Notícias
BAHIA
Pesquisa de ortopedia aplica células tronco no tratamento para pacientes com anemia falciforme
Um pesquisa realizada no Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos (Complexo Hupes) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) está proporcionando alívio aos pacientes portadores de anemia falciforme que desenvolvem necrose nos ossos. O Hupes é filiado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), estatal vinculada ao Ministério da Educação (MEC).
Segundo Gildásio Daltro, chefe do Serviço de Ortopedia do Complexo, 93% dos pacientes estão obtendo sucesso com esse tratamento alternativo, que faz a aplicação cirúrgica de uma espécie de massa contendo células-tronco do próprio paciente.
A cirurgia, realizada na França desde o ano de 2000, é fruto de uma pesquisa feita em parceria com a Universidade de Paris XII, por meio do professor Philippe Hernigou, do departamento de Cirurgia Ortopédica. A parceria inclui transferência de tecnologia.
O procedimento veio para o Brasil em 2004, ainda em fase experimental, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Hoje compõe o quadro de procedimentos experimentais do Ministério da Saúde (MS). Apesar de a pesquisa estar formando profissionais, o complexo hospitalar baiano ainda é a única instituição a realizar o procedimento.
O que é a doença
A anemia falciforme é uma doença genética que se caracteriza pela má formação das células vermelhas do sangue, em formato de foice, que são removidas da circulação e destruídas. Pacientes com a doença falciforme geralmente apresentam doenças ortopédicas que precisam de intervenção cirúrgica, sendo a mais comum a osteonecrose.
As osteonecroses geralmente ocorrem na cabeça do úmero ou do fêmur, devido à rede de vasos limitada, que podem facilmente serem afetadas pelas oclusões da anemia falciforme. O colapso da cabeça do fêmur tende a ocorrer dentro dos primeiros cinco anos de diagnóstico, o que reflete uma atenção periódica necessária. O tratamento tradicional indica a implantação de prótese para o paciente, já que o osso inevitavelmente se desgastará com o tempo.
“Antes precisávamos esperar a necrose realmente avançar no paciente para a colocação da prótese, o que é um procedimento muito mais invasivo do que o que estamos realizando agora”, explica o professor Daltro. A pesquisa propõe a utilização na região afetada, de células tronco autólogas, do próprio paciente, com um tipo de cimento feito a partir de fosfatos de cálcio, substância com excelente biocompatibilidade com os ossos naturais do organismo.
Trata-se de um procedimento muito mais simples, pois ocorre sem internação na UTI, nem internação de 15 dias em enfermaria, como é o comum na cirurgia de prótese. O professor Daltro indica que as técnicas utilizadas podem custar 1/5 do valor do tratamento tradicional e oferecem risco zero, já que o material usado é do próprio paciente. No lugar de colocar uma prótese no paciente, o cirurgião faz uma pequena incisão, suficiente, por exemplo, para passar uma furadeira de calibre pequeno até o osso, que entra na cabeça do fêmur.
Atualmente o Ambulatório de Ortopedia do Complexo Hupes atende 4800 pacientes com a doença, cadastrados no ambulatório de Anemia Falciforme. No Brasil, os tratamentos mais comuns são a prevenção ou a colocação de uma prótese no local afetado. Atingindo 13% da população brasileira, a cada 600 pessoas, uma apresenta a doença hereditária. Dos portadores, cerca de 50% apresentarão necrose dos ossos do quadril.
Quem pode se submeter ao procedimento
O estudo já tem quase 500 pacientes atendidos vindos de todo o Brasil. Para realizar a cirurgia, o paciente deve estar nas primeiras fases da osteonecrose. Nesta fase a pessoa ainda tem as articulações naturais. “O paciente já começa a sentir o alívio da dor dentro de 48 horas”, afirma o médico. “Ainda não tivemos que refazer nenhuma cirurgia. Todas tiveram sucesso na primeira vez”, acrescenta.
Apesar do foco da pesquisa estar no tratamento para portadores da anemia falciforme, a cirurgia se aplica para qualquer tipo de osteonecrose, que pode ser gerada, por exemplo, pelo uso constante e indiscriminado de corticoides ao longo da vida. “Caso a necrose já esteja avançada, a aplicação não terá o efeito pretendido. Nesta parte o mais indicado é a prótese”, explica Daltro.
Com informações do Complexo Hupes