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Revisão científica do Humap-UFMS avalia canabidiol em transtornos de ansiedade
Para o Dr. Kleber Vargas, a nova regulamentação pode facilitar o acesso a insumos para pesquisa científica, especialmente em universidades e hospitais universitários, mas não substitui a necessidade de evidências robustas.
A recente decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamentou o cultivo da cannabis medicinal por pessoas jurídicas e ampliou o acesso a terapias à base de derivados da planta no Brasil, trouxe novamente à tona o debate sobre a eficácia, a segurança e o embasamento científico desses tratamentos. No Humap-UFMS/Ebserh, o tema já vinha sendo analisado de forma criteriosa por meio de um estudo desenvolvido no âmbito da residência médica em Psiquiatria.
A pesquisa consistiu em uma revisão integrativa da literatura científica sobre o uso do canabidiol (CBD) no tratamento dos transtornos de ansiedade, conduzida pela médica residente Flávia Delgado, sob orientação do psiquiatra do Humap-UFMS, Dr. Kleber Vargas. Foram analisados artigos científicos publicados entre 2020 e 2025, em português e inglês, a partir de descritores relacionados a canabidiol e transtornos ansiosos.
De acordo com os resultados da revisão, as evidências disponíveis na literatura ainda são insuficientes para sustentar o uso do canabidiol como tratamento eficaz para transtornos de ansiedade, conclusão que acompanha o posicionamento de outros estudos e metanálises recentes sobre o tema.
“Existem poucos estudos bem conduzidos metodologicamente que demonstrem uma eficácia clínica significativa do canabidiol para ansiedade. As evidências atuais não permitem que ele seja indicado como tratamento, o que exige cautela tanto na prescrição quanto na formulação de políticas públicas”, explica o Dr. Kleber Vargas.
Ciência, método e cautela terapêutica
Segundo o psiquiatra, o debate em torno da cannabis medicinal muitas vezes é permeado por expectativas que não encontram respaldo sólido na ciência. Ele destaca que, embora o sistema endocanabinoide seja complexo e biologicamente relevante — atuando na modulação de diversos neurotransmissores —, isso não significa que os derivados da cannabis já tenham eficácia comprovada para múltiplas condições clínicas.
“Na psiquiatria, e na medicina de forma geral, é fundamental que as decisões terapêuticas sejam baseadas em método científico, ética e evidência. Terapias chamadas de alternativas precisam ser analisadas com cuidado, porque muitas delas não possuem comprovação científica adequada”, afirma.
O estudo realizado no Humap-UFMS também aponta lacunas importantes relacionadas à segurança do uso do canabidiol, especialmente em longo prazo. Apesar de o CBD apresentar, aparentemente, baixo risco imediato, ainda há escassez de pesquisas sobre efeitos do uso crônico, impactos em populações específicas — como gestantes — e possíveis desfechos ao longo dos anos.
O que muda com a nova regulamentação da Anvisa
Na última semana, a Anvisa aprovou uma resolução que permite o cultivo da cannabis exclusivamente por pessoas jurídicas, como empresas, universidades e associações legalmente constituídas, para fins medicinais e farmacológicos. O plantio não foi liberado para a população em geral e não possui relação com uso recreativo.
A produção da planta deverá respeitar limites rigorosos, com teor máximo de THC de até 0,3%, conforme determinação judicial. A decisão atende a uma solicitação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que determinou que a agência regulamentasse o cultivo voltado exclusivamente à fabricação de medicamentos e produtos regulados.
Na mesma sessão, a Anvisa também ampliou as possibilidades de uso de terapias à base de cannabis no país, autorizando:
a venda do fitofármaco canabidiol em farmácias de manipulação;
o registro de medicamentos para uso bucal, sublingual e dermatológico;
a ampliação do perfil de pacientes que podem utilizar produtos com concentração de THC acima de 0,2%, incluindo pessoas com doenças debilitantes graves.
Para o Dr. Kleber Vargas, a nova regulamentação pode facilitar o acesso a insumos para pesquisa científica, especialmente em universidades e hospitais universitários, mas não substitui a necessidade de evidências robustas.
“A ampliação do acesso pode, sim, estimular novas pesquisas, o que é positivo. No entanto, é importante destacar que, até o momento, a única indicação com evidência científica consolidada para derivados da cannabis é no tratamento da epilepsia refratária”, ressalta.
Evidência científica e riscos associados
De acordo com o especialista, para condições como ansiedade, depressão, dor crônica, transtornos do espectro autista e quadros demenciais, os estudos não demonstram eficácia consistente dos derivados da cannabis. Em alguns casos, pacientes relatam melhora pontual, mas os benefícios não se sustentam a longo prazo.
Além disso, o médico alerta para os riscos associados ao uso indiscriminado da planta in natura, especialmente devido ao aumento da concentração de THC nas últimas décadas.
“O uso da maconha está associado a riscos como dependência, crises de ansiedade, síndrome amotivacional, alterações pulmonares e aumento do risco de psicoses, principalmente quando o uso ocorre na adolescência e em pessoas predispostas”, explica.
Ele reforça que não existe “cannabis medicinal” como conceito amplo, mas sim derivados específicos isolados da planta, que seguem sendo estudados quanto ao seu potencial terapêutico.
O papel do Humap-UFMS na produção de conhecimento
O estudo reforça o papel estratégico do Humap-UFMS/Ebserh como campo de excelência para assistência, ensino e pesquisa, contribuindo para a formação de profissionais críticos e para o avanço do conhecimento científico no país.
“Os hospitais universitários têm como missão não apenas cuidar, mas também ensinar e pesquisar. A ciência não é a verdade definitiva, mas é a melhor ferramenta que temos hoje para orientar decisões clínicas, políticas públicas e condutas individuais de forma racional”, destaca o psiquiatra.
Ao divulgar estudos como esse, o Humap-UFMS contribui para um debate mais qualificado sobre o uso de terapias emergentes, reforçando a importância de que decisões regulatórias e assistenciais estejam alinhadas às evidências científicas disponíveis.
As evidências nessa revisão integrativa mostram que os dados disponíveis ainda são insuficientes para pensar no uso do canabidiol como tratamento para ansiedade, o que corrobora uma série de outros estudos científicos.
Sobre a Ebserh
O Humap-UFMS faz parte da Rede Ebserh desde 2013. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.