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ENTREVISTA
Ex-residente do HC está na lista dos cientistas mais influentes do mundo
Foto: acervo do entrevistado
O cardiologista Álvaro Avezum Júnior, graduado em Medicina pela UFTM em 1985, foi classificado pela agência multinacional Thomson Reuters, em documento publicado no início de 2016, um dos quatro cientistas brasileiros com produção acadêmica de maior impacto no mundo, em uma lista de 3.216 pesquisadores.
É a terceira vez que a agência publica o relatório “As mentes científicas mais influentes do mundo”. As versões anteriores são de 2001 e 2014. A lista é baseada na quantidade de trabalhos altamente citados, publicados nos últimos 11 anos, em 21 áreas do conhecimento. O relatório organiza os nomes em ordem alfabética, sem revelar o número de publicações ou citações associado a cada um deles. Contudo, na plataforma Web of Science, Avezum Júnior aparece com 24.311 citações em textos científicos, além de 10.540 citações na plataforma SciELO, 13.880 na Scopus e 17.445 em outras plataformas.
“Essa menção da Thomson Reuters reflete o esforço de todos os colaboradores em nosso país. Não é o pesquisador isoladamente, mas a colaboração cardiovascular brasileira que deve ser parabenizada. Devido ao impacto clínico, essas pesquisas são publicadas em periódicos relevantes, sendo consequentemente citadas por diversos outros pesquisadores. Por exemplo, o Estudo InterHeart, que definiu os fatores de risco associados ao infarto do miocárdio no mundo, demonstrando que 90% dos casos são passíveis de prevenção por meio de intervenções em fatores de risco modificáveis, foi citado atualmente 3.857 vezes. Prosseguimos com projetos de grande impacto e, certamente, nosso país contribuirá cada vez mais na cena científica global”, comenta Avezum Júnior.
Álvaro Avezum Júnior, de 53 anos, nasceu em São Joaquim da Barra/SP. Graduou-se em Medicina na UFTM em 1985. Dois anos depois, concluiu residência em Clínica Médica no HC-UFTM e inicou residência no Instituto Dante Pazzanese, em São Paulo, tendo concluído Cardiologia e Emergências e Terapia Intensiva em 1990. Possui especialização em Cardiologia, Epidemiologia Clínica e Bioestatística pela Universidade McMaster, Canadá (1993-1995). É Doutor em Cardiologia pela Universidade de São Paulo (2002) e professor no Doutorado em Medicina/Tecnologia e Intervenção em Cardiologia da USP.
Há quase 30 anos, trabalha no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Dentre sua produção bibliográfica estão 301 artigos em revistas especializadas, 324 trabalhos em anais de eventos nacionais e internacionais, além de 30 capítulos de livros. Entrevistamos o pesquisador a respeito de sua relação com Uberaba, lembranças dos tempos de faculdade, a repercussão de seus estudos e o cenário da pesquisa em saúde no Brasil.
• Como é sua relação com Uberaba?
Avezum Jr.: Começou antes mesmo de iniciar o curso de Medicina. Meus pais visitavam com frequência a cidade, participando das reuniões no Grupo Espírita da Prece, junto do saudoso Chico Xavier. Eu, com seis a oito anos de idade, também vinha. Tenho muita ligação com a cidade, inclusive nos dias atuais, pois uma de minhas irmãs é médica em Uberaba, permitindo que continuemos visitando a cidade. Sinto-me reabastecido e revigorado quando volto a Uberaba.
• Como foram os tempos de formação universitária na UFTM e a atuação como residente no HC? Alguma lembrança daquela época se destaca?
Avezum Jr.: Iniciei o curso de Medicina em 1980, graduando-me em dezembro de 1985 e sendo residente de Clínica Médica em 1986. Tenho somente boas lembranças. Primeiro, minha turma da faculdade, com a qual mantenho contato até hoje. Fizemos reunião de 30 anos de graduação em outubro de 2015, a qual foi sinalizadora da necessidade de prosseguirmos juntos. Em segundo lugar, a oportunidade de ter o professor Lineu Miziara como mentor, na opção pela Cardiologia e com exemplos de vida que até hoje funcionam como base para importantes decisões em minha vida. Cheguei ao Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia em 1987 para a Residência em Cardiologia com conhecimento sólido, na teoria e na prática. Em terceiro, nossa escola, naquele tempo ainda chamada Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, proporcionou-me excelente treinamento em Propedêutica e em Clínica Médica. Destaco o professor Edson Luis Fernandes, com quem aprendi como o raciocínio clínico leva apropriadamente à decisão clínica, ou seja, as cinco dimensões da decisão clínica: história clínica, exame físico, exames complementares, o tempo e a intuição clínica.
