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CUIDADO ESPECIALIZADO
Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do HUSM-UFSM comemora 30 anos de atendimento pelo SUS
Santa Maria (RS) – Há três décadas, em 4 de outubro de 1994, o Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), realizou a primeira cirurgia para remoção de um tumor na glândula parótida, marcando o início do Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Antes disso, pacientes de Santa Maria e região eram encaminhados para Porto Alegre, o que limitava o acesso a tratamento especializado. A criação do serviço foi um marco para o atendimento via Sistema Único de Saúde (SUS) no interior do estado.
Em 1994, a Direção do HUSM em 1994 era composta pelos Diretores: Geral – Antero Scherer e o Clínico – Augusto Prado. Eles foram fundamentais ao autorizar as cirurgias de Cabeça e Pescoço, bem como as internações dos pacientes da especialidade.
O início e desenvolvimento do Serviço
O Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do HUSM foi criado em resposta à crescente demanda por tratamentos especializados nessa região, que, até então, carecia de profissionais capacitados para abordar tanto as patologias benignas quanto as neoplasias malignas. Maria da Graça Vidal, cirurgiã pioneira na área, foi convidada a integrar a equipe do Hospital logo após concluir sua especialização em Porto Alegre. “Naquela época, não havia ninguém especializado em cirurgia de cabeça e pescoço em Santa Maria. Era comum os pacientes serem transferidos para a capital”, relembrou Maria da Graça.
Inicialmente, o serviço operava de maneira voluntária, com as primeiras cirurgias realizadas com o auxílio de residentes de Cirurgia Geral e estudantes de Medicina, que acompanhavam Maria da Graça nos procedimentos. O interesse dos alunos e residentes foi um dos fatores que impulsionou a formalização do serviço. “Foi um processo de construção coletiva, com o apoio de muitos colegas, como o Dr. Pedro Luiz Cóser, que cedeu seus leitos para a internação dos pacientes e auxiliou com a avaliação endoscópica da laringe, orofaringe e hipofaringe; o Dr. Cleoni Pedron, primeiro residente de Cirurgia Geral a demonstrar interesse na área; e a Profa. Dra. Miriam Seligman de Menezes, que autorizou a inclusão da Cirurgia de Cabeça e Pescoço como estágio obrigatório para a residência de Cirurgia Geral e para os alunos do quinto e sexto anos de Medicina. Esses colegas foram fundamentais no início”, destacou a cirurgiã.
Ao longo dos anos, o Serviço cresceu e se solidificou. Os atendimentos e cirurgias, realizados em espaços cedidos pela Otorrinolaringologia, logo exigiram a criação de leitos próprios devido à demanda crescente por tratamentos específicos. Além da ampliação da infraestrutura, a equipe tornou-se multidisciplinar, composta por médicos, enfermeiros, estagiários e residentes.
O avanço das técnicas e a formação de novos especialistas foram fatores determinantes para o sucesso do Serviço. Entre os marcos importantes, destaca-se a chegada de novos médicos, como Marcos André dos Santos, Cláudio Silveira e Neymar Scolari, que contribuíram para expandir a capacidade de atendimento. “Ter mais colegas foi um divisor de águas. Isso permitiu que aumentássemos o número de cirurgias e pudéssemos atender mais pacientes com qualidade”, contou Maria da Graça.
Outro avanço foi a criação da primeira Residência em Cirurgia de Cabeça e Pescoço no interior do Rio Grande do Sul, em 2015. “Já formamos cinco residentes e, atualmente, estamos com o sexto residente da especialidade em curso. Todos os nossos ex-residentes estão bem colocados e atuando com destaque na nossa área”, comemorou a cirurgiã.
A ampliação do atendimento
Ao longo dos anos, o Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do HUSM consolidou-se como referência regional. Atualmente, oferece diversos tipos de procedimentos cirúrgicos e ambulatoriais, desde o tratamento de tumores malignos e benignos, até cirurgias complexas, como as cirurgias de base de crânio, laringectomias (remoção parcial ou total da laringe, com a reabilitação fonatória), traumas complexos, grandes cirurgias oncológicas e reconstruções faciais.
No ambulatório, os pacientes têm acesso a consultas e à solicitação de exames para o estadiamento como ultrassonografias, tomografias e ressonâncias, além das biópsias, essenciais para diagnóstico precoce, aumentando as chances de um tratamento bem-sucedido. Já no Centro Cirúrgico, são realizadas de 40 a 50 cirurgias por mês, número que pode ser ainda maior durante mutirões. Os procedimentos abrangem desde ressecções de tumores de pele, tireoide, boca, tumores de via aérea digestiva superior, glândulas salivares, seios paranasais, paratireoide, más-formações congênitas (ex.: cisto tireoglosso e cisto branquial), esvaziamentos cervicais, grandes ressecções com complexas reconstruções faciais, paragangliomas, trauma e as traqueostomias, realizadas na CTI e demais unidades.
“Temos uma equipe integrada, que atua em conjunto com outras especialidades, como Enfermagem, Oncologia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Odontologia, Radioterapia, Nutrição, Psicologia e Assistência Social. Isso garante um atendimento mais completo e personalizado para nossos pacientes”, enfatizou Maria da Graça. Essa abordagem multidisciplinar é importante para o tratamento de casos oncológicos, que exigem acompanhamento contínuo e cuidados complexos.
Desafios e perspectivas futuras
Apesar do sucesso e das inovações ao longo dos anos, o Serviço enfrenta desafios. Um deles é a burocracia no sistema de regulação de consultas e exames que dificulta o acesso dos pacientes ao HUSM. “A regulação, que antes era mais simples, hoje, em muitos casos, atrasa o tratamento dos pacientes. Isso impacta diretamente no prognóstico, especialmente nos casos oncológicos”, alertou Maria da Graça Vidal, coordenadora do Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço no HUSM.
Por outro lado, a equipe do Serviço não para de pensar em formas de inovar e melhorar o atendimento. O próximo objetivo é introduzir técnicas de reconstrução microcirúrgica, além de consolidar o uso de tecnologias avançadas no tratamento dos pacientes. “Queremos continuar avançando, trazer novas tecnologias e melhorar ainda mais o atendimento. Nosso foco sempre foi e sempre será o paciente”, detalhou a cirurgiã.
“Com uma equipe experiente e dedicada, o Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do HUSM tornou-se referência em todo o estado, proporcionando atendimento de qualidade para milhares de pacientes que dependem do SUS”, reforçou Maria da Graça. Para celebrar a implementação do Serviço no HUSM, foi realizado, em 4 de outubro de 2024, o Simpósio “Pioneirismo e Desafios Atuais: 30 Anos de Cirurgia De Cabeça e Pescoço”.
Saiba mais sobre o câncer de cabeça e pescoço
O câncer de cabeça e pescoço, que inclui tumores na boca, laringe, faringe e vias aéreas, é uma doença frequentemente diagnosticada tardiamente, explicou Maria da Graça. Segundo ela, “é um câncer silencioso, muitas vezes mascarado por sintomas comuns como faringite ou nódulos, que não geram preocupação imediata”.
Entre os sinais de alerta estão feridas na boca que não cicatrizam e apresentam crescimento contínuo, além de lesões persistentes frequentemente confundidas com aftas. Ao contrário dessas, que são benignas e autolimitadas, as lesões que não cicatrizam podem indicar algo mais grave, como o câncer oral. Outros sintomas preocupantes incluem rouquidão que persiste por mais de 15 dias, dificuldade para engolir e sensação de corpo estranho na garganta. Esses sinais devem ser cuidadosamente monitorados e avaliados por especialistas, especialmente em pessoas com fatores de risco, como tabagismo, consumo excessivo de álcool e infecção pelo HPV.
Maria da Graça enfatizou a necessidade do diagnóstico precoce. “Quanto mais cedo for identificado, maiores são as chances de sucesso no tratamento”. Ela ressaltou, também, que a prevenção passa por manter hábitos saudáveis, como higiene bucal adequada, evitar o consumo de tabaco e álcool, além de buscar atendimento médico em caso de sinais suspeitos. Os tratamentos variam conforme o estágio da doença, podendo incluir cirurgia, radioterapia e quimioterapia. A especialista reforçou a importância de campanhas de conscientização, como o Julho Verde, e destacou as dificuldades enfrentadas pelos pacientes.
Conforme o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o Brasil registra cerca de 41 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço a cada ano, reforçando a necessidade de atenção e cuidados contínuos com a saúde. Caso identifique algum dos sintomas, a recomendação é buscar orientação médica o mais rápido possível.
Sobre a Ebserh
O HUSM-UFSM faz parte da Rede Ebserh desde 2013. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Andreia Pires
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh