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MARÇO AMARELO
Especialista do HE-UFPel fala sobre endometriose, diagnóstico, tratamento e prevenção
Pelotas (RS) - O Março Amarelo, campanha dedicada à conscientização sobre a endometriose, chama atenção para uma doença ginecológica que afeta milhões de mulheres e que, muitas vezes, demora anos para ser diagnosticada. Segundo dados do Ministério da Saúde, estima-se que cerca de oito milhões de brasileiras convivam com a condição, que pode causar dor intensa e comprometer a qualidade de vida.
Para esclarecer dúvidas sobre sintomas, diagnóstico e tratamento, a médica ginecologista e obstetra Glaucia Alves de Carvalho, do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel/Ebserh), explica os principais aspectos da doença e reforça a importância de buscar avaliação médica diante de sinais persistentes.
O que é a endometriose e como ela se desenvolve no organismo?
A endometriose é uma doença ginecológica crônica em que um tecido semelhante ao que reveste o interior do útero, chamado endométrio, passa a crescer fora do útero. Esse tecido pode se implantar em órgãos da pelve, como ovários, trompas, intestino ou bexiga. Assim como o endométrio normal, ele responde aos hormônios do ciclo menstrual, podendo inflamar e causar dor.
Quais são os principais sintomas e sinais de alerta?
Os sintomas mais comuns são cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica, dor durante a relação sexual, dor ao evacuar ou urinar durante o período menstrual e dificuldade para engravidar. Também podem ocorrer fadiga, distensão abdominal e alterações intestinais. A intensidade dos sintomas pode variar bastante entre as mulheres.
Toda cólica menstrual intensa pode ser considerada normal?
Não. Cólicas leves a moderadas podem ocorrer durante a menstruação, mas dores muito intensas, que impedem atividades do dia a dia, como trabalhar ou estudar, precisam ser investigadas. Esse tipo de dor pode ser um sinal de endometriose ou de outras condições ginecológicas.
Por que o diagnóstico da endometriose costuma demorar anos?
Segundo a médica, muitas mulheres acabam normalizando a dor menstrual intensa. Além disso, a doença pode apresentar manifestações diferentes em cada paciente, o que dificulta o reconhecimento. Em muitos casos, as pacientes convivem com os sintomas por anos antes de procurar atendimento especializado.
Quais exames são fundamentais para confirmar a doença?
A avaliação começa com uma consulta ginecológica detalhada. Exames de imagem, como ultrassonografia pélvica com preparo intestinal e ressonância magnética, podem ajudar a identificar lesões de endometriose. Em alguns casos, a confirmação definitiva ocorre durante cirurgia laparoscópica.
A endometriose pode afetar outros órgãos além do útero?
Sim. A doença pode atingir ovários, trompas, intestino e bexiga e, em situações mais raras, outras regiões do corpo. Quando isso acontece, podem surgir sintomas intestinais ou urinários associados ao período menstrual.
Existe relação entre endometriose e infertilidade?
Sim. A endometriose pode dificultar a gravidez porque pode alterar a anatomia da pelve, provocar inflamação ou afetar o funcionamento dos ovários e das trompas. Ainda assim, muitas mulheres com a doença conseguem engravidar naturalmente ou com o auxílio de tratamentos de fertilidade.
A doença tem graus ou estágios diferentes?
Sim. A endometriose é classificada em diferentes estágios, que variam de leve a grave, conforme a quantidade, profundidade e localização das lesões. No entanto, a intensidade da dor nem sempre está diretamente relacionada ao estágio da doença.
Quais são as opções de tratamento disponíveis?
O tratamento depende da idade da paciente, da intensidade dos sintomas e do desejo de engravidar. Pode incluir medicamentos hormonais, analgésicos para controle da dor, mudanças no estilo de vida e acompanhamento médico. Em alguns casos, a cirurgia pode ser indicada.
Em quais situações a cirurgia é recomendada?
A cirurgia pode ser necessária quando a dor não melhora com tratamento clínico, quando há comprometimento de órgãos como intestino ou bexiga ou quando a doença está associada à infertilidade. O procedimento mais utilizado é a laparoscopia, uma técnica minimamente invasiva.
A doença pode impactar a saúde mental das pacientes?
Sim. A dor crônica, as limitações nas atividades diárias e as dificuldades relacionadas à fertilidade podem afetar o bem-estar emocional das pacientes. Por isso, o acompanhamento psicológico e o apoio familiar podem ser importantes durante o tratamento.
Que orientação você daria às mulheres que convivem com dores intensas e ainda não buscaram atendimento?
A principal orientação é não normalizar a dor intensa. Se as cólicas ou dores pélvicas estão interferindo na qualidade de vida, é fundamental procurar avaliação médica. O diagnóstico precoce pode ajudar a controlar melhor a doença e evitar complicações.
Como as mulheres podem buscar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS)?
O acesso se dá através das Unidades Básicas de Saúde, onde as pacientes serão encaminhadas para o atendimento especializado nos Ambulatórios de Cirurgia Ginecológica.
Sobre a Ebserh
O HE-UFPel faz parte da Rede Ebserh desde 2014. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.