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Da obra à arte: conheça Lenilson Gomes, servente de pedreiro e desenhista, que retratou a pandemia em pedaços de gesso
As mãos fortes que lidam com obras de construção civil são as mesmas que possuem a delicadeza dos traços e dão vida a pinturas. Nos pedaços de gesso que já parecem não servir para o teto, Lenilson Gomes dá utilidade como uma tela em branco a ser pintada pelo artista. Ele recicla, lixa, prepara o contorno com fita adesiva, pensa no que deseja retratar, busca referências na internet e começa a traçar. Com grafite e lápis de cor, expressa-se através da arte e encanta os que acompanham a confecção de suas ilustrações, feitas muitas vezes nos intervalos de seu trabalho.
Lenilson tem 30 anos e é fortalezense de nascimento, mas ainda recém-nascido foi viver com a família em Acaraú, distante 232 km da capital. Descobriu o talento e gosto pelos desenhos quando, aos 10 anos de idade, já fazia rascunhos nos cadernos escolares. Começou a trabalhar ainda na juventude, aos 15 anos, em uma casa de ração para ajudar no sustento de casa, passando a atuar mais tarde em lojas de material escolar, como jardineiro e, mais recentemente, em depósito de construção.
Mesmo tendo que lidar com a rotina cansativa do trabalho, jamais largou o seu prazer de desenhar. Neste último emprego, sofreu um acidente de trabalho enquanto descarregava materiais de um caminhão, em novembro de 2019. Fraturou duas costelas, lesionou a coluna e quebrou a clavícula. Por esse motivo, resolveu ir à Fortaleza para tratar das sequelas e, já recuperado, decidiu permanecer na cidade em busca de um novo emprego. Lenilson atua como servente de pedreiro na construtora contratada para a obra da Unidade de Transplantes de Rim, Fígado e Pâncreas do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), do Complexo Hospitalar da UFC/Ebserh.
Inspirações de suas obras
Muitos momentos vividos na infância são sua inspiração, principalmente as lembranças da paisagem e da rotina do interior onde viveu. Para ele, desenhar é uma maneira de expressar seus sentimentos e estar conectado consigo: “É uma coisa que me faz bem, principalmente quando estou meio cansado. Esse é um meio de ficar calmo, distraído e de colocar o que eu estou sentindo”, contou.
Por estar trabalhando numa construção hospitalar, fez questão de representar em dois de seus quadros o cenário de pandemia da covid-19 vivido nos últimos dois anos, tempo que coincide com seu trabalho na construtora. Essas obras demonstram, segundo o autor, as batalhas vivenciadas pelos profissionais de saúde e dos pacientes contra o vírus. “Eu quis fazer algo especial homenageando os médicos, enfermeiros e todos os profissionais da saúde que ajudaram tanta gente”. Na primeira tela, os trabalhadores estão formando “escudos” humanos ao redor do doente, protegendo-o contra a ação do vírus. Na segunda, as mãos de um paciente representam um coração em forma de agradecimento aos que cuidaram dele, explica Lenilson.
Os quadros farão parte da decoração das enfermarias da Unidade de Transplantes de Rim, Fígado e Pâncreas, inaugurada em março de 2022. A satisfação do artista em contribuir com a construção destes locais e de permanecer presente através de suas obras é nítida: “Eu quero que as pessoas quando vejam meus quadros sintam o mesmo que eu sinto: o prazer, a alegria de viver”.
Jornalista: Marília Gabriela Silva Rêgo (MTE 6861/PE)
Unidade de Comunicação Social (UCS)