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SAÚDE MENTAL
Entenda os sinais do TDAH na vida adulta
Teresina (PI) - Quantas horas do seu dia você está realmente trabalhando ou estudando de forma produtiva? Quanto tempo consegue focar em uma tarefa difícil antes de perder a concentração?
Ao refletir sobre essas perguntas, muitas pessoas percebem dificuldades de atenção e procuram ajuda médica por não conseguirem concluir tarefas com eficiência. Essas dificuldades podem aparecer até mesmo em momentos de lazer, como durante a leitura de um livro ou ao assistir a um filme.
“Aliado a isso, muitos pacientes manifestam hiperatividade em um nível de inquietude tão elevado que até as atividades de lazer são realizadas com grande engajamento motor. São pessoas, muitas vezes, impetuosas nas decisões e que fazem mudanças de vida de forma precipitada”, afirma o psiquiatra Adriano Tupinambá, do Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI/Ebserh).
O especialista explica que o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) não se resume apenas à desatenção ou ao nível de atividade. Trata-se de uma alteração neurológica relacionada aos circuitos cerebrais responsáveis pelo controle automático, reflexo de emoções e comportamentos. “Por isso, esses pacientes tendem a ser mais reativos, com o ‘pavio curto’, e têm dificuldade em lidar com emoções emergentes. Em outras palavras, a desregulação emocional e comportamental também é uma característica marcante”, completa.
Segundo o médico, duas populações de pacientes com TDAH precisam ser descritas: aquelas que tiveram um curso de vida mais errático e aquelas que conseguiram lidar com o transtorno por meio de adaptações.
O primeiro grupo — pacientes que tiveram um percurso de vida instável — muitas vezes apresenta histórico de exposição precoce a substâncias ou a comportamentos sexuais, dificuldades na conclusão da formação escolar e problemas para entrar ou se manter no mercado de trabalho. “São pessoas com vidas mais instáveis e que, muitas vezes, sofreram mais danos. Ao serem tratadas, precisam tanto de intervenções para as manifestações do TDAH quanto de suporte para reconstruir estruturas que não conseguiram formar durante o desenvolvimento: reparar danos, trabalhar a autoimagem e lidar com a adaptação às regras sociais”, explica Tupinambá.
Já o segundo grupo reúne pacientes que, ao longo da vida, desenvolveram subterfúgios para lidar com a desatenção e instabilidade. Muitos adotaram uma autodisciplina rigorosa e padrões de autoexigência elevados para compensar os sintomas. “Eles podem não sofrer grandes déficits formativos ou profissionais, mas isso vem a um custo energético altíssimo. O tratamento, nesse caso, não busca corrigir déficits, mas proporcionar equilíbrio entre as conquistas do dia a dia e o esforço que está sendo despendido”, completa.
TDAH ou ansiedade?
Entretanto, é importante diferenciar o TDAH de outros transtornos, como os de ansiedade. Segundo Tupinambá, aproximadamente 70% das pessoas que acreditam ter TDAH na vida adulta, na verdade, apresentam transtornos de ansiedade.
“Indivíduos com transtornos de ansiedade geralmente buscam controlar variáveis externas, estão com o psiquismo sempre engajado, e a mente constantemente tomada por problemas e pendências. Isso provoca uma sensação de inquietação, aumenta a atividade motora e compromete a organização do pensamento e das ações”, explica o médico.
Outro ponto importante é distinguir o TDAH da distração comum. Segundo o psiquiatra, essa não é uma tarefa simples, já que o estilo de vida atual tem favorecido um “mau treinamento da atenção”. Ele exemplifica: “Se uma pessoa tenta concluir a leitura de um capítulo de um livro sem ter o hábito ou treinamento, pode se frustrar tanto quanto alguém com TDAH. A diferença está no quanto essa atenção pode ser moldada com disciplina e mudanças de rotina”.
“A atenção é uma capacidade psíquica moldável — pelo menos até certo ponto da vida. Mesmo na idade adulta, é possível estimulá-la. No entanto, em pessoas com TDAH, esse recondicionamento traz resultados mais lentos e limitados. Isso se deve às demais características do transtorno, como hiperatividade, impulsividade e desregulação emocional e comportamental”, completa Tupinambá.
Tratamento e diagnóstico
O tratamento padrão para o TDAH inclui o uso de medicamentos estimulantes, inclusive em crianças. Embora pareça contraditório, esses fármacos não reduzem a atividade cerebral. Pelo contrário: estimulam os circuitos envolvidos no controle da atenção e do comportamento, permitindo que o indivíduo filtre melhor o fluxo de ideias e regule suas ações.
Além da medicação, o tratamento inclui intervenções psicopedagógicas e treinamento comportamental. “Não basta apenas ter atenção funcional, é necessário saber utilizá-la com habilidade”, destaca o médico.
Tupinambá compartilha um relato comum entre seus pacientes adultos: “Muitos dizem que, com a medicação, sentem que ganharam uma ferramenta — mas não sabem como usar. Eles afirmam que a atenção está ótima, mas como nunca estabeleceram rotinas, como um local fixo para guardar as chaves ou documentos, acabam sem saber como aplicar essa nova capacidade. Por isso, criar uma rotina de vida é parte fundamental do tratamento. O uso de medicamentos não é suficiente por si só”.
Avaliação neuropsicológica: quando é útil?
A avaliação neuropsicológica pode ser um complemento importante ao diagnóstico, mas precisa ser utilizada com critério. “Se for aplicada fora de contexto, pode não trazer informações relevantes. Quando a hipótese diagnóstica de TDAH é fraca, os resultados tendem a ser baixos. Se a suspeita é forte, os scores costumam acompanhar. Já nos casos ambíguos — os mais comuns — os resultados também são ambíguos, reforçando a zona de incerteza”, afirma Tupinambá.
Segundo ele, há situações em que o tratamento será iniciado mesmo com alguma margem de dúvida. “Trabalhamos com a possibilidade de benefício clínico. A avaliação neuropsicológica, nesses casos, funciona como um suporte adicional para fundamentar nossa intuição clínica”, finaliza.
Sobre o HU-UFPI
O HU-UFPI faz parte da Rede da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) desde novembro de 2012. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Maria Carvalho Costa
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh