CONSELHO CONSULTIVO

Iphan aprova tombamento da Capela do Cristo Operário (SP), marco do modernismo religioso no Brasil

Bem material foi inscrito nos Livros do Tombo Histórico e de Belas Artes

Publicado em 22/09/2026 17:33
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Murais da capela
Murais de Alfredo Volpi na Capela do Cristo Operário

Na 114ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), realizada no dia 22/09, foi aprovado o tombamento federal da Capela do Cristo Operário, acervo de bens móveis e integrados e edifícios remanescentes da antiga Fábrica Unilabor, na Vila Brasília Machado, região do Ipiranga, zona sul da capital paulista. 

O bem foi inscrito nos Livros do Tombo Histórico e de Belas Artes. Esse reconhecimento consolida, em nível federal, uma proteção que a capela já recebe nas esferas municipal e estadual desde 2004, por meio do Conpresp (Resolução nº 11/2004) e do Condephaat (Resolução SC nº 42/2004). 

O relator Eduardo Pierroti Rossetti finalizou a leitura do parecer defendendo que o tombamento da capela é imperioso: "A conclusão, portanto, prezados Conselheiros, é que é imperioso tombar a Capela do Cristo Operário, acervo de bens móveis e integrados e edifícios remanescentes da antiga Fábrica Unilabor para que não apenas a comunidade possa praticar sua fé, mas também fomentar o convívio livre e a liberdade crítica nas ações cotidianas, mas sobretudo para que, na medida do possível, com este tombamento seja possível também resgatar o que este bem representa como perspectiva de país".  

Um templo nascido de uma fábrica 

capela nossa senhora operário
Capela do Cristo Operário (São Paulo)

Erguida a partir da adaptação de um antigo armazém industrial, a capela — à qual foram somados marquise, empena, torre sineira, presbitério, capela-mor e sacristia — é apontada como o primeiro passo da modernidade na arte e na arquitetura religiosa brasileira. Sua simplicidade construtiva contrasta com a densidade simbólica do conjunto que abriga: um encontro entre fé, trabalho e vanguarda artística. 

O espaço nasceu ligado à Unilabor, fábrica autogestionária de móveis criada nos anos 1950 por iniciativa do frei dominicano João Batista. O empreendimento reunia operários em torno de um modelo de produção mais igualitário, aliando o trabalho fabril ao design moderno — um experimento que os pareceres técnicos descrevem como ponto de conciliação entre os planos social, político, religioso e artístico de uma mesma geração. 

Acervo com assinaturas do modernismo brasileiro 

O inventário levantado soma 46 itens entre bens móveis e integrados, produzidos especialmente para o local por alguns dos nomes mais relevantes das artes visuais e do paisagismo brasileiros do século 20: 

  • Alfredo Volpi pintou os painéis a têmpera do altar — A Sagrada Família, Cristo Operário e Santo Antônio Pregando aos Peixes — além dos vitrais dos quatro evangelistas na nave da capela. 

  • Roberto Burle Marx assinou o projeto paisagístico do jardim lindeiro ao templo. 

  • Geraldo de Barros desenhou o vitral da sacristia e peças de marcenaria fabricadas pela própria Unilabor, entre elas uma estante triangular hoje incorporada ao acervo. 

  • Yolanda Mohalyi pintou as têmperas o batistério — Anunciação, Árvore da Vida e Pomba da Paz — e o afresco do Caminho de Emaús, na sacristia, redescoberto apenas durante obras de restauro realizadas entre 2006 e 2008. 

  • Elisabeth Nobling criou a pia batismal, castiçais e seis luminárias em cerâmica vitrificada, gravadas à ponta seca. 

Completam o conjunto obras de Moussia Pinto Alves (as esculturas em gesso de Nossa Senhora Mãe dos Homens e São João Batista), Robert Tatin (pia de água benta e alfaias em cerâmica), Giandomenico de Marchis (objetos litúrgicos) e Giuliana Segre Giorgi (O Nascimento de Cristo). 

Vitral
Vitral do evangelista São Marcos de Alfredo Volpi
vitral
Vitral do evangelista São Lucas de Alfredo Volpi

Por que tombar o conjunto e não só a capela 

Um dos pontos centrais levados ao conselho foi a defesa de que a proteção não pode se limitar ao edifício religioso isoladamente. Segundo os pareceres técnicos que embasaram o processo, a capela funciona como elemento central em torno do qual "orbitam" as antigas oficinas da Unilabor, a casa do capelão — residência que abrigou o frei João Batista —, os edifícios de apoio à comunidade e os jardins. 

A preservação será feita em dois níveis distintos: 

  1. Preservação integral, para o edifício da capela, o muro e o portão frontais e o jardim lindeiro, com recomendação expressa de recuperação do desenho original de Roberto Burle Marx. 

  2. Preservação da volumetria e das fachadas externas, para os galpões remanescentes da fábrica e para a Casa do Capelão, o que permite adaptações internas voltadas a novos usos comunitários ou culturais, desde que respeitado o envoltório. 

Entorno também entra na mira das diretrizes 

O tombamento não trata apenas do que está dentro dos limites do lote. Um estudo de insolação anexado ao dossiê técnico define gabaritos máximos para novas construções na vizinhança, de modo a evitar que edifícios mais altos projetem sombra sobre a capela, o que comprometeria a entrada de luz pelos vitrais e poderia favorecer problemas de umidade na estrutura histórica. 

Outra restrição prevista é a proibição do uso de estacas cravadas por percussão em obras de fundação, tanto no próprio lote quanto em imóveis vizinhos contíguos — medida destinada a proteger a estrutura física frágil da capela durante eventuais construções ao redor. 

Com o tombamento, o que era até aqui um acordo silencioso entre uma capela, uma fábrica e um frei ganha, enfim, força de lei: a garantia de que esse pedaço de concreto, luz e memória continue de pé, não como relíquia trancada, mas como lugar vivo, aberto a quem passar pelo Ipiranga e quiser lembrar que fé, trabalho e arte já dividiram, um dia, o mesmo teto. 

Mais informações     
Assessoria de Comunicação Iphan - comunicacao@iphan.gov.br     
Danyelle Silva – danyelle.silva@iphan.gov.br     

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