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CANTEIROS-MODELO DE CONSERVAÇÃO
Iphan e UFMT entregam casa histórica restaurada em Cuiabá
Fotos: Marla Fabrin
Na manhã do último sábado (18/4), no Largo do Rosário, centro de Cuiabá (MT), Isabel Cristina de Carvalho, 53 anos, era só sorrisos e lágrimas ao receber parentes, vizinhos, jornalistas e autoridades em sua recém-restaurada casa. A convite do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), uma pequena multidão celebrou a conclusão do restauro do imóvel, viabilizado pela parceria entre as duas instituições, e sua devolução à família de Isabel, após um incêndio que quase o destruiu por inteiro, em 2018.
Financiada pelo Iphan e coordenada pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFMT, a obra é uma das principais entregas do Programa Conviver na capital mato-grossense. O programa é uma iniciativa do Iphan que envolve comunidades em todo o país – especialmente as de baixa renda que vivem em cidades históricas – na gestão colaborativa do patrimônio cultural brasileiro. A estratégia do Conviver se baseia nos Canteiros-Modelo de Conservação, núcleos de ação formados em parceria com instituições de Ensino Superior nos quais professores e estudantes trocam conhecimento com moradores e oferecem assistência técnica gratuita para a restauração ou conservação preventiva de seus imóveis, bem como para a transmissão e continuidade de saberes e práticas ligados à cultural local.
Em Cuiabá, o Iphan já repassou mais de R$ 6,2 milhões para a UFMT desde 2023, pelo Conviver, para recuperar imóveis da região do centro histórico, tombada em 1993. Atualmente, o programa tem se concentrado nas casas no Largo do Rosário, lugar de grande relevância para a história da cidade e para parte da história do Brasil. A casa de Dona Isabel, propriedade da família Carvalho há gerações, recebeu as maiores intervenções devido ao seu grau de degradação após o incêndio, mas também por ser uma das mais emblemáticas na memória cuiabana.
Resgatando a ancestralidade negra de Cuiabá
Conjunto urbano formado na década de 1720, o Largo do Rosário é marcado pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário, tombada individualmente pelo Iphan desde 1975. Assim como a igreja e a capela anexa, dedicada a São Benedito, a vila construída no entorno atraiu uma população predominantemente negra, contrastando com o perfil da elite colonial que ocupava o núcleo central de Cuiabá ao redor da Igreja Matriz.
“Ao longo de 300 anos, esses imóveis foram construídos e reconstruídos, e são perceptíveis alterações que testemunham essa transformação", diz a professora da UFMT Luciana Mascaro, uma das coordenadoras do canteiro-modelo do Programa Conviver em Cuiabá. Ainda assim, diz ela, “fato é que, atualmente, só resta esta igreja setecentista na cidade, e é provável que alguns dos elementos construtivos das casas tenham mais de 200 anos, talvez quase 300”.
É o caso, por exemplo, das paredes de adobe – tijolos fabricados artesanalmente à base de terra crua, água e fibras naturais – que ainda resistem nas casas do Largo do Rosário. Incluindo a casa da família Carvalho, situada na esquina em frente à Igreja.
“Eu acredito que essa casa, não somente para a família, mas para muitas pessoas de Cuiabá, ela é muito importante”, diz dona Isabel, referindo-se não apenas ao fato de ser uma edificação histórica, mas pelo uso que lhe foi dado durante décadas. Era lá que sua tia-avó, Jovina Clara de Carvalho, organizava uma das festas de São João mais conhecidas de Cuiabá, a Bola de Ouro, com muita música, comida e bebida distribuída de graça durante um fim de semana, e foi lá também que os Carvalho ajudaram a criar vários filhos e filhas de outras famílias menos favorecidas. “Essa casa já fez muito por muita gente. Nossa casa sempre foi uma casa simples, mas acolhedora”, diz Isabel.
"Preservar esse patrimônio é preservar a essência de homens e mulheres – lavadeiras, parteiras, cozinheiras, benzedeiras – que também merecem crédito na construção de Cuiabá, de Mato Grosso e do Brasil.”
Para o produtor cultural Cristóvão Luiz Gonçalves da Silva, idealizador do projeto de turismo afrocentrado Rotas da Ancestralidade, que promove caminhadas pelo centro de Cuiabá destacando locais relevantes para a história da população negra da cidade, a restauração das casas do Largo do Rosário tem grande importância simbólica. “Preservar a casa da dona Jovina é preservar esse patrimônio material e imaterial de influência preta, africana”, diz Cristóvão. “Esses africanos estavam aqui, nesses casarios ao redor da Igreja. Então preservar esse patrimônio é preservar a essência de homens e mulheres – lavadeiras, parteiras, cozinheiras, benzedeiras – que também merecem seu crédito na construção de Cuiabá, de Mato Grosso e do Brasil.”
Além da casa da família Carvalho, outros três imóveis no Largo do Rosário têm recebido intervenções diversas pelo Programa Conviver – desde obras de drenagem e instalação de esgotamento sanitário até a limpeza, organização e manutenção de telhados – e dois outros estão em fase de desenvolvimento de projetos. “A atuação do canteiro-modelo promove a conservação de habitações que são parte da morfologia urbana moldada desde o século XVIII. Ao dar condições para que o morador continue vivendo em um imóvel de um conjunto tombado, ajudamos a perpetuar essa morfologia e essa paisagem valoradas no tombamento”, diz a professora Luciana.
Já a superintendente do Iphan em Mato Grosso, Ana Joaquina da Cruz Oliveira, acrescenta que, o canteiro-modelo é tanto instrumento de preservação patrimonial quanto de resistência social. “Ao viabilizar a permanência dos moradores, o programa atua como agente de afirmação e promoção da identidade de grupos frequentemente excluídos das narrativas oficiais e políticas de patrimônio”, diz ela.
Conservação como educação patrimonial
Não menos importante é o aspecto de educação patrimonial promovido pelas ações do Programa Conviver, que é o que justifica chamar os canteiros de obras do programa de “canteiros-modelo”. Conduzidas a partir do diálogo entre Iphan, instituições parceiras e as comunidades, as intervenções do Conviver funcionam como um projeto de extensão universitária no qual futuros profissionais em formação trocam saberes com os moradores e aprendem, juntos, a conservar o patrimônio.
Nas obras do Largo do Rosário, por exemplo, o canteiro-modelo promoveu mais de 15 oficinas de fabricação de tijolos de adobe, das quais participaram mais de 150 pessoas, entre alunos da UFMT e do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), moradores e outros interessados – em sua maioria mulheres, como a própria Isabel. Além dessas, a equipe também promoveu oficinas de limpeza e conservação de telhas, de instalações elétricas, de fabricação de tinta à base de terra e uma oficina-mutirão de pintura, que devolveu às fachadas frontal e lateral da casa da família Carvalho sua cor vermelha original.
E como a história de um lugar pode ser revelada tanto por suas casas quanto pelo que está abaixo delas, as ações do programa tiveram acompanhamento arqueológico, que resultou num acervo de objetos de diferentes épocas encontrados durante as obras, que ficarão sob a guarda do Museu Rondon de Etnologia e Arqueologia, da UFMT.
De acordo com a equipe responsável e o arqueólogo coordenador das pesquisas, Vinicius Oliveira, os principais achados, os principais achados na região do Largo do Rosário podem ser classificados em: objetos de vidro, como garrafas de bebida do século XIX e frascos de perfumaria do início do século XX; fragmentos de cerâmica decorados com variadas técnicas, algumas provavelmente associadas a saberes de ancestralidade africana; louças de origens diversas, como faianças portuguesas e inglesas, bem como louças de fabricação nacional; além de elementos arquitetônicos desconhecidos até pelos moradores, como o piso original de uma das residências atendidas pelo programa.
Os verdadeiros guardiões do patrimônio
No sábado 18, parte desse acervo foi apresentada às mais de 100 pessoas que foram prestigiar a reinauguração da casa da família Carvalho. Além dos achados arqueológicos, os visitantes puderam ver registros fotográficos do processo de restauração do imóvel, que durou cerca de um ano. Um par de óculos de realidade virtual também permitia aos interessados conhecerem as condições em que a casa se encontrava após o incêndio, que consumiu todo o telhado e parte das paredes, deixando o lugar tomado pela vegetação.
A recepção aconteceu nos cômodos da frente da casa, que passaram a trazer em si mesmos detalhes construtivos de valor histórico agora ressaltados pelo projeto de restauro, como partes da parede com os tijolos de adobe à mostra (tanto os originais quanto os fabricados nas oficinas) – decisão tomada em acordo com a própria Isabel.
“O principal mérito do Programa Conviver é esse caráter de interlocução direta com a comunidade, de mostrar que a gestão do patrimônio só faz sentido quando é feita em conjunto com as pessoas.”
“O principal mérito do Programa Conviver é esse caráter de interlocução direta com a comunidade, de mostrar que a gestão do patrimônio só faz sentido quando é feita em conjunto com as pessoas”, disse o presidente do Iphan, Deyvesson Gusmão.
Na mesma linha, a superintendente do Iphan em Mato Grosso, Ana Joaquina da Cruz Oliveira, agradeceu “aos moradores do Largo do Rosário pela confiança de abrirem as portas de suas casas. Sem a participação de vocês o programa não funciona, porque vocês são os verdadeiros guardiões do patrimônio”.
Representando a prefeitura de Cuiabá, o secretário municipal de Planejamento e Desenvolvimento Urbano, José Afonso Portocarrero, elogiou o programa e o restauro da casa. "Acabamos de comemorar o aniversário de Cuiabá (8 de abril), e hoje também é a cidade que ganha um presente”, disse o secretário.
“Nossos casarões são lindos, só precisam ser valorizados”, disse a irmã da Dona Isabel, Angélica Carvalho, que vê na reforma da residência familiar a “reconstrução de parte da história de Cuiabá”. “Nós vamos continuar mostrando nossa casa para os visitantes”, disse ela, que tomou a palavra a pedido da irmã, emocionada demais para falar ao público naquele momento.
Dona Isabel – que agora vai voltar a morar na histórica casa n. 65 do Largo do Rosário, junto ao marido e ao irmão Everaldo, com sua esposa e filha – também já faz planos para o imóvel, como reunir os muitos parentes e amigos no próximo Natal. E quanto à famosa festa de São João da Dona Jovina? “Eu já sonhei com isso”, diz, emocionada. “Não é fácil, porque mesmo na época da minha tia tinha os festeiros, que contribuíam. Mas uma nova festa de São João da Bola de Ouro? Nossa mãe! Eu acho que ia reviver até os que já foram.”
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