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Celebração da vida
Crianças e adolescente que venceram o câncer foram homenageados na Festa da Vitória
Na corrida pela vida, atualmente, 80% das crianças e adolescentes que fazem tratamento contra o câncer são vencedores. E para que eles possam subir ou pódio ao final dessa maratona, a Unidade de Hematologia e Oncologia realizou hoje a Festa da Vitória. Estiveram presente 15, dos 42 pacientes que concluíram o tratamento entre 2022 e 2023 no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM). A data escolhida para a festa foi proposital, pois 23 de novembro é o Dia Nacional de Combate ao Câncer Infantil, criado para conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico precoce.
A Turma do Ique – espaço de convivência das crianças que fazem tratamento no hospital universitário – foi o palco da comemoração, que teve direito a show de mágica, música ao vivo com uma das homenageadas do evento - Ana Luiza Abreu, 21 anos - soltura de balões e almoço comemorativo.
Na torcida por essa turma, estavam os familiares e, claro, a equipe médica e assistencial que, durante o período de internação, lutou lado a lado para que todos cruzassem a linha de chegada. Os pacientes foram chamados, um a um, e receberam uma medalha com a frase: “Sou um vencedor”. Sob aplausos, abraços e lágrimas de alegria, todos comemoraram.
Ana Karolina da Silva Schneider, 13 anos, estava acompanhada da mãe, a dona de casa Rosicléia da Silva, 36, e dos familiares. Em 2020 – durante a Pandemia – ela teve o diagnóstico de leucemia e começou o tratamento. A estudante de Cerro Largo apresentava sintomas como cansaço, hematomas na pele, sangramento nasal e dor de cabeça. A doença voltou no ano passado, quando precisou fazer transplante e medula. Na Festa da Vitória, curada, celebrou o fim de uma etapa.
- Ficar internada é ruim, mas ao mesmo tempo a gente encontra amigos, pessoas que estão do nosso lado. Quando eu recebi a notícia da alta, fiquei muito feliz, saber que eu podia comer as coisas que eu queria comer, ficar em casa com meus irmãos, tia, meus primos – relembra Ana.
- Ao longo desses três anos, nós fizemos muitos amigos, uma segunda família. Eu só tenho a agradecer a equipe. – completou a mãe.
- Todos os dias são de luta para as crianças com câncer. Nos últimos 30 anos, a taxa de cura aumentou significativamente. Até os anos 80, era em torno de 50%, 60%. Agora, em torno de 80%. Isso depende muito do diagnóstico precoce, hospitais especializados e equipes capacitadas. É para isso que estamos trabalhando. – afirma o médico Gustavo Fischer Brandão, chefe da Unidade.
Após o cerimonial do evento, todos foram convidados para a soltura de balões brancos, em frente ao prédio do Ique, para homenagear aqueles pacientes que seguem na luta pela vida e aqueles que, infelizmente, não conseguiram alcançar a cura.
Outra paciente que recebeu a medalha e subiu ao pódio da vitória pela vida foi Kauany Martins. Confira a entrevista completa com ela.
Kauany Cassiano Martins, 16 anos – Santo Ângelo.
Com diagnóstico de leucemia, iniciou o tratamento em outubro de 2020 e concluiu em 2022.
Como foi o período de internação hospitalar?
Eu internava bastante porque meu tratamento era um pouco mais forte. Tem três graus da doença: baixo risco, médio e alto. O meu era alto e baixava bastante a imunidade. Tinha épocas que eu ficava seis dias internada – fazendo quimio direto – ia para casa, ficava três dias e internava de novo para recuperar.
O que foi mais difícil nesse período?
Eu estava entrando na adolescência. Durante a quimio, eu ficava enjoada e, é óbvio, que ninguém quer passar por isso. Mas, para mim, a parte mais difícil foi – como eu tinha 13 anos – ver meus amigos vivendo, saindo, jogando, indo no cinema... e eu estava ali olhando o mundo pela janela do hospital. Eu prometi para mim mesmo que depois eu ia viver muito mais do que eu vivi até ali. Na época eu tinha uma irmãzinha de 8 anos (crianças com menos de 12 anos não tem acesso ao hospital) e eu fiquei longe dela por quase 40 dias. Ela vinha, trazia cartas e eu olhava ela pela janela. Aquilo era algo que me corroía por dentro.
Também me doía ver a situação dos meus pais. A doença era algo que era meu, que aconteceu comigo e eu vi meus pais sofrendo com isso. O tratamento em si não é nada agradável, mas para mim a parte psicológica foi a mais difícil.
Quando você recebeu a notícia da alta, qual foi a reação?
No dia a gente não sabe se corre, grita, chora. A gente dá risada para o vento. No início parece que vai demorar séculos para chegar ao fim. Depois, olhando para trás, percebi que passou muito rápido e fica uma certa saudade. Não do tratamento – ninguém quer estar ali. Mas porque, dentro do hospital, a gente conhece muitas pessoas que estão passando pelo que a gente passou. E quem não passa, não consegue nos entender. Então, tu encontra ali uma família. Às pessoas tem aquela visão que o hospital é tristeza e sofrimento. Tem também, só que a gente vai atrás da cura lá e a gente consegui sim ser feliz lá. Ter momentos de risadas. Cada dia era uma vitória diferente.
É incrível o pós-alta, porque tu aprende a valorizar cada momento, principalmente com a família. Não dá para dar importância para “os grandes problemas” do dia a dia. A vida é muito mais do que a gente pode ver.
O que você tem a dizer para essa equipe que te acolheu?
Só tenho a agradecer. Gratidão eterna. Antes de fazer o tratamento, eu jogava futebol. Meu sonho era jogar profissionalmente. Quando eu cheguei, a primeira coisa que eu perguntei para o médico foi se eu poderia voltar a jogar. Porém, eu tomei muito corticoide e desenvolvi um problema no joelho que não me permite jogar. Talvez um dia eu vá jogar.
No final do ano passado, eu vim visitar o hospital. Ali eu tive certeza do que eu quero: é Medicina, porque eu quero fazer pelos outros o que eles fizeram para mim. Os médicos são incríveis. Eles nos acolhem, nos acalmam e nos dão certeza de que tudo vai passar. Eu só tenho a agradecer a eles, os enfermeiros, os residentes.