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JANEIRO BRANCO
IPPMG lança luz sobre a saúde mental de crianças em tratamento prolongado
Na sala de atendimento da Psicologia do IPPMG, acompanhamento atende às crianças e aos familiares.
Rio de Janeiro (RJ) - Ao longo do primeiro mês do ano, a rede que compõe o Sistema Único de Saúde (SUS) se mobiliza em torno do Janeiro Branco, campanha nacional de conscientização sobre a saúde mental. No Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG), a iniciativa ganha contornos ainda mais sensíveis ao lançar luz sobre o universo psíquico de crianças e de adolescentes em tratamento de doenças graves e crônicas, que exigem sucessivas hospitalizações e, muitas vezes, não têm previsão de alta definitiva. “São acompanhamentos muito longos, com doenças às vezes graves e raras, que as pessoas têm dificuldade até de entender exatamente o que são”, resume o psiquiatra Lucas Hosken, integrante da equipe de Psiquiatria do IPPMG.
No hospital pediátrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), gerido pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), as equipes de Psicologia e a Psiquiatra atuam de maneira articulada e complementar. “A Psicologia trabalha a compreensão e a aceitação da doença com junto às crianças e às famílias, enquanto a Psiquiatria contribui com olhar médico. Embora não sejamos especialistas em todas as patologias tratadas, todos os psiquiatras são médicos, e por entendemos melhor o processo da doença, muitas vezes conseguimos facilitar essa ponte com pacientes e familiares”, explica o Hosken.
Segundo o médico, o ambulatório de Psiquiatria do IPPMG, relativamente recente — inaugurado em 2021 —, atende principalmente crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, como o autismo e o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), anteriormente acompanhadas exclusivamente pelo ambulatório de Neurologia.
Além da prescrição
Cabe à Psiquiatria a avaliação e, quando necessário, a indicação de medicações específicas voltadas à saúde mental. “A medicação é apenas uma das possibilidades terapêuticas e, muitas vezes, nem sequer é a principal forma de cuidado de que a criança vai precisar”, explica o psiquiatra do hospital, sublinhando que cada caso é avaliado individualmente e de forma integrada a outras estratégias de atenção em saúde mental.
Ele adverte ainda que é preciso cuidado para não criar a expectativa de que o remédio represente a eliminação total do sofrimento, já que parte dele é “inerente à condição humana e ao adoecimento, embora a medicação possa ser um recurso importante para organizar e aliviar crises de ansiedade ou quadros depressivos, comuns em crianças com doenças crônicas.”
Hospitalização e subjetividade
Já as demandas emocionais de crianças e adolescentes submetidos a tratamentos severos, tanto em ambulatórios quanto durante internações, estão na órbita dos cuidados da equipe de Psicologia. Nessa esfera, as principais preocupações dos profissionais dizem respeito ao impacto do adoecimento, da hospitalização prolongada e das rupturas nos vínculos sociais impostas por esses processos ao desenvolvimento infantil.
“Em casos de internações longas, pode ocorrer um processo de dependência do ambiente hospitalar, no qual a instituição passa a ocupar um lugar central no cotidiano da criança ou do adolescente. Isso pode interferir na autonomia e na elaboração da experiência de adoecimento, ou seja, na capacidade de compreender, simbolizar e integrar emocionalmente a vivência da doença”, explica a coordenadora da Psicologia do IPPMG, Geisa Lima.
A experiência do adoecimento na infância vai muito além do sofrimento físico. Entre os principais desafios observados pela equipe de Psicologia do hospital universitário estão a medicalização contínua, as mudanças na imagem corporal decorrentes da doença ou do tratamento, o afastamento da escola, o isolamento social provocado pela ruptura da rotina e pelo distanciamento de amigos, além de situações de bullying (assédio preconceituoso).
“Destacam-se ainda o medo e a ansiedade diante da dor, dos procedimentos invasivos e da imprevisibilidade do tratamento; as dificuldades na elaboração do adoecimento, que podem gerar confusão, fantasias de culpa ou incompreensão sobre a doença; e as alterações na autoimagem e na identidade, especialmente quando há limitações físicas, uso de dispositivos médicos ou internações prolongadas”, enumera a profissional de saúde.
Para exemplificar, um perfil recorrente entre as crianças atendidas pela equipe de Psicologia do IPPMG é o de pacientes com lúpus (Lúpus Eritematoso Sistêmico – LES), doença autoimune crônica, sistêmica e inflamatória que, além do cansaço extremo, pode causar dores articulares intensas e alterações visuais significativas, como perda ou ganho de peso, inchaços, manchas na pele e queda de cabelo.
Tanto os atendimentos da Psiquiatria quanto os da Psicologia no IPPMG vão além do cuidado individual da criança ou do adolescente, envolvendo pais, responsáveis e cuidadores no processo terapêutico. O trabalho é realizado de forma integrada por uma equipe multiprofissional, que busca encaminhamentos adequados à realidade de cada paciente. Além disso, sempre que necessário, há articulação com os serviços da rede do Sistema Único de Saúde no período pós-tratamento ou após a alta hospitalar.
Sobre a Ebserh
O Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG) faz parte do Complexo Hospitalar da UFRJ, gerido pela Rede Ebserh desde junho de 2024. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Elisa Andrade
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh