PATRIMÔNIO MATERIAL

Iphan elabora proposta de abrigo para colônia de felinos no Campo de Santana, no Rio de Janeiro (RJ)

Instituto reconhece que no local há coexistência do patrimônio biológico com o patrimônio histórico e paisagístico

Publicado em 14/02/2022 12:10Modificado em 04/11/2022 13:40
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Parque abriga colônia de felinos e de fauna nativa. Créditos: Oscar Liberal

Palco de acontecimentos marcantes na história do Brasil, o Campo de Santana, situado na capital fluminense (RJ), é cenário de um projeto piloto que pode ser referência para outros jardins históricos do país. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia federal vinculada à Secretaria Especial da Cultura e ao Ministério do Turismo, desenvolveu um projeto de abrigo para a colônia de gatos que mora no local.

Desmontáveis, laváveis, de baixa altura e de cor não contrastante com a vegetação, os abrigos conciliam duas reivindicações do cidadão: a preservação do Patrimônio Cultural e a defesa do bem estar dos animais.

Cuidada por protetores dos animais, uma colônia de gatos convive há pelo menos trinta anos com cotias, galinhas-d'angola, patos e pavões no Campo de Santana. Com frequência, a população carioca reivindica melhorias nas condições de vidas dos felinos que moram no parque.

Acionado pela sociedade civil, o Instituto iniciou uma série de ações no bem cultural a fim de investigar a questão. Tradicionalmente, o Iphan se manifestava contrário ao conceito de instalação de abrigos felinos no monumento. A realização de trabalho de campo pioneiro, porém, constatou que é possível impulsionar mudanças na postura da Autarquia.

O projeto contemplou pesquisas, uma série de vistorias e reuniões com a sociedade civil. Como resultado desses esforços, o Iphan constatou que os gatos que ali habitam não destroem a fauna nativa e não representam perigo à fruição do bem tombado como anteriormente alegado.

Com isso em vista, o corpo técnico da Superintendência do Iphan no Rio de Janeiro desenvolveu um protótipo de abrigo, planejado para harmonizar com o patrimônio histórico e paisagístico do monumento. A proposta foi enviada para a Prefeitura do Rio de Janeiro e para o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), que também tombou o Campo de Santana.

A presença de gatos em monumentos históricos encontra precedentes no cenário internacional. Um exemplo é o largo da Torre Argentina de Roma, sítio arqueológico da Itália. No conjunto existe um santuário para felinos que remonta às escavações do sítio. Trata-se de uma estrutura subterrânea que começou a ser utilizada pelos animais.

Em vez de entender a questão como um problema, o governo local incorporou os gatos como parte da fauna urbana: disponibilizou recursos e uma rede de acompanhamento que possibilitam a convivência harmônica dos felinos com o patrimônio arqueológico.

Para que isso ocorra, contudo, é preciso que seja elaborado e executado um plano de manejo dos animais, que contemple castração, identificação, vacinação e outras medidas. Além disso, é essencial conscientizar a população sobre os danos causados pelo abandono de animais domésticos em locais públicos e os perigos de oferecer alimentos não adequados para os felinos.

Por sua importância histórica e pela centralidade que exerce no cotidiano carioca, o Campo de Santana oferece o cenário ideal para impulsionar um projeto multidisciplinar que alie patrimônio cultural com o patrimônio ambiental. Nessa perspectiva, a colônia de felinos é mais um dos elementos que dão sentido ao bem cultural, forjando vínculos afetivos da população para com o parque.

“O desenvolvimento do modelo de abrigo consiste apenas no pontapé inicial para fortalecer esse novo olhar sobre o Campo de Santana, que considera tanto a preservação do bem tombado como o bem estar dos animais”, analisa o superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, Olav Schrader. “Esperamos que essa iniciativa seja abraçada por distintas esferas da sociedade e possa ter prosseguimento, de modo a valorizar ainda mais esse bem singular para a história do Brasil”, complementa.

A história do Campo de Santana

Quem imaginaria durante o período colonial que uma área alagada, de charcos e brejos, se tornaria um dos parques mais icônicos da cidade? Essa transformação deu os primeiros passos na primeira metade do século XVIII, quando o então Campo da Cidade começou a ser aterrado. Em 1753, uma capela em homenagem Sant’Ana foi erguida no local. Mais adiante, em 1815, D. João VI ordenou a construção de um jardim. Neste cenário, D. Pedro I foi aclamado Imperador do Brasil em 1822.

A pedido de D. Pedro II, o paisagista francês Auguste Glaziou idealizou, em 1873, o traçado do parque, que foi inaugurado pelo próprio imperador em 1880. Concebido com 155.000 m² de área, apresentava todos as características do jardim paisagista moderno: cursos d’água, pontes, pedras artificiais, ilhas, conjunto de gruta e cascata, assim como elementos decorativos em ferro fundido.

Também foi no Campo de Santana que se proclamou a República em 1889. Já em 1938, a Comissão do Plano da Cidade elaborou o projeto da Avenida Presidente Vargas, aprovado na época pelo presidente da república. No mesmo ano, o parque foi tombado pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), antigo nome do Iphan.

Cinco anos mais tarde, em 1943, o tombamento foi cancelado para reduzir a área do parque, tendo em vista a abertura da nova avenida. Realizada em 1941, a redução eliminou cerca de 20% da área total. Apesar disso, o Campo de Santana nunca perdeu sua função de importante parque urbano, mantendo seus principais atributos históricos, artísticos e paisagísticos.

Em 2016, o Campo de Santana foi novamente declarado Bem Tombado Nacional, inscrito em três Livros do Tombo do Iphan: o Histórico, o de Belas Artes e o Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico.

Crédito das imagens
1: Oscar Liberal
2 e 3: Acervo Iphan

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