Revisão sistemática e estratégia de busca
COMO ELABORAR UMA REVISÃO SISTEMÁTICA?¹
FASE1: PLANEJAMENTO E PREPARAÇÃO
Como tudo na vida, planejar e preparar também são etapas importantes para a elaboração de uma revisão, seja de literatura ou sistemática. A seguir, serão apresentadas as etapas que compõem o processo de criação de uma revisão se acordo com Handbook da Cochrane (Higgins et al., 2024).
1 Definir a pergunta de pesquisa
“Quem não sabe o que pergunta, não entende o que encontra” – Immanuel Kant (adaptação)
O primeiro passo de uma pesquisa cientifica é especificar uma pergunta que seja factível de ser respondida, bem estruturada e tem um foco bem definido.
- Acrônimo FINER: O acrônimo FINER, ele mostra pontos importantes na elaboração da pergunta: se a pergunta é factível, se é interessante, se é nova, se é ética e se é relevante. Assim, reflita sobre sua pergunta.
Quadro 1 – Acronimo FINER

Fonte: Adaptado de Nogueira (2024)
- A estrutura PICO (ou PICOS, incluindo Study design) é amplamente utilizada para refinar a pergunta:
P : problema, população e paciente
I : intervenção/exposição
C : comparação/controle (ex.: placebo, outro tratamento, nenhum tratamento)
O : Outcome/Desfecho
S : Study Design (ex.: ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte)?
2 Elaborar e registrar um protocolo
- Este é um plano detalhado que descreve antecipadamente como a revisão será conduzida.
- Registrar o protocolo em plataformas como PROSPERO ou a Cochrane é uma prática essencial para evitar viés de relato e duplicação de esforços.
- O protocolo deve incluir: a pergunta PICO, estratégia de busca, critérios de elegibilidade, métodos de seleção de estudos, avaliação de risco de viés e estratégia de síntese de dados.
FASE 2: IDENTIFICAÇÃO E SELEÇÃO DA EVIDÊNCIA
3 Realizar uma busca abrangente na literatura
- O objetivo é encontrar todos os estudos relevantes, publicados e não publicados, para minimizar o viés de publicação.
- Fontes: Múltiplas bases de dados eletrônicas (ex.: PubMed/MEDLINE, Embase, Cochrane Central, Scopus, Web of Science, LILACS, PsycINFO).
- Estratégia de busca: Desenvolva uma estratégia sensível, usando termos MeSH/DeCS e palavras-chave relacionadas a cada componente do PICO, combinados com operadores booleanos (AND, OR, NOT).
- Busca complementar: Inclui a verificação de listas de referências de estudos incluídos e revisões similares, busca em registros de ensaios clínicos (ex.: ClinicalTrials.gov) e contato com especialistas da área.
4 Selecionar os estudos
- Um processo realizado, idealmente, por dois revisores de forma independente para garantir confiabilidade.
- Etapa 1: Triagem de títulos e resumos com base nos critérios de elegibilidade.
- Etapa 2: Leitura do texto completo dos estudos potencialmente relevantes.
- Ferramentas: Softwares como Rayyan, Covidence ou EndNote podem auxiliar no gerenciamento e triagem das referências.
- Resolução de conflitos: As discordâncias entre os revisores são resolvidas por consenso ou por um terceiro revisor.
- O processo de seleção é frequentemente resumido em um Diagrama de Fluxo PRISMA, que ilustra o número de estudos identificados, incluídos e excluídos, e os motivos das exclusões.
FASE 3: COLETA DE DADOS E AVALIAÇÃO DA QUALIDADE
5 Extrair os dados dos estudos
- Novamente, realizado por dois revisores de forma independente, usando um formulário padronizado pré-testado.
- Dados extraídos incluem:
a) Características do estudo (autores, ano, local, desenho, tamanho da amostra).
b) Características dos participantes (população P).
c) Detalhes da intervenção e comparação (I e C).
d) Resultados e métodos de mensuração (O).
e) Informações para avaliação do risco de viés.
