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JANEIRO BRANCO
“Saúde não é ausência de doença”
Idealizada por um grupo de psicólogos de Minas Gerais, a campanha janeiro branco teve a sua primeira edição em 2014. É um mês dedicado à saúde mental e emocional. O psicólogo Jakson Gama, do Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU-UFS), filial da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), lembra que janeiro é o mês em que, geralmente, formalizam-se os desejos para o ano que começa e se marcam metas para os outros onze meses. Para que isso aconteça de maneira saudável, Jakson fala da importância do equilíbrio e do cuidado consigo mesmo e com os que estão ao redor.
HU-UFS-EBSERH – Por que é importante falar do janeiro branco em plena pandemia de covid-19?
Jakson Gama – Temos o costume de afirmar que estamos bem organicamente como se isso fosse o bastante. Há muitos suicidas que estão bem do ponto de vista orgânico. Por isso, a saúde deve ser tratada como um todo indivisível, inclusive relacionada às relações que estabelecemos com as pessoas. O ano que passou foi um grande exemplo disso. Na assistência direta ao paciente, tivemos de entender as reações normais em tempos anormais. Na pandemia, o medo foi tido, muitas vezes, como uma reação normal. Isso se somou à suspensão de atendimentos presenciais e a necessidade de migrar a assistência para o online.
HU-UFS-EBSERH – E como foi essa migração?
Jakson – No atendimento psicológico online, é difícil observar postura e fala, por exemplo. Tivemos de nos adaptar à falta de alguns elementos que temos no presencial e que nos permitem avaliar melhor o paciente.
HU-UFS-EBSERH – Estamos falando de que tipo de paciente?
Jakson – Estudos científicos recentes começam a demonstrar que, durante a pandemia, cresceram a depressão, a ansiedade e o alcoolismo. Os transtornos obsessivos compulsivos também afloraram mais. E não podemos nos esquecer do trabalhador.
HU-UFS-EBSERH – Da saúde mental do trabalhador?
Jakson – Sim. Temos de falar dos assédios e de como isso pode transpor o ambiente organizacional e chegar até a casa da pessoa. Por vezes, no ano passado, realizamos momentos de descompressão com os colaboradores.
HU-UFS-EBSERH – O que, na prática, significa um momento de descompressão?
Jakson – Essa ideia de descomprimir tem a ver com tirar um conteúdo preso dentro de você, que você não fala para ninguém, e finalmente poder trazê-lo à tona. Falar das mudanças por causa da pandemia, das relações familiares. Trata-se de abrir um espaço para escutar o outro, algo que aprendemos num curso de pronto socorro psicológico, que não é voltado só para psicólogos. O que eu faço numa situação em que uma pessoa precisa urgentemente de apoio para não se suicidar, por exemplo? É por isso que todos os hospitais da Rede Ebserh ofereceram, durante a pandemia, plantão psicológico aos colaboradores. No HU-UFS, tivemos a preocupação de oferecer plantão virtual e presencial. Saúde não é ausência de doença.
HU-UFS-EBSERH – Você disse que os transtornos obsessivos compulsivos [TOCs] aumentaram durante a pandemia. É possível que o próprio indivíduo perceba isso?
Jakson – Os TOCs só existem se houver um comprometimento real à vida do indivíduo. Um ritual de limpeza frequente não é um TOC se não compromete a vida pessoal ou profissional da pessoa. Nesses casos, o próprio indivíduo ou o psicólogo consegue notar o prejuízo.
HU-UFS-EBSERH – Mas pode comprometer a vida das pessoas que estão ao redor. E se a reclamação sobre a atitude do indivíduo vier de quem está ao lado?
Jakson – A exclusão é um termômetro. Se todo mundo começa a reclamar do seu comportamento, você começa a ficar excluído dos grupos. O sofrimento que se sente por uma exclusão social pode ajudar o indivíduo a perceber que alguma coisa está errada. Então, de qualquer jeito, haverá um comprometimento na vida relacional da pessoa. E isso independe de certo ou errado. A sua avaliação de um comportamento pode te levar a acreditar que aquilo é correto, mas está afetando outras pessoas de forma negativa. Há colegas psicólogos que trabalham, por exemplo, com treino de habilidades sociais. Posso aprender a conversar um assunto desagradável com uma pessoa sem ofender.
HU-UFS-EBSERH – Você acha que ainda há resistência, de uma maneira geral, para procurar ajuda psicológica?
