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MIELOMENINGOCELE
MEAC realiza primeiras cirurgias fetais com úteros expostos no Ceará
Foto: Nilfacio Prado
Faltam algumas semanas para Maria Giovana nascer, mas ela já entra para a história da medicina fetal do Ceará, como a primeira bebê operada para correção de mielomeningocele ainda no útero da mãe, no dia 26 de maio de 2019. A cirurgia, de alta complexidade, mobilizou todo o hospital e envolveu mais de 20 profissionais de saúde altamente especializados, entre médicos neurocirurgiões pediátricos, obstetras fetólogos, anestesiologistas e neonatologistas, além de farmacêuticos, enfermeiros e técnicos de enfermagem.
O procedimento foi um sucesso tão grande que, no último dia 6 de julho, foi a vez de outra paciente, que mora em Pacatuba, ser submetida à cirurgia, com 25 semanas de gestação da bebê Cecília. Desta feita, o procedimento foi realizado exclusivamente por equipe cearense, composta por profissionais da MEAC e do Hospital Infantil Albert Sabin.
Coordenado pelos professores de Medicina da UFC Edson Lucena e Herlânio Costa, a primeira cirurgia foi viabilizada com a vinda de quatro médicos de São Paulo: os neurocirurgiões Sérgio Cavalheiro e Italo Suriano e os obstetras fetólogos Antonio Fernandes Moron e Maurício Barbosa, além da participação do neurocirurgião pediátrico Eduardo Jucá e da anestesiologista Fernanda Castro e equipe.
Sobre a mielomeningocele
Também conhecida como espinha bífida aberta, a mielomeningocele é uma malformação congênita da coluna vertebral do bebê em que as meninges, a medula e as raízes nervosas estão expostas. O defeito surge antes da 8ª semana de gestação, durante a fase de formação dos órgãos. Se não corrigido, traz graves sequelas no desenvolvimento neurológico da criança. As causas são multifatoriais, podendo ser genéticas ou ambientais.
A Sociedade Brasileira de Neurocirurgia estima que a cada 1.000 nascimentos, 1 a 10 bebês podem ter essa condição. Por isso, a medicina fetal tem concentrado esforços para tentar corrigir com o máximo de precocidade, evitando danos mais severos. A técnica mais comum é uma neurocirurgia nos primeiros dias após o nascimento. Mas nos últimos anos, a cirurgia no bebê ainda no útero da mãe tem sido a opção mais eficaz.
Cirurgia intrauterina a céu aberto
A principal inovação na técnica utilizada nas cirurgias é que ela é feita “a céu aberto”, ou seja, os médicos colocam o útero da paciente para fora e fazem uma pequena incisão nele, através da qual operam a coluna do feto. Em seguida, fecham as incisões e o útero é inserido novamente no abdômen da mãe. A gestação segue normalmente até o nascimento do bebê, geralmente prematuro.
“O procedimento melhora o prognóstico dessas crianças no sentido motor, neurológico e no desenvolvimento em toda a sua vida, com menor taxa de hidrocefalia e favorecendo uma independência para elas. Já há evidências científicas consistentes de que quando a cirurgia é realizada intra-útero o resultado neurológico é melhor do que a cirurgia pós-natal”, explica Edson Lucena.
No caso da cirurgia a céu-aberto, o ideal é sua realização entre a 24ª e a 26ª semanas da gravidez. Para isto, é fundamental que o diagnóstico seja feito o mais precoce possível para que haja tempo de orientação adequada e preparo da paciente e a família possa tomar sua decisão. “A mielomeningocele já pode ser suspeitada no ultrassom morfológico de 1º trimestre, entre 11 e 14 semanas de gestação, e confirmada a partir da 15ª semana, em geral, no morfológico de 2º trimestre, de 18 a 24 semanas”, aponta Herlânio Costa.
Perspectivas
Segundo o gerente de Atenção à Saúde da MEAC, Carlos Augusto Alencar Júnior, a maternidade já deu entrada ao processo de habilitação para oferecer neurocirurgias de alta complexidade, como esta, via SUS. Anseio compartilhado com o também professor Moron: “As pessoas buscam realização de cirurgia de forma isolada. Aqui tivemos um comprometimento institucional, ligado ao SUS, e a mielomeningocele é muito mais prevalente entre pessoas de poucos recursos. Estar disponibilizando a cirurgia próximo da moradia dessas pessoas é fundamental”, afirmou. Moron destacou ainda que a MEAC está numa posição de liderança no Nordeste, com estrutura hospitalar e corpo técnico totalmente preparado para oferecer esse procedimento sistematicamente. Essa capacitação é fruto de um projeto de cirurgia fetal pensado para todo o Estado, numa parceria de várias especialidades, incluindo cirurgia pediátrica capitaneada pelo professor Aldo Melo, da UFC.