• A que o senhor atribui a alta frequência de citações de seus estudos em artigos de outros pesquisadores?
Avezum Jr.: Boas questões científicas, respondidas de modo eficiente e confiável, podem produzir resultados com aplicabilidade populacional, reduzindo o ônus da doença cardiovascular no Brasil e no mundo. Trabalhamos em rede desde 1989 e com inserção internacional acadêmica intensa. Atribuo a repercussão, de maneira complementar, a nossa rede de pesquisa em medicina cardiovascular, que compreende, no Brasil, 300 hospitais e 900 colaboradores - médicos e profissionais de saúde em pesquisa -, com forte vínculo com a Universidade McMaster, do Canadá.
• Como era o campo da pesquisa em cardiologia no Brasil no início da sua carreira? Muita coisa mudou? A ênfase está nas pesquisas clínicas?
Avezum Jr.: Quando estava no quarto ano de residência em Cardiologia, tivemos contato com estudos clínicos amplos e simples, oriundos de Oxford e de Milão. Com base nisso, o Brasil iniciou, em colaboração com cinco outros países sul americanos, o estudo Emeras, no qual 80 hospitais, distribuídos em 16 estados brasileiros, colaboraram pioneiramente, coordenados pelo Instituto Dante Pazzanese. Nesse ambiente, teve início meu interesse em conduzir pesquisas na área cardiovascular, com estratégia multicêntrica e colaborativa. Após três anos, viajei para o Canadá e trabalhei no Population Health Research Institute, com o professor Salim Yusuf, seguramente o cardiologista de maior nome na atualidade, presidente da Federação Mundial de Cardiologia. Durante os últimos 26 anos, pesquisamos síndromes coronárias agudas, insuficiência cardíaca, prevenção cardiovascular, obesidade, diabetes, intervenções coronárias, cirurgia cardíaca e arritmias. Julgo necessária a prática clínica para o pesquisador, melhoro como pesquisador quando tenho contato com pacientes e melhoro minha prática clínica quando conduzo pesquisa. Foi importante introduzir no Brasil a medicina baseada em evidências, em 1995. Essa prática permite condutas mais apropriadas para os pacientes. Em medicina cardiovascular, precisamos conduzir mais pesquisas epidemiológicas para que novas hipóteses possam ser geradas e estudos randomizados possam ser conduzidos. O desafio atual é implementar os resultados de pesquisas já realizadas. Existe uma lacuna entre o conhecimento e prática clínica. Nosso foco, durante os anos recentes, tem sido a prevenção e a promoção da saúde cardiovascular. Para tanto, iniciamos no Brasil o Programa 25X25, da Federação Mundial de Cardiologia, cujo objetivo envolve a redução da mortalidade por doença cardiovascular em 25% até 2025. Acreditamos que a inovação deva sempre envolver benefícios populacionais tangíveis.
• Quais as principais dificuldades para a realização da pesquisa em cardiologia no Brasil?
Avezum Jr.: Em países desenvolvidos, o ambiente para a pesquisa é mais favorável. Isso não significa que não possamos conduzir pesquisas relevantes em nosso país. A vocação é fundamental e treinamento formal é imprescindível. Instituições acadêmicas, universitárias ou não, devem ter cursos formais de pesquisa clínica e epidemiológica e buscar questões relevantes a serem respondidas, cujos resultados possam ter impacto clínico populacional. Na pesquisa existe um "continuum" que abrange a pesquisa mecanística, epidemiológica, clínica e implementação na prática clínica. Todas essas etapas são necessárias. É crucial que estejam conectadas. Torna-se imprescindível, na atualidade, a confluência dos saberes para realização de pesquisa de maior impacto: dentro da pesquisa em Medicina deve haver a cooperação de outras áreas.