade. O plano orienta as ações prioritárias para a proteção, transmissão e fortalecimento do bem, servindo de bússola tanto para os detentores quanto para parceiros institucionais.
Durante o evento, representando a superintendência do Iphan no Mato Grosso, Fernanda Araújo Marques da Silva destacou o trabalho da comunidade. "O fato de a comunidade conseguir captar recursos externos demonstra que as ações estão em plena consonância com os eixos temáticos debatidos durante a construção do plano de salvaguarda. É o protagonismo da comunidade se concretizando."
Da tradição ao mercado
Também foi entregue o Guia Introdutório de Economia do Patrimônio Cultural, uma ferramenta desenvolvida pelo Iphan para apoiar a gestão econômica de bens culturais. A publicação oferece conceitos e orientações práticas sobre como comunidades detentoras de patrimônio imaterial podem valorizar economicamente suas expressões culturais sem comprometer a integridade e a autenticidade do bem.
A entrega do guia não é um gesto simbólico: ela acompanha um compromisso concreto de capacitação técnica. Clara Marques Campos, da Coordenação-Geral de Fomento e Economia do Patrimônio (DAFE/Iphan), anunciou articulações para oferecer às artesãs Karajá suporte nas áreas de precificação, embalagem e gestão de redes sociais — demandas identificadas como essenciais para ampliar o alcance comercial das ritxoko sem desvirtuar seu valor cultural.
"Queremos que os conceitos de economia do patrimônio saiam do papel e se apliquem na prática, ajudando as artesãs a venderem melhor suas bonecas e a compreenderem o valor do que produzem”, disse Clara Marques, do DAFE.
Autonomia comunitária como horizonte
O lançamento do Projeto Ritxoko é um exemplo do que o Iphan denomina "salvaguarda em ação": a comunidade não apenas é reconhecida como detentora de um patrimônio valioso, mas se torna agente ativa de sua preservação e sustentabilidade. Ao captar recursos de um edital competitivo nacional, as mulheres Karajá demonstram capacidade organizativa e visão estratégica, qualidades que o plano de salvaguarda buscou fomentar desde sua elaboração.
A Teia da Sociobiodiversidade, que financia o projeto, tem como eixos centrais a segurança alimentar e o protagonismo de povos e comunidades tradicionais, buscando soluções enraizadas nos territórios que unem conservação ambiental e geração de renda. O alinhamento entre os objetivos do edital e as prioridades do plano de salvaguarda não é coincidência — é o resultado de um trabalho de anos que preparou a comunidade para dialogar com o mundo em seus próprios termos.
Com o suporte técnico e institucional do Iphan, o Povo Inỹ Karajá caminha para um modelo em que a ritxoko não é apenas memória a preservar, mas futuro a construir — nas mãos das mulheres que a modelam, nas aldeias que a guardam e nos mercados que a valorizam.
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