Notícias
SEMENTES DO SABER
Iniciação científica com impacto social
Ebserh ultrapassa duas mil bolsas PIT e PIC e fortalece a formação de futuros profissionais. Imagem ilustrativa: Freepik.
Nesta reportagem, você verá:
Brasília (DF) – Celebrado em 8 de julho, o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico marca uma data fundamental para valorizar a produção do conhecimento no Brasil. Na Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), vinculada ao Ministério da Educação, essa produção é incentivada diariamente com programas que promovem o despertar de vocações científicas entre estudantes da graduação em todo o país. Desde a criação dos programas de Iniciação Científica (PIC) e Tecnológica (PIT), mais de duas mil bolsas foram ofertadas em hospitais universitários federais, abrangendo as cinco regiões brasileiras.
A iniciativa, realizada em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), começou em 2022 com o lançamento do PIC. No ano seguinte, foi criado o PIT. De lá para cá, os programas vêm crescendo em alcance e resultados. No ciclo vigente (2025), foram disponibilizadas 446 bolsas de Iniciação Científica e 312 bolsas de Iniciação Tecnológica, permitindo que centenas de estudantes atuem diretamente em projetos com capacidade de promover mudanças significativas em suas unidades hospitalares e comunidades.
Da teoria à prática: jovens pesquisadores e efeitos concretos
Focados em soluções aplicadas, os projetos desenvolvidos pelos bolsistas têm mostrado como o investimento em pesquisa pode beneficiar o cuidado em saúde, fomentar a inovação e contribuir com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Na Maternidade Escola Januário Cicco da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (MEJC-UFRN), a estudante de Educação Física, Amanda Freire, bolsista do PIC, participa de uma pesquisa com gestantes de alto risco que busca avaliar o comportamento sedentário e os padrões de atividade física utilizando um aparelho chamado acelerômetro.
“O equipamento mede o tipo de movimento em três eixos. Ele nos permite avaliar, por exemplo, se a gestante está há mais de uma hora sentada, se pratica atividade física leve, moderada ou intensa, e até mesmo a qualidade do sono”, explica Amanda. “O que mais me marca, até hoje, é a quantidade de mulheres que ainda têm receio de se exercitar durante a gestação, quando, na verdade, elas devem evitar o sedentarismo”, completa. O estudo, que está em fase final de recrutamento, pode se tornar uma referência para outras instituições.
Outro exemplo de protagonismo estudantil é o da acadêmica de Medicina, Jéssica Oliveira, do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes da Universidade Federal do Espírito Santo (Hucam-UFES). Ela desenvolve um projeto com foco em inteligência artificial aplicada à triagem de pacientes com suspeita de endometriose. “Mesmo sendo da área médica, eu não teria contato com essa tecnologia se não fosse o PIT. Aprendi ferramentas estatísticas e de modelagem computacional que vão marcar para sempre minha formação”, afirma.
Segundo Jéssica, sua trajetória tem sido de muito aprendizado. “Mesmo tendo contato anterior com artigos, nunca havia participado de um projeto de pesquisa ou utilizado ferramentas para análises estatísticas e construção de modelos. Aprendi na prática sobre análise estatística univariada e multivariada, e sobre o uso de ferramentas como o Orange para modelagem computacional”, relata. Ela também destaca o contato com os atendimentos no ambulatório, que aprofundou sua compreensão sobre a endometriose e outras doenças ginecológicas, fortalecendo sua formação como médica generalista. “Foi extremamente gratificante conseguir ler e compreender artigos sobre esse tema, apresentar resumos em congressos e participar da escrita de artigos”.
O projeto também gerou um resultado concreto: “Graças a esse ensaio clínico, outros projetos também estão sendo desenvolvidos na mesma temática, como, por exemplo, o projeto para detecção de endometriose via espectroscopia na urina, no qual inclusive já foi feito o registro junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI)”, conta Jéssica.
Já no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), a bolsista do PIT, Melissa Mansur, transformou evidências científicas em uma cartilha de prevenção de acidentes com crianças. A iniciativa já está sendo compartilhada em redes sociais e centros de saúde, contribuindo com orientações práticas para pais e cuidadores. “A ideia surgiu do desejo de contribuir para a prevenção de acidentes que fazem parte da rotina de emergencistas e pediatras. Pequenos descuidos podem causar grandes repercussões”, relata.
Melissa destaca que o processo de transformar conhecimento científico em material educativo exigiu equilibrar o rigor das informações com uma linguagem acessível. “Participar do projeto me mostrou como a pesquisa pode gerar contribuições objetivas para a sociedade. Espero, no futuro, combinar assistência e ciência no meu dia a dia”.
Inclusão, tecnologia e cuidado: o futuro começa agora
Projetos como o da estudante Ana Beatriz Guimarães, desenvolvido no Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Tocantins (HDT-UFT), também demonstram como o incentivo à pesquisa pode gerar aperfeiçoamentos nos serviços de saúde. Focada no atendimento a pessoas com deficiência auditiva, Ana Beatriz relata que o interesse surgiu da percepção de lacunas críticas na comunicação hospitalar com pacientes surdos. “Durante minhas vivências, observei situações em que pacientes enfrentavam barreiras para expressar suas queixas e compreender orientações. Isso compromete diretamente a humanização do cuidado”, explica.
A estudante ressalta que o projeto não apenas aprofundou seus conhecimentos em Libras e estratégias de comunicação acessível, como também fortaleceu seu compromisso com um atendimento mais inclusivo. “Essa experiência influenciou positivamente como enxergo minha atuação futura”.
No Complexo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR), a estudante, Thayna Wiezbicki, investigou, com apoio do PIC, a perda de massa muscular em crianças internadas na UTI pediátrica por meio de ultrassonografia à beira leito. “Alguns estudos mostram que adultos podem perder até 3,2% de massa muscular em 10 dias de internação. Queríamos saber se isso também acontece em crianças para propor novas abordagens com dietas, fisioterapia e cuidados específicos”, explica.
O estudo foi concluído e agora passa pela fase de análise estatística. Além da relevância clínica da pesquisa, Thayna destaca o valor humano da experiência, que aproximou ainda mais sua formação do cuidado pediátrico. “Nada é mais gratificante do que trazer respostas que podem contribuir com o tratamento de pacientes. E tem a questão da satisfação pessoal também. Eu adorava estar no projeto, em contato com as crianças”, completa.
Fomento público como estratégia de desenvolvimento
Mais do que uma experiência acadêmica, os programas de iniciação científica e tecnológica da Ebserh funcionam como catalisadores de transformações. Ao incentivar o pensamento crítico, a autonomia investigativa e a busca por soluções aplicadas, essas iniciativas ajudam a formar profissionais mais preparados para os desafios do país. Também são ferramentas para reduzir desigualdades, valorizar o conhecimento e qualificar os sistemas públicos de saúde e ensino.
“Participar do projeto me mostrou como a pesquisa pode gerar contribuições objetivas para a sociedade. Espero, no futuro, combinar assistência e ciência no meu dia a dia”, conclui Melissa Mansur.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Felipe Monteiro, com revisão de Andreia Pires
Coordenadoria de Comunicação Social da Rede Ebserh