Jakson – Sim. Ninguém fica preocupado quando não está bem organicamente e procura um atendimento hospitalar de emergência ou urgência. Não há uma preocupação sobre se a motivação para ir a um hospital é forte ou fraca. A gente simplesmente vai. A mesma lógica deveria valer para o profissional de psicologia. Não importa se o meu problema é grande ou pequeno. Não importa se, na minha avaliação, o meu sofrimento é grande ou pequeno. Tomamos medicações para tratar problemas pequenos na saúde orgânica. Por que não posso buscar uma medicação para aliviar um sofrimento com um psiquiatra? Não é preciso esgotar as possibilidades de conversa com família e com amigos antes de buscar um psicólogo, embora essa rede de apoio seja importantíssima. Às vezes, a pessoa está vivendo um grande sofrimento e o vai guardando até não aguentar mais. A busca pelo atendimento psicológico, infelizmente, costuma ser maior nesse momento em que a pessoa não aguenta mais. Mas a resistência de que você fala está muito relacionada ao preconceito. Há uma ideia equivocada de que o ideal seria que lidássemos sozinhos com os problemas, como se ir a um psicólogo representasse uma fraqueza.
HU-UFS-EBSERH – Tem gente que espera que, com o tempo, as coisas se curem.
Jakson – As coisas não se curam com o tempo. O que acontece é que, às vezes, somos curados no nosso processo de superação ao longo do tempo. São coisas diferentes. O tempo pode sedimentar sofrimentos, jamais os curar. Veja o exemplo de uma pessoa que vive um processo de luto. Se ela conseguir passar pelas fases do luto sem precisar de um acompanhamento psicológico, isso é ótimo. Todos nós, em algum momento da vida, vamos passar por um processo de luto; nem todos, no entanto, precisarão obrigatoriamente da ajuda de um psicólogo ou um psiquiatra. E perceba que o luto pode ser, para além de perder fisicamente uma pessoa, resultado da perda de um sonho ou de um relacionamento. O importante é não postergar o sentimento: é preciso chorar, lidar com a tristeza, ter consciência da dor.
HU-UFS-EBSERH – E o que acontece quando alguém sedimenta um sofrimento ao longo do tempo?
Jakson – Se a pessoa buscar ajuda psicológica, será preciso olhar para trás e entender tudo o que aconteceu. As pessoas chegam ao psicólogo com a ideia de que ser forte é negar sentimentos. No entanto, acredito que ser forte tem a ver com digerir experiências, isto é, lidar com elas. Quando busco ajuda, eu demonstro muita força, uma vez que reconheço que preciso enfrentar o que me prejudica. Enfrentar um processo de terapia não é simples; trata-se de reconhecer que precisa de ajuda, que tem um problema.
HU-UFS-EBSERH – Com tantas linhas de psicologia, o que um leigo precisa saber para decidir o que deve buscar?
Jakson – Qualquer linha de psicologia trabalha com cinco questões básicas: relação de confiança, resguardo do sigilo, dessensibilização, enfrentamento e auxílio na reconquista da autonomia. Cada uma à sua maneira, as diversas abordagens, nesse caminho, vão ajudar o indivíduo a lidar com os seus dilemas, com as suas dificuldades. A ideia é que você tenha alguém que funcione como um espelho ou que te ajude a enfrentar os problemas. Lidar sozinho com as coisas é muito difícil. Como dizia Freud, a autoanálise não funciona, porque a gente tende a não ver algumas coisas. Há pontos cegos na forma como nos enxergamos, os quais só o outro conseguirá ver. Isso sem falar nas coisas que não são aprofundadas corretamente porque doem. E os caminhos dolorosos precisam ser percorridos.
HU-UFS-EBSERH – Algumas linhas psicológicas não gostam de usar a palavra cura. Você acha que há questões mentais que não têm cura, que não podem ser resolvidas?
Jakson – O que temos de pesquisa acadêmico-científica mais recente e mais consolidada sobre o assunto é que, de fato, alguns transtornos mentais não têm cura. Posso citar algumas questões relacionadas à CID-10, por exemplo, que é uma classificação internacionalmente aceita. Assim como tem acontecido na medicina, a psicologia também tem trabalhado com a ideia de cuidados paliativos. Aqui no HU-UFS temos muitos casos de cuidados paliativos em que a psicologia está envolvida. Então, para os transtornos de personalidade, podemos dizer que não há cura. Personalidade não se muda, não tem parafuso para ser apertado. Nesses casos, o psicólogo e o psiquiatra podem ajudar a melhorar a qualidade de vida do indivíduo com tratamento para evitar os surtos psicóticos, os delírios e as alucinações. O consenso, inclusive, é de que alguns tratamentos proporcionam melhoras significativas. A esquizofrenia, por exemplo, pode ser explicada com a metáfora do espelho que se quebra: você consegue colar os cacos, porém o reflexo não será o mesmo do espelho original. Mas, independentemente da questão patológica, não me parece haver problema em afirmar a inexistência de cura para qualquer coisa, contanto que haja a perspectiva do cuidado, de fornecer ao outro a melhor qualidade de vida possível.
