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RECONHECIMENTO
Iphan aprova registro dos Saberes e Práticas Tradicionais Associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca de SC
Foto: Carolina Maciel de Arruda/Rancho Cultural
Os Saberes e Práticas Tradicionais Associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca de Santa Catarina são, oficialmente, patrimônio cultural do Brasil, inscritos no Livro de Registro dos Saberes. O reconhecimento foi aprovado durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, nesta quarta-feira (11/03), realizada no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro (RJ).
A decisão reconhece uma tradição com mais de 2 mil anos de história e que persiste atualmente em 88 engenhos em atividade espalhados por 13 municípios catarinenses. “Estamos fazendo uma reparação histórica, de um bem que dialoga com a história do povo brasileiro como um todo. Saudamos os detentores, os povos indígenas, o povo negro, as comunidades de Engenho de Santa Catarina e de todo o Brasil”, declarou o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Leandro Grass.
Engenheiros de farinha artesanais de Garopaba, Ibiraquera e Imbituba (SC) se reuniram no Engenho do João e da Cida, em Garopaba, para acompanhar a transmissão ao vivo do Conselho, através do canal do Iphan no YouTube. Veja o registro desse momento:
História
Antes de o Brasil existir como país, a mandioca já era cultivada e transformada em farinha pelos povos Guarani e Tupi-Guarani. Pesquisas indicam que esses conhecimentos têm entre 2 mil e 3 mil anos. Foram esses povos que ensinaram ao mundo como transformar uma raiz com propriedades tóxicas em alimento nutritivo e versátil.
Com a colonização, novos saberes se somaram a essa base ancestral. No século 18, imigrantes açorianos — quem é natural, habitante ou relativo ao arquipélago dos Açores, em Portugal — chegam ao litoral de Santa Catarina trazendo técnicas de moagem e tração animal, herdadas dos moinhos de trigo europeus. Ao mesmo tempo, africanos escravizados em diáspora contribuíram com conhecimentos de agricultura, carpintaria e construção de engrenagens de madeira. Saberes que foram incorporados à estrutura dos engenhos sem que, por muito tempo, a história oficial reconhecesse sua autoria.
Da mistura desses três mundos (indígena, africano e açoriano) nasceu a chamada “farinha polvilhada”, fina, de um branco característico e rica em polvilho, que distingue a produção catarinense no Brasil inteiro. Orgulho das comunidades da região.
No auge desse sistema produtivo, em 1797, Santa Catarina tinha 884 engenhos de farinha em funcionamento. Eles eram a base da economia local, um verdadeiro “ciclo da farinha” que sustentou gerações.
Mais do que farinha: um jeito de viver
É no engenho que acontece a farinhada, que é como um mutirão: vizinhos e parentes se reúnem para trabalhos juntos, cada um contribuindo com o que sabe. Enquanto uns raspam e lavam a mandioca, outros operam a prensa, controlam o forno ou peneiram a massa. E enquanto se trabalha, também se canta. As ratoeiras — cantigas tradicionais — fazem a trilha sonora que ecoa pelo galpão. O Boi de Mamão — linguagem artística tradicional e recorrente no contexto das farinhadas e engenhos de Santa Catarina, que pode ser um forma de apresentação teatral, dança e canto — anima as crianças e a refeição coletiva aproxima as gerações.
Adalício Vitor da Silva, conhecido como Seu Lício, um dos detentores do bem cultural, conta que aprendeu o ofício observando os pais desde criança. Para ele, quem herda um engenho herda também uma responsabilidade: “Tem que cultivar o filho e os filhos deles para manter bem vivo o engenho, para não deixar acabar”, disse.
Quem é quem
Forneiro(a): é quem domina a arte de torrar a farinha no forno, controlando a temperatura e o ponto exato do produto por meio da sensibilidade do cheiro, tato e visão. Destaca-se o papel histórico das mulheres como forneiras, trabalhando “a braço” em jornadas exaustivas.
Engenheiro de Farinha: nome informal e de forte valor identitário usado pelos próprios detentores para se referirem àqueles que dominam todas as etapas do processo produtivo.
Mestres e mestras: proprietários de engenho e guardiões de receitas e técnicas ancestrais.
Agricultores familiares: quem começa o ciclo da farinha, na roça, com o plantio, cultivo e colheita da mandioca, integrando a produção à subsistência da família.
“Eu fiz isso aqui (o engenho), não foi mais tanto para mim. Eu fiz para os meus filhos, para os netos, para o pessoal vir visitar o engenho”, disse Seu Lício, detentor dos Saberes e Práticas Tradicionais Associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca.
Os desafios de manter viva a tradição
Jucélia Beatriz Martins, liderança da Comunidade Quilombola Vidal Martins, localizada no Rio Vermelho, em Florianópolis (SC), é bisneta de Vidal Martins, ex-escravizado que deu nome ao quilombo e que recebeu as terras da região após sua alforria. Ela cresceu vendo sua família trabalhar em engenhos de terceiros após ser expropriada de suas terras. Hoje ela tem um sonho: “O meu sonho é ter um engenho aqui. Para trazer o povo do entorno, outras pessoas de fora para conhecer como é que se faz farinha.”
Nos últimos dez anos, os engenhos passaram a enfrentar ameaças crescentes. A especulação imobiliária avança sobre o litoral catarinense, pressionando as roças e os galpões tradicionais. O turismo de massa, sem planejamento adequado, pode descaracterizar práticas que dependem de silêncio, tempo e comunidade para existir.
Além disso, as normas sanitárias e ambientais que regulam a produção de alimentos foram pensadas para a indústria, não para o artesanato. Um engenho tradicional, com seu forno de barro e suas prensas de madeira centenárias, dificilmente se enquadra em regras feitas para fábricas. Isso gera insegurança jurídica para os produtores e, em muitos casos, obriga adaptações que descaracterizam o produto original.
O registro no Livro das Saberes
A relatora do processo do Iphan, Luciana Gonçalves de Carvalho, representante da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), explica a escolha pelo Livro dos Saberes, citando uma frase que ouviu dentro das comunidades: “O segredo da farinha é quem faz, não é o engenho. O engenho é só uma máquina”, disse o Sr. Luiz Farias, da Associação Comunitária Rural de Imbituba (Acordi).
“Se a farinha fosse americana (...), banquete de bacana seria farinhada”, cantou o conselheiro André Luiz Nascimento dos Santos, a música “Nóis é Jeca mais é Jóia”, ao declarar-se favorável ao registro do bem.
Ou seja, o bem cultural mais significativo dessas comunidades é o conjunto de saberes, práticas e formas de sociabilidade que movem o sistema. Não a estrutura física que os abriga. “A comunidade de detentores vai muito além dos proprietários dos engenhos. Ela abrange grupos e indivíduos que atuam na roça, no cuidado com o território, nas festividades e brincadeiras associadas a cada elemento do sistema da farinha”, destaca a relatora.
Como diz o dossiê que fundamentou o registro: plantar, farinhar e cozinhar não são apenas técnicas. São o marco central de uma identidade que resiste e que agora o Brasil reconhece como sua.
Para saber mais sobre os Saberes e Práticas Tradicionais Associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca de Santa Catarina, acesse a plataforma Bem Brasileiro e confira, abaixo, o vídeo do dossiê de registro.
Mais informações
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