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SEMANA DA PREMATURIDADE
HC-UFG/Ebserh lança o Diário do Bebê, iniciativa que leva mais humanização ao atendimento na UTI Neonatal
Em uma iniciativa ainda inédita no Brasil, durante as ações da campanha Novembro Roxo, o Hospital das Clínicas da UFG, vinculado à Rede Ebserh, lança no dia 16/11, dentro das ações da II Semana da Prematuridade, o ‘Diário do Bebê’, projeto que visa proporcionar um atendimento mais humanizado às famílias que passam pela UTI Neonatal do hospital.
As primeiras edições do Diário do Bebê serão entregues para as mães de pacientes da UTI Neonatal do HC-UFG ao longo da Semana da Prematuridade para que elas já façam o acompanhamento do dia a dia da vida de seus bebês, com todo o amparo da equipe assistencial.
Ainda ao longo da semana, será realizada uma série de ações, dentre elas, a reprodução de um vídeo nos televisores do HC, gravado com o chefe da Unidade de Cuidados Neonatais, médico neonatologista Danilo de Freitas Magalhães, explanando sobre a importância da campanha Novembro Roxo, distribuição de lembrancinhas em alusão ao Dia Mundial da Prematuridade (pezinhos de sabonete), afixação de cartazes nos elevadores com a programação da Semana da Prematuridade e demais divulgações das ações da Semana da Prematuridade junto à Unidade de Comunicação do HC-UFG/EBSERH (banner no site, wallpaper dos computadores, distribuição de panfletos, conteúdo para o site, cobertura fotográfica, matérias para a imprensa, cerimonial do evento etc). No hall de entrada do HC-UFG/EBSERH serão afixados balões com a cor do tema e ainda distribuídos bótons alusivos ao Dia Mundial da Prematuridade.
De acordo com a enfermeira Maria Vilma de Oliveira, Chefe da Unidade de Saúde da Mulher do HC-UFG, este é um projeto “muito especial, que será lançado no momento oportuno de conscientização sobre os cuidados com o bebê prematuro“.
O projeto Diário do Bebê
O projeto Diário do Bebê foi idealizado em 2021 pelas profissionais de psicologia Melissa Viana Telles do HC-UFG e pelas ex residentes do hospital, Bárbara Cardoso Sabino, psicóloga intensivista, e Fernanda Feijó Martins, residente em saúde materno-infantil, com finalização em setembro de 2022.
Tudo começou quando a equipe de psicólogas avaliou quais ações que poderiam melhorar a vivência das mães que estavam ali no dia a dia da UTI Neonatal e pensaram em “algo físico” que as mães pudessem levar consigo, algo por escrito daquele período, uma ideia que fora logo acolhida pela instituição hospitalar.
“No início, quando começamos nosso trabalho junto com a Melissa, pensamos em vários projetos para tornarmos o atendimento na ‘UTI Neo’ mais humanizado, especialmente com foco nos nenéns que faleciam. Queríamos fazer esse momento ser mais humanizado para a família e também para a equipe”, ressaltou Bárbara Sabino.
Com centro de referência na atenção à saúde, o HC-UFG já implementa ações de humanização do atendimento às famílias que passam pela UTI Neonatal, conforme explica a psicóloga Melissa: “Tentamos recolher as lembranças, temos um passarinho de crochê que colocamos junto ao bebê e a mãe leva consigo quando o bebê falece. Temos um cartão de condolências da equipe e que indica para a mãe os locais onde ela pode buscar ajuda. Após 15 dias, fazemos uma ligação para a família e, com 30 dias, um novo cartão é enviado, pelo qual a equipe se disponibiliza a receber esses pais. A equipe se mantém aberta!”.
Sabino explica ainda que, quando o bebê está em estado muito grave, um molde de gesso do pezinho do bebê é feito. “Aí, a gente entrega com o cartão de vacina, com a pulseirinha e tudo o que pode ser levado para casa na “Sacolinha da Saudade”, como forma de facilitar o luto. A sacolinha da saudade foi criada pela doutora Fernanda Aparecida de Oliveira Peixoto, médica intensivista pediátrica da UTI Neonatal. É como um memorial que ajuda a família a vivenciar esse momento difícil”, destacou.
Atenção ao Luto e construção da história do Bebê
A ideia do diário do bebe não está ligada apenas ao processo de ‘finitude’, mas é ter esse processo de construção da história do bebê, desde o nascimento até o momento de saída dele em vida ou caso ele venha a óbito. A ideia do projeto é ter essas memorias de vida em algo concreto. Lembranças que ficarão com a família, como explica Fernanda Feijó:
“São objetos transicionais que conseguem dar um simbolismo maior para essa experiência. A vivência na UTI neonatal é muitas vezes atravessada por muito sofrimento, dificuldade de adaptação à internação. Há o bebê que é imaginado e há o bebê que é real. Ter formas concretas de facilitar esse processo para a família é gratificante e tem um simbolismo especial. Há casos em que a família não quer receber as lembranças e compreendemos. Após o período de 30 dias, se a família tiver interesse, entregamos a lembrança”.