6 Avaliar o risco de viés dos estudos individuais
- Avaliar a qualidade metodológica de cada estudo para entender a confiança que se pode ter em seus resultados.
- Utilizar ferramentas validadas específicas para o tipo de estudo:
- Para Ensaios Clínicos Randomizados: Ferramenta RoB 2.0 (Cochrane).
- Para Estudos Observacionais: Ferramentas ROBINS-I ou NEWCASTLE-OTTAWA.
- Essa avaliação também é feita por dois revisores de forma independente.
FASE 4: SÍNTESE E ANÁLISE DOS DADOS
7 Sintetizar e analisar os dados
- Síntese narrativa: Sumariza os achados de forma descritiva, apresentando as características e resultados dos estudos, especialmente quando uma meta-análise não é possível.
- Meta-Análise (quando apropriado e possível):
- Combinação estatística dos dados quantitativos de dois ou mais estudos para obter um resultado sumário (ex.: um efeito médio combinado).
- Os resultados são apresentados em um gráfico de floresta (forest plot).
- Avalia-se a heterogeneidade estatística entre os estudos (usando a fórmula estatística I²) para entender se os estudos são suficientemente similares para serem combinados.
FASE 5: INTERPRETAÇÃO E DIVULGAÇÃO
8 Interpretar os resultados e elaborar as conclusões
- Resumir as evidências encontradas, destacando a força das evidências (baseada na qualidade, quantidade e consistência dos estudos).
- Discutir as limitações da revisão (ex.: viés de publicação, heterogeneidade).
- Apontar as implicações para a prática e para pesquisas futuras.
9 Elaborar o relatório final
- Escrever o artigo seguindo diretrizes de relato padronizadas, como as Diretrizes PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), que garantem transparência e completude no relato.
10 Divulgar os resultados
- Publicar a revisão em periódico científico revisado por pares.
- Considerar a divulgação para o público-alvo, como profissionais de saúde, gestores ou pacientes, por meio de resumos, relatórios técnicos ou apresentações.
Seguir essas etapas de forma rigorosa garante que a revisão sistemática seja uma fonte confiável de evidência, capaz de informar decisões clínicas e políticas de saúde de alto impacto.
COMO ELABORAR UMA ESTRATÉGIA DE BUSCA PARA REVISÃO SISTEMÁTICA?
A elaboração de uma estratégia de busca robusta e reproduzível é uma das etapas mais críticas e desafiadoras de uma Revisão Sistemática. Uma busca mal construída pode levar ao viés de seleção e comprometer toda a revisão.
ETAPA 1: REFINAR A PERGUNTA E DEFINIR OS CONCEITOS-CHAVE
- O primeiro passo de uma pesquisa cientifica é especificar uma pergunta que seja factível de ser respondida, bem estruturada e tem um foco bem definido (PICO/PECO).
- Como fazer:
1 Identifique e separe os componentes principais (P, I, C, O). Em muitos casos, o "Desfecho" (O) é o componente mais importante para garantir a sensibilidade da busca.
2 Liste os conceitos-chave de cada componente. Por exemplo, para uma revisão sobre "Efeitos da meditação no estresse em adultos":
- P (População): Adultos, trabalhadores, estudantes.
- I (Intervenção): Meditação, mindfulness, atenção plena.
- O (Desfecho): Estresse, ansiedade, esgotamento psicológico.
Dica BVS: Gaste o tempo necessário para deixar sua pergunta bem estruturada. O Descritor em Ciências da Saúde (DeCS) é a ferramenta de vocabulário controlado da BVS. Use-o desde já para pensar nos termos.
ETAPA 2: LISTAR TODOS OS TERMOS POSSÍVEIS PARA CADA CONCEITO
- Crie uma lista exaustiva de sinônimos, termos relacionados, variações linguísticas e grafias para cada conceito-chave.
- Como fazer:
1 Termos livres (Texto livre): Palavras que aparecem no título, resumo ou texto completo. Inclua sinônimos, abreviações, plurais, singular e grafias alternativas (ex.: "behavior" e "behaviour").
- Exemplo para "Meditação": "meditation", "mindfulness", "zen", "yoga".
