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SAÚDE PÚBLICA
Diagnóstico precoce é a melhor forma de evitar a cegueira por glaucoma
O glaucoma pode evoluir sem sintomas. Exames oftalmológicos regulares ajudam a detectar a doença precocemente e proteger a visão.
Santa Maria (RS) - Imagine caminhar dentro de casa e, de repente, esbarrar em móveis ou objetos por não perceber o que está ao lado do seu campo de visão. Esse pode ser um dos primeiros sinais do glaucoma, uma doença ocular que provoca perda progressiva da visão periférica. Em estágios mais avançados, podem surgir sintomas como visão em túnel e, em alguns casos, dor ocular e náuseas.
O glaucoma tem tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), inclusive em hospitais administrados pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), como o Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), vinculado à Universidade Federal de Santa Maria.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, até 2030 o mundo poderá ter cerca de 100 milhões de pessoas com glaucoma. A prevalência da doença aumenta com a idade, chegando a 3,5% a 5,5% entre pessoas próximas dos 70 anos. No Brasil, estima-se que 3,4% da população acima de 40 anos tenha glaucoma, segundo estudos epidemiológicos utilizados pelo Ministério da Saúde.
No Rio Grande do Sul, a prevalência estimada indica que entre 100 mil e 150 mil pessoas podem conviver com a doença, considerando que o estado possui cerca de 5 milhões de habitantes com mais de 40 anos. A estimativa baseia-se em parâmetros epidemiológicos utilizados pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia.
Dados da produção ambulatorial do SUS mostram que o Rio Grande do Sul está entre os estados que mais realizam exames para diagnóstico da doença. Entre 2019 e 2024, foram registrados 1.822.862 exames relacionados ao diagnóstico do glaucoma no estado, o segundo maior volume do país, de acordo com levantamento baseado no Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS) analisado pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia e divulgado pela imprensa nacional.
O oftalmologista Rafael Henrique Mariano da Rocha, do HUSM, explica que o diagnóstico precoce é fundamental.
“O glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível no mundo, mas com acompanhamento e tratamento, a maioria dos pacientes consegue preservar a visão ao longo da vida. Por isso, não espere ter sintomas para procurar um oftalmologista. Exames de rotina podem salvar sua visão”, alerta o especialista.
Rede Ebserh
O HUSM-UFSM faz parte da Rede da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Rede Ebserh) desde dezembro de 2013. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo em que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Perguntas e respostas sobre o glaucoma
Quais as causas do aumento da pressão intraocular que podem ocasionar o glaucoma? Quais os principais fatores de risco?
R: O aumento da pressão intraocular é causado por um desequilíbrio entre a produção e a drenagem do humor aquoso, que é um líquido que ocupa a parte anterior do olho. Ou seja, quando a produção é muito grande para a drenagem. Seus principais fatores de risco são a idade, a história familiar, a etnia e histórias de doenças ou traumas oculares.
O glaucoma apresenta sintomas? Se sim, quais?
R: Esse é um dos grandes desafios do glaucoma. Na forma mais comum, que é o glaucoma de ângulo aberto, a doença é silenciosa – não há dor, nem perda visual perceptível até que a doença já esteja mais avançada.
Há uma perda lenta do campo visual periférico, que dificilmente é notada, e os danos são irreversíveis. Já o glaucoma de ângulo fechado, que é mais raro, pode sim causar sintomas agudos, como dor intensa nos olhos, visão embaçada, halos coloridos ao redor das luzes e náuseas.
Quais as principais formas de prevenção do glaucoma?
R: A prevenção é o diagnóstico precoce. A doença é progressiva e silenciosa, e sem um exame completo passa desapercebida. Daí a importância de realizar uma consulta com oftalmologista regularmente e avaliar a pressão intraocular e o nervo óptico e, em alguns casos, exames complementares, como o campo visual e a tomografia (OCT). Não há como prevenir a doença, mas um diagnóstico precoce evita a perda de visão - de fato, o glaucoma é a maior causa de cegueira irreversível.
Quais os principais tratamentos?
R: O tratamento baseia-se na redução da pressão intraocular, que é o fator de progressão que podemos controlar. Para isso, usamos colírios, laser e até cirurgia, dependendo do caso, para diminuir a produção de humor aquoso ou melhorar a sua drenagem. É importante lembrar que o glaucoma não se cura, se controla, e deve continuar o acompanhamento sempre, mesmo que o paciente não sinta nada. Caso contrário, a doença continua a progredir.
Uma vez danificado o nervo óptico, é possível recuperar/reverter o quadro?
R: O dano ao nervo óptico é irreversível, e por isso mesmo é tão importante diagnosticar precocemente e tratar a doença. O que conseguimos é evitar o seu avanço e preservar a visão do paciente.
Qual a diferença do glaucoma de ângulo aberto e o glaucoma de ângulo fechado?
R: O glaucoma de ângulo aberto é o mais comum e tem progressão lenta e silenciosa. O “ângulo” é o espaço por onde o humor aquoso é drenado, entre a íris e a córnea. No glaucoma de ângulo aberto, esse ângulo está aberto, mas a drenagem é ineficiente. Já no glaucoma de ângulo fechado, esse espaço se estreita ou se fecha subitamente, bloqueando a drenagem e causando um aumento rápido da pressão intraocular, causando dor. Esse tipo é uma emergência oftalmológica e precisa de atendimento imediato.
Ambos causam a cegueira, mas enquanto o glaucoma de ângulo aberto é sorrateiro e rouba a visão ao longo dos anos, o de ângulo fechado é mais dramático e pode cegar rapidamente se não tratado.
Texto e Imagem: Mariângela Recchia