Iphan aprova tombamento definitivo do Conjunto Arquitetônico Engenho Corredor
Local pertenceu à família de José Lins do Rêgo e remete à memória do escritor, bem como a uma época de importantes transformações no País

Os ambientes do Engenho Corredor, em Pilar (PB), guardam mais do que lembranças de um dos maiores escritores brasileiros, José Lins do Rêgo (1901-1957), neto do seu proprietário. O valor histórico do conjunto arquitetônico e paisagístico remonta a uma época de importantes transformações no País, sobretudo no Nordeste, quando se viu a decadência dos antigos engenhos de cana-de-açúcar, substituídos em seu protagonismo econômico por usinas modernas. Nesta terça-feira (16), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou o tombamento definitivo do conjunto, em reconhecimento a sua importância para a história do Brasil.
A decisão foi tomada durante a 110ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão colegiado de instância máxima do Iphan responsável pela avaliação e reconhecimento de bens culturais brasileiros, e resultou na inscrição do Engenho Corredor no Livro do Tombo Histórico e no Livro do Tombo das Belas Artes.

O tombamento do conjunto arquitetônico e paisagístico do Engenho Corredor abrange: a casa grande, residência e sede da propriedade, hoje recuperada e restaurada; os remanescentes e escombros da casa de engenho, hoje em ruínas, com vestígios do antigo sistema de produção de açúcar, que envolvia moagem, cozimento e depuração; a casa de purgar, local de secagem e embranquecimento do açúcar, construída posteriormente ao primeiro núcleo de ocupação; a antiga senzala, recentemente restaurada; além de todo o restante da área do conjunto contida na poligonal de tombamento proposta no parecer técnico do arquiteto Gustavo Peixoto, conselheiro relator do processo.
Memórias de infância e críticas sociopolíticas
Eternizado na obra “Menino de Engenho”, o local abrigou as primeiras memórias de infância de José Lins do Rêgo, que viveu na propriedade até oito anos de idade. Foi ali, na Zona da Mata paraibana, que o escritor ambientou essa e outras histórias que revelaram ao Brasil um Nordeste feito de açúcar, suor e contradições. Autor da geração de 1930 do Modernismo brasileiro, Lins do Rêgo se destacou pelo regionalismo, valorizando os costumes locais e integrando à sua literatura tanto elementos autobiográficos quanto a crítica sociopolítica de sua época.
Durante a reunião do Conselho, o presidente do Iphan, Leandro Grass, notou que obras como a de Lins do Rêgo ou a de Gilberto Freyre, autor de “Casa-Grande e Senzala”, costumam ser alvos de críticas - em sua visão, “mal elaboradas” - por promover uma suposta ideia de amizade e convivência pacífica entre etnias e classes sociais. No entanto, o presidente ponderou que, “para consolidar a crítica feita por Florestan Fernandes e outros autores, mostrando que aquele ambiente não tinha nada de tolerante, amigável ou fraterno, foi fundamental o trabalho dessas primeiras vozes”.
O superintendente do Iphan na Paraíba, o antropólogo Emanuel Braga, concordando com Grass, afirmou que “as descrições etnográficas que Zé Lins e Gilberto Freyre fizeram em suas obras conseguiram me sensibilizar para a situação da escravidão brasileira tanto quanto as críticas posteriores”.
Educação patrimonial

Durante a leitura do seu parecer, o relator Gustavo Peixoto ressaltou: “Se por um lado é verdadeiro que o Engenho Corredor abrigou, criou e deu à luz José Lins do Rego, também procede dizer que José Lins do Rego criou para o Mundo o engenho Corredor, o mundo do açúcar paraibano, e é a ele que devemos o prestígio nacional deste último remanescente que o Iphan trata hoje de tombar”.
O tombamento é fruto de um processo extenso de análises, visitas técnicas e pesquisas. Entre os profissionais envolvidos, estiveram os arquitetos Raglan Gondim e Giovani Barcelos, que compartilharam com o relator sua leitura sobre os escritos de José Lins do Rêgo. Segundo Raglan, a obra é marcada por “uma inquietação literária que insiste a nos narrar injustiças sociais contemporaneamente permanentes, com suas vozes ainda escritas nesses espaços, nas paredes, na coberta de telha vã, nos escombros a mostrar”. Barcelos concorda e acrescenta que, “de fato, o tempo parece não existir no Corredor. Toda sua mensagem para as gerações futuras é contemporânea”.
Atualmente o Engenho Corredor é aberto à visitação, onde quem leu as obras de Lins do Rêgo pode ver de perto o cenário onde foram ambientadas. A casa contém móveis de época, utensílios e fotos do fundador, o avô do escritor, e da família. Para visitar, é necessário agendamento.
Cabe ressaltar que, se as edificações que já estão restauradas do Engenho Corredor se prestam amplamente à função de educação patrimonial, o antigo engenho em ruínas não deve ser ignorado. Como notou em sua fala de apresentação do processo ao Conselho Consultivo a coordenadora geral de Identificação e Reconhecimento do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan, Vanessa Pereira, a ideia “não é que o tombamento congele o imóvel como uma ruína, mas que possa compor o conjunto de forma educativa para o futuro”.
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