2 Termos controlados (Descritores): Identifique os descritores oficiais (como MeSH no PubMed e DeCS na BVS) para cada conceito. Estes são cruciais para aumentar a sensibilidade da busca.
- Exemplo: O descritor para Mindfulness no MeSH é Mindfulness. No DeCS, é o mesmo.
3 Consulte revisões similares, dicionários médicos e especialistas para garantir que não está faltando nenhum termo relevante.
Dica BVS: O Descritor em Ciências da Saúde (DeCS) é a ferramenta de vocabulário controlado da BVS. Use-o desde já para pensar nos termos.
ETAPA 3: ESCOLHER AS BASES DE DADOS E PLATAFORMAS
Selecione as fontes onde a busca será realizada. Nunca se limite a uma única base de dados.
- Como Fazer:
1 Bases de dados multidisciplinares: Scopus, Web of Science.
2 Bases de dados biomédicas: PubMed/MEDLINE, EMBASE, Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL).
3 Bases de dados regionais/específicas:
- BVS (Biblioteca Virtual em Saúde/Bireme): É um portal de acesso a diversas bases, incluindo:
· LILACS: Literatura científica da América Latina e Caribe.
· IBECS: Literatura científica da Espanha.
· Outras bases de dados temáticas.
4 Registros de ensaios clínicos: ClinicalTrials.gov, WHO ICTRP (para minimizar o viés de publicação).
ETAPA 4: CONSTRUIR A ESTRUTURA LÓGICA DA ESTRATÉGIA (BOOLEANOS)
- Combinar os termos listados usando os operadores booleanos.
- Como fazer:
1 OR: Use para combinar termos sinônimos ou relacionados ao MESMO CONCEITO. Isso aumenta a SENSIBILIDADE (encontrar mais artigos, incluindo alguns irrelevantes).
- Exemplo do conceito Meditação: (meditation OR mindfulness OR "mindful meditation")
2 AND: Use para combinar CONCEITOS DIFERENTES. Isso aumenta a ESPECIFICIDADE (encontrar artigos mais relevantes).
- Exemplo: (Conceito Meditação) AND (Conceito Adultos) AND (Conceito Estresse)
3 NOT: Use com extremo cuidado para excluir conceitos. Pode levar à exclusão inadvertida de estudos relevantes.
4 Estruture a busca em blocos, um para cada conceito do PICO.
ETAPA 5: APLICAR CAMPOS E FILTROS ESPECÍFICOS
Refinar a busca para tornar os resultados mais precisos.
- Como fazer:
1 Campos de busca: Restrinja a busca a campos específicos como [ti] (título), [ab] (resumo), [mh] (descritor de assunto MeSH/DeCS). Isso aumenta a precisão.
- Exemplo no PubMed: mindfulness[mh] OR meditation[tiab]
2 Truncamento (*) e Curingas (?): Use para capturar variações de uma palavra.
- Exemplo: child* encontra child, children, childhood.
3 Aspas (" "): Para busca por frases exatas.
- Exemplo: "randomized controlled trial"
4 Filtros: Aplicar filtros como "ensaio clínico", "humanos" ou "anos" pode ser útil, mas deve ser documentado e, idealmente, feito de forma sensível na estratégia principal, não apenas pela interface gráfica.
ETAPA 6: TESTAR, REFINAR E VALIDAR A ESTRATÉGIA
- A primeira versão da estratégia raramente é a ideal. É um processo iterativo.
- Como fazer:
1 Teste de sensibilidade: Execute a busca e verifique se ela encontra artigos-chave que você já conhece (de revisões preliminares). Se não encontrar, sua estratégia está fraca.
2 Análise de resultados: Examine os primeiros 50-100 resultados. Se houver muitos irrelevantes (baixa precisão), refine os termos ou use mais campos de restrição. Se parecer que está faltando algo (baixa sensibilidade), adicione mais sinônimos ou termos.
3 Validação: Se possível, peça para um bibliotecário especializado ou um segundo revisor avaliar a estratégia.
ETAPA 7: REGISTRAR E RELATAR A ESTRATÉGIA DE FORMA COMPLETA
- Documente tudo para garantir transparência e reprodutibilidade.