A experiência da entrega do Diário já foi realizada para a mãe de um bebê que inicialmente teve cuidados paliativos, mas conseguiu ir para a casa. Segundo Melissa, a mãe, que era bastante jovem, aderiu de forma muito positiva, pois passou por todas as fases, da internação ao diagnóstico.
O Diário vem aproximar a mãe de uma experiência materna próxima da que foi esperada, como explica Melissa: “A mãe que está dentro do hospital já é privada de levar seu bebê para casa, de ter aqueles primeiros registros de fotos, de pessoas. O médico que fez o parto, que horas nasceu, o registro do pezinho, tudo isso a aproxima dessa maternidade que foi afastada por conta de um problema de saúde. Torna-se um fator terapêutico muito importante!”
Maternidade e seus simbolismos
O Diário do Bebê trabalha a maternidade, seus simbolismos e significados. São as primeiras lembranças, primeiras memórias, primeiros vínculos dentro de um ambiente de UTI. “É uma ‘maternagem’ a esse bebê, independente de quem seja a mãe e o pai, diferente do que socialmente é esperado.... é uma equipe assistencial que oferta esses cuidados, é um ambiente hospitalar com os ruídos sonoros que são intensos para o bebê, é uma mudança de rotina, tudo está atravessado. O Diário consegue trazer os momentos importantes e simbólicos, que fazem parte dessa construção de vida, desse início da história não só do bebê como da família”, de acordo com Fernanda Feijó.
A ideia inicial é a humanização da assistência dos cuidados, das práticas, dentro do contexto em que estamos inseridos para os pais que vivem esse contexto de UTI Neonatal, promovendo esse processo de adaptação de forma mais humanizada, não só pelo prisma da psicologia, mas como de toda a equipe multiprofissional. “A ideia primordial do projeto é ter esse atendimento cada vez mais humanizado, e não um processo tecnicista. A ideia do projeto tem aplicabilidade em outras maternidades”, ressalta Fernanda.
O Diário do Bebê
Desde a capa, “Diário do Bebê - O início da minha historinha”, a ilustração revela uma mão que está costurando um coração e esse está interligado a um cordão umbilical onde está sendo gerado um bebê. “É uma história que está sendo construída a partir desse nascimento, que envolve amor, tempo e cuidado. Um começo que não está pronto e que vai acontecendo pelo caminho”, explica Melissa Telles.
De acordo com ela, é possível colocar informações como a data de nascimento, peso, altura, que já têm nos álbuns do bebê. “A própria mãe redige, com auxílio de toda a equipe, para que não fique nenhuma lacuna, incluindo o local para a mãozinha e o pezinho, além das digitais”.
Em “Dados pessoais”, é possível colocar quem escolheu o nome do bebê, qual significado, os simbolismos da origem do nome. “O nome para a gente é muito importante, tem um peso. É uma das primeiras formas de vinculação que acontece entre a família e o bebê. É importante também para a equipe conhecer o nome e chamá-lo por ele”, destaca Telles.
No “Eu Nasci Assim”, a mãe já olha para o bebê de forma mais singular, verificando olhos, cabelo, com quem ela acha que se parece. É um espaço para a criação desse vínculo, um resgate para essa mãe que ainda não conseguiu colocar o seu bebê no colo.
A sessão “Primeiros Cuidados” é construída junto com a equipe assistencial, pois o pai e a mãe vão aprendendo a como cuidar desse bebê com os técnicos de enfermagem e enfermeiros, devido ao fato de o bebê ter um manuseio mínimo. Nesse espaço, é possível colocar informações como quem deu o primeiro banho, como foi o comportamento do bebê, a primeira dieta e até o primeiro cocô.
No “Minhas fotos”, um espaço dedicado a dar uma ‘normalidade’ para um ambiente que é fora do esperado. Os registros fotográficos podem ser feitos na incubadora ou no momento em que o bebê é colocado no colo.
O Diário conta ainda com uma página especialmente dedicada à expressão do pai, mãe ou cuidador do bebê hospitalizado, para que coloque no papel o que está sentindo naquele momento. Segundo Telles, estudos mostram que a escrita é uma forma de organização dos pensamentos e das emoções. “É um momento de acesso às emoções. É um momento para estimular a reflexão e acessar essas emoções”.
No “Fui embora da UTIN”, reserva espaço para quando o bebê vai embora do HC, com informações sobre o tempo de internação, o peso, quem está aguardando ele do lado de fora. Se o bebê vem a óbito, uma página é substituída por um texto de despedida muito afetuoso, como se tivesse sido escrito pelo próprio bebê que ali esteve internado.
Na última página, cada membro da equipe que cuidou do bebê assina seus nomes em corações impressos, para que a mãe leve de recordação aquele período de cuidado e atenção.