HU-UFS-EBSERH – É como se a ideia da existência de uma cura para tudo confortasse as pessoas.
Jakson – Há alguns dias, ouvi uma entrevista em que uma médica dizia que foi treinada para curar pessoas, e não para lidar com a morte. É uma pena que ela se sinta assim, já que, na verdade, ela deveria ser treinada para isso também. Na linha de frente da saúde, vamos sempre lidar com a doença e com a morte. A morte faz parte dos processos de cura, porque é um dos resultados possíveis em qualquer tentativa de curar um indivíduo.
HU-UFS-EBSERH – Isso me parece um problema até mesmo cultural, porque não somos educados, principalmente na infância, para lidar com a morte. Você discorda ou concorda?
Jakson – De fato, evitamos lidar com a morte, embora ela faça parte da nossa vida. É, obviamente, o ato final da vida de qualquer pessoa. As diversas religiões tentam lidar com essa questão da morte e, de alguma forma, oferecer algum conforto aos seus seguidores. Como falar para uma criança que alguém morreu? Como diminuir o sofrimento da criança? Devemos mentir e dizer que a pessoa viajou? Às vezes, o nome do falecido se torna proibido nas conversas com a criança ou, simplesmente, os pais param de falar naquela pessoa após a sua morte. A psicanalista Fraçoise Dolto dizia que sempre temos de falar a verdade para as crianças, de um jeito que elas entendam. Se o adulto não sabe lidar com a morte, dificilmente conseguirá ajudar a criança nesse sentido. Todo corte de um laço com outra pessoa só pode seguir dois caminhos: o da piora ou da atenuação. Se eu minto sobre o corte, postergo o enfrentamento dele pela criança e, consequentemente, contribuo para a piora do sofrimento. Quando eu explico para o outro o que está acontecendo, crio um caminho para que ele possa lidar com o sofrimento e fechar a ferida ou, alternativamente, para que ele expresse que não consegue lidar sozinho com aquilo e possa pedir ajuda. Também existem cuidados paliativos para crianças. Certa vez, ouvi o relato de uma criança que pediu para fazer um testamento, depois que lhe explicaram que ela iria morrer. Uma psicóloga foi chamada e, com o auxílio dela, o testamento foi feito. Perceba que a criança só pôde expressar a vontade de fazer um testamento porque teve acesso completo à verdade do que estava acontecendo. É por isso que a psicologia hospitalar trabalha com protocolo de más notícias.
HU-UFS-EBSERH – Então, cuidar da saúde mental também é minimizar traumas?
Jakson – Sem dúvidas. O nosso cérebro costuma valorizar mais as questões negativas como uma forma de proteção, de não querer passar por aquilo de novo. Quando um equilíbrio se quebra, tem de ser resgatado. Nesse sentido, o psicólogo pode cumprir um papel fundamental. Falar o que se sente e ouvir palavras de conforto é o que todo mundo quer. Não é à toa que combatemos o bullying nas escolas, os assédios morais nas instituições laborais e os diversos tipos de violência verbal nas relações interpessoais. Minimizar um trauma também faz parte do trabalho de prevenção às questões que podem afetar a saúde mental. Precisamos buscar o autoconhecimento, o autocuidado. Se você não consegue fazer isso sozinho, se não está bem, procure um profissional psicólogo ou psiquiatra. Evite os preconceitos; lembre-se de que todo preconceito vem de um estado de ignorância. Quanto mais rápido vier o acolhimento para quem precisa ser acolhido, maiores são as chances de isso dar certo. Saúde mental não é acessório, não é só a segunda parte da palavra biopsicossocial. No entendimento dos gregos antigos, sem mente sã não há corpo são.
Sobre a Rede Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) foi criada em 2011 e, atualmente, administra 40 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência.
Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), e, principalmente, apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas. Devido a essa natureza educacional, os hospitais universitários são campos de formação de profissionais de saúde. Com isso, a Rede Ebserh atua de forma complementar ao SUS, não sendo responsável pela totalidade dos atendimentos de saúde do país.
Por Luís Fernando Lourenço