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REPORTAGEM
A física médica entre nós: sabemos o suficiente?
Basta uma pesquisa na internet para perceber que diversas reportagens jornalísticas dão conta da seguinte indagação: o que é um profissional da física médica? De Wilhelm Röntgen a Marie Curie, a história da física médica está cercada de prêmios Nobel e muitos desafios. Não está bem claro por que as pessoas sabem tão pouco sobre essa área; no entanto, desde o início do século XX, a carreira da física médica tem estimulado profundas mudanças tanto na medicina diagnóstica como na terapêutica.
Durante a Primeira Guerra Mundial, o pioneirismo científico, no sentido mais literal da expressão, deu os seus primeiros passos para a criação de uma ciência que mesclaria a física e a medicina. De lá para cá, com a convicção cada vez maior de que a radiação pode ser usada para vários fins, os físicos médicos ajudaram a salvar a distância entre as necessidades clínicas e a tecnologia disponível.
Na atualidade, o apoio clínico, a assistência na adoção de novas tecnologias e a segurança do paciente converteram-se em importantes aspectos de um físico médico. Pode-se, na verdade, dar especial ênfase ao tema das tecnologias, cada vez mais sofisticadas e com complexos sistemas computadorizados de imagem e de administração de tratamento.
Foto: Perseu de Paula.
No Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU-UFS), vinculado à Rede Ebserh, os profissionais que atuam na área da física médica entendem que a formação, a análise de riscos e o controle da qualidade representam aspectos importantes do seu trabalho. O residente do programa multiprofissional em física médica, Perseu de Paula, ressalta que o físico médico é comumente relacionado ao exame de raio-X. “Quando falamos de raio-X, por exemplo, fazemos referência a uma coisa que não vemos e não sentimos, o que não significa que não seja nocivo. O físico médico faz o cálculo de blindagem e o levantamento radiométrico para ver se não está escapando radiação do local do exame. Assim, garantimos a segurança de todos os envolvidos no processo”, explica.
No HU-UFS/Ebserh, dois físicos médicos são responsáveis pelo trabalho: Cassio Ferreira e Marcela Estacio. O hospital-escola mantém um programa de estágio, para receber estudantes da graduação, e um programa de residência multiprofissional em radiodiagnóstico desde 2020, o único nessa especialidade no Norte-Nordeste do Brasil. “No país inteiro, temos apenas 11 vagas para residência em radiodiagnóstico, ou diagnóstico por imagem, das quais duas estão no HU-UFS/Ebserh. As outras nove estão concentradas no Sul e no Sudeste. Ajudamos a melhorar a entrega de profissionais qualificados para um mercado que sente a falta de físicos médicos especialistas nessa área”, destaca Cassio Ferreira. O curso de graduação da UFS também é o único do Nordeste em Física Médica, criado em 2001. No Brasil, a Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto foi a primeira, em 1999, a ter um bacharelado em Física Médica.
Hoje em dia, as características principais de um físico médico são a inovação, o pensamento crítico e a paixão pela excelência, com enfoque no paciente. Há, portanto, uma necessidade de essência humana no manejo de qualquer tecnologia em qualquer tempo. O estudante de Física Médica da USP de Ribeirão Preto e estagiário no HU-UFS/Ebserh, Samuel Cardeira, conta que já estagiou em outras áreas da carreira e veio a Aracaju para conhecer o cotidiano do radiodiagnóstico. “Um físico médico pode desempenhar diversos papéis. Na prática clínica, pode formar parte da equipe de especialistas que garante que os pacientes sejam tratados e diagnosticados de forma segura. Na academia, pode desenvolver um papel de pesquisa para a aplicação cada vez mais intensa da física na medicina”, resume.
Foto: Perseu de Paula.
Perseu de Paula lembra, por outro lado, o que um físico médico não faz – e que muitas vezes permeia o imaginário das pessoas. “Um físico médico não opera o equipamento na hora do exame; essa função é do técnico em radiologia. O físico médico não lauda o resultado do exame; quem faz isso é o médico radiologista”, aponta o residente.
Um olhar crítico acerca dos últimos 30 anos, especialmente no Brasil, traz uma possível explicação para o cenário de confusão e desconhecimento que envolve a física médica: antes da formação dos primeiros físicos médicos, o trabalho era desenvolvido apenas por bacharéis em Física ou até mesmo por engenheiros. A falta de delimitação e regulamentação para a profissão perdura até hoje, já que os físicos médicos não têm conselho de classe e não há legislação específica para a área. A Lei Federal nº 13.691, de 10 de julho de 2018, sancionada e promulgada na época do governo Temer, é tímida demais para resolver a questão. Enquanto os movimentos políticos não chegam, a melhor estratégia se encaixa na disseminação correta e oportuna de informações sobre a profissão.
Afinal, será que sabemos o suficiente? Se você se interessou pelo assunto, não deixe de acompanhar a série de vídeos que o HU-UFS/Ebserh lançou no Instagram (@hu_ufs). Em cada episódio, vamos contar um pouco do dia a dia da atuação do físico médico no hospital e da equipe multiprofissional de que faz parte.
Sobre a Rede Ebserh
O HU-UFS faz parte da Rede Ebserh desde outubro de 2013. Estatal vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) foi criada em 2011 e administra 40 hospitais universitários federais. As suas atividades são apoiadas e impulsionadas por meio de uma gestão de excelência.
Vinculadas a universidades federais, essas unidades hospitalares têm características específicas: atendem a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), e, principalmente, apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas. Devido a essa natureza educacional, os hospitais universitários são campos de formação de profissionais de saúde. Com isso, a Rede Ebserh/MEC atua de forma complementar ao SUS e não é responsável pela totalidade dos atendimentos de saúde do país, mas se destaca pela excelência e vocação nos procedimentos de média e alta complexidades.
Por Luís Fernando Lourenço