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HUOL-UFRN 112 ANOS
Médico contemporâneo de Onofre Lopes relembra suas experiências
Neste mês, o Hospital Universitário Onofre Lopes, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte e à Rede Hospitalar Ebserh (Huol-UFRN/Ebserh), celebra 112 anos. Em razão da data, profissionais que atuaram e atuam na instituição resolveram compartilhar suas experiências no exercício do dever. As entrevistas marcam o 112° aniversário do hospital inaugurado no dia 9 de setembro de 1909.
O 4º entrevistado é o médico e ex-professor Genibaldo Barros, cuja carreira inclui ter sido vice-governador do RN no governo Tarcísio Maia (1975 a 1979), Secretário de Saúde do RN (1971-1974), Presidente do Tribunal de Contas do Estado – TCE (1983 e 1984), Reitor da UFRN (1983-1987) e diretor do Sanatório Getúlio Vargas.
Figura histórica da Medicina potiguar, natural de Currais Novos, Genibaldo Barros acompanhou a criação da Faculdade de Medicina de Natal, sonho de Januário Cicco concretizado por Onofre Lopes. Genibaldo estava recém-chegado em Natal, após graduar-se em Salvador, em 1953.
Genibaldo Barros - “Isso foi em 1955! Havia um grupo de médicos da Bahia e de Pernambuco dedicados à criação da faculdade. E o líder desse grupo era Onofre Lopes, sucessor do Dr. Januário Cicco. A partir daí, começaram os primeiros contatos políticos. Na época, o governo era no Rio de Janeiro e Dr. Onofre precisava de muita ajuda para criar a faculdade do zero. Então, eu ajudei Onofre nesses acertos políticos, indo e vindo entre Rio de Janeiro/Natal, para resolver os assuntos no Ministério da Educação. Onofre passou a me usar numa espécie de despachante dos assuntos oficiais e burocráticos. Para assuntos políticos, eu fui como um braço direito de Dr. Onofre Lopes. Nessas alturas, a faculdade já estava mais ou menos consolidada, em condições de funcionar. ”
Após ajudar Onofre nesta missão, Genibaldo também morou no hospital durante quatro anos e acompanhou de perto as dificuldades financeiras que a instituição passava. A solução encontrada para auxiliar na renda do hospital vinha do aluguel de apartamentos localizados onde é o prédio Administrativo do Huol hoje:
Genibaldo Barros - “No primeiro andar, moravam as freiras. No segundo andar, haviam quatro apartamentos e um salão grande para reuniões. No terceiro andar, três apartamentos e um salão menor. O hospital passou a alugar os apartamentos a transeuntes que faziam pouso das companhias aéreas. Por vezes, empresários passavam por aqui também. Nesta época, Onofre criou um apartamento para colocar os médicos plantonistas do hospital. Eu não tinha família aqui em Natal e ao invés de morar em um hotel qualquer, resolvi perguntar a Dr. Onofre: "você tem aquela hospedagem no hospital, quanto que o senhor cobra para passar um mês?". E ele disse: "bom, você prestou grandes serviços no nascimento dessa faculdade, cuidando dos assuntos administrativos no Rio de Janeiro. Então, você vai fazer o seguinte: você vai começar a trabalhar aqui no hospital como plantonista e vai morar no hospital”. ”
Genibaldo lembra com muito carinho sua experiência de camaradagem com demais colegas de profissão e de toda história passada no Huol:
Genibaldo Barros - “Cada um dos médicos plantonistas que trabalhava no hospital e que eram solteiros também, morava nas pensões do hospital. A amizade que havia entre todos os plantonistas é algo que lembro com muito carinho – isso foi muito importante para o crescimento do hospital. Passei a morar aqui e vivenciei nascer uma faculdade de Medicina. Tive a sorte de morar neste hospital no período entre 1956 a 1960 como uma contribuição concedida por Dr. Onofre Lopes. Depois casei e constituí família. Hoje eu sou uma pessoa feliz, agradeço a Deus por estar aqui contando essa história a você.”
O Huol está completando 112 anos de referência para a saúde do RN. Qual é o seu sentimento por ter feito parte dessa construção?
Genibaldo Barros – “Eu sou um homem de muita religiosidade, foi uma graça de Deus. Perante Deus, perante esta capela. Antes de vir dar essa entrevista, passei na capela, ajoelhei-me e me reencontrei com Deus, fiz uma avaliação da minha vida e agradeci por tudo. Inclusive, a capela era exatamente igual ao que me lembro quando morei neste hospital. Lembrei de muitas coisas que se passaram, às vezes, situações difíceis de aspecto clínico que nós como médicos não podíamos resolver. Quando entro neste hospital, sinto-me acolhido porque tenho certeza eu e todos os meus companheiros que trabalharam aqui, fizeram tudo com muito amor. Como médico, tenho muita satisfação em retornar a este hospital e compartilhar um pouco da minha história. Quero muito bem a esta instituição, me emociono quando lembro das memórias vividas aqui. ”
A história do Huol é marcada pela atuação dos seus colaboradores. Qual é a lembrança/história que mais marcou na sua vivência no Huol?
Genibaldo Barros – “Tem uma história que me abalou emocionalmente em termos de assistência médica. Quando eu lembro do sofrimento desse hospital, há uma cena que aparece. Havia uma sociedade que existe ainda hoje, a Associação Médica do RN. Eles convidaram um professor da Bahia, Estácio de Lima, para fazer uma conferência aqui em Natal. Então, toda classe médica em Natal estava reunida. No momento que a palestra estava por iniciar, chega uma notícia de um desastre social. Havia um serviço de emergência chamado Samdu – Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência. Em particular, neste serviço trabalhavam um médico plantonista e um médico diretor que tinham conflitos no relacionamento. Então, estávamos todos reunidos, quando chega a notícia de que um médico teve uma desavença com o diretor: Dr. Abelardo Melo foi agredido pelo plantonista na casa dele, atirou no médico diretor e na esposa dele. Essa história causou um rebuliço grande na cidade. Todo o grupo de médicos que estava na conferência veio correndo para o hospital. Só tinham duas salas de cirurgia. O Dr. José Tavares que era o cirurgião mais habilidoso operando o médico diretor e Dr. Onofre Lopes operando a esposa dele. O resultado da operação foi que o Abelardo faleceu e a esposa sobreviveu. Foi um episódio muito dramático e que me marcou muito nos aspectos clínicos da assistência no hospital.”
Quer fazer parte desta série de entrevistas? Conte sua história no Huol: encaminhe e-mail para comunicacao.huol@ebserh.gov.br