- Como fazer:
1 Salve a estratégia final completa de cada base de dados.
2 Inclua data da busca, bases de dados consultadas, plataforma utilizada e o número de resultados obtidos em cada uma.
3 Siga as diretrizes de relato, como o PRISMA-S (uma extensão do PRISMA para relatar buscas em literatura), que exige um relato detalhado da estratégia.
Quadro 2 – Modelo de documentação de estratégia de busca
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Exemplo prático (estilo PubMed/BVS) |
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Pergunta: A mindfulness é eficaz na redução do estresse em estudantes universitários? |
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Conceito PICO |
Termos Livres (sinônimos) |
Termos Controlados (DeCS/MeSH) |
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População |
"university students", "college students", undergraduate, graduate |
"Students"[Mesh] |
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Intervenção |
mindfulness, "mindful meditation", meditation, MBSR |
"Mindfulness"[Mesh] |
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Outcome (Desfecho) |
stress, "psychological stress", distress, anxiety |
"Stress, Psychological"[Mesh] |
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Data: 15/10/2025 |
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Base de dados |
Estratégia de busca |
Resultados |
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Pubmed/Medline |
População: #1 ("Students"[Mesh] OR "university students"[tiab] OR "college students"[tiab] OR undergraduate*[tiab] OR graduate[tiab]) AND Intervenção: #2 ("Mindfulness"[Mesh] OR mindfulness[tiab] OR meditation[tiab] OR "mindful meditation"[tiab] OR MBSR[tiab]) AND Outcome (Desfecho): #3 ("Stress, Psychological"[Mesh] OR stress[tiab] OR "psychological stress"[tiab] OR distress[tiab] OR anxiety[tiab]) #4 #1 AND #2 AND #3 |
1.190 |
|
opção em uma query única |
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(("Students"[Mesh] OR "university students"[tiab] OR "college students"[tiab] OR undergraduate*[tiab] OR graduate[tiab])) AND (("Mindfulness"[Mesh] OR mindfulness[tiab] OR meditation[tiab] OR "mindful meditation"[tiab] OR MBSR[tiab]))) AND (("Stress, Psychological"[Mesh] OR stress[tiab] OR "psychological stress"[tiab] OR distress[tiab] OR anxiety[tiab])) |
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Fonte: Elaboração da autora (2025)
Seguindo essas etapas de forma meticulosa, você construirá uma estratégia de busca que é a espinha dorsal de uma Revisão Sistemática confiável e válida.
REFERÊNCIAS
HANGZHOU DEEPSEEK ARTIFICIAL INTELLIGENCE CO., LTD., 2023. DeepSeek. Disponível em: https://deepseek-portugues.chat/. Acesso em: 14 out. 2025. Prompt: Descreva as etapas para uma revisão sistemática; detalhe as etapas de uma estratégia de buscas.
Higgins, J.P.T. et al. (ed.). Cochrane handbook for systematic reviews of interventions version 6.5 (updated August 2024). Cochrane, 2024. Disponível em: www.cochrane.org/handbook. Acesso em: 15 out. 2025.
NOGUEIRA, Vania dos Santos Nunes. Pergunta de pesquisa na área da saúde. 2025. Apresentação em Powerpoint.
Rethlefsen, M.L. et al. PRISMA-S: an extension to the PRISMA Statement for Reporting Literature Searches in Systematic Reviews. Syst Rev 10, 39 (2021). https://doi.org/10.1186/s13643-020-01542-z. Disponível em: https://systematicreviewsjournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13643-020-01542-z#citeas. Acesso em: 15 out. 2025.
Page, M.J. et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ. 2021 Mar 29;372:n71. doi: 10.1136/bmj.n71. Disponível em: https://www.bmj.com/content/372/bmj.n71. Acesso em: 15 out. 2025.
¹ Luciana Borges de Almeida
Bibliotecária Documentalista
Biblioteca Virtual do Hupes-Ufba/Ebserh
Setor de Gestão do Ensino/GEP