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DIA NACIONAL
Esclerose múltipla: Avanços em diagnóstico e tratamento auxiliam pacientes do SUS
A doença é caracterizada por uma variedade de sintomas, dificultando o estabelecimento de um padrão. Imagem ilustrativa: freepik
Nesta reportagem especial, você vai ver:
Ocorrência de esclerose múltipla em crianças
Impacto na saúde mental e emocional do paciente
Brasília (DF) – Antonieta de Jesus (nome fictício para proteger a sua identidade real) recebeu, aos 26 anos, o diagnóstico de esclerose múltipla (EM), doença autoimune e degenerativa, mediada pelo sistema imunológico, e que afeta o sistema nervoso central (SNC). “Naquele momento fui apresentada a uma realidade de muitas incertezas, de como seria minha vida dali em diante”, disse a paciente do Hospital Universitário Onofre Lopes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Huol-UFRN/Ebserh).
O dia 30 de agosto foi escolhido como Dia Nacional de Conscientização da Esclerose Múltipla e objetiva a conscientização da população acerca da doença, desmistificando crenças e permitindo a disseminação do conhecimento científico sobre essa condição. A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) oferece serviços para o tratamento da esclerose múltipla.
De acordo com informações o neurologista Marco Aurélio Lana-Peixoto, coordenador do Centro de Investigação em Esclerose Múltipla de Minas Gerais (CIEM), do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG/Ebserh), a doença é mais comum em adultos jovens, entre os 20 e 40 anos, principalmente mulheres (três para cada homem). É a principal causa de incapacidade neurológica em pessoas abaixo de 40 anos nos países desenvolvidos.
Sintomas e Diagnóstico
A EM é caracterizada por uma variedade de sintomas, dificultando o estabelecimento de um padrão. O paciente passa por crises episódicas recorrentes, e entre os sintomas mais comuns, estão as alterações de sensibilidade e de força nas pernas e braços, com dificuldade no modo de andar, além da perda ou diminuição da visão, visão dupla, desequilíbrio, alteração na fala, dificuldades na coordenação motora, e intensa fadiga.
O diagnóstico é baseado nos sintomas relatados pelo paciente, nos exames neurológico e complementares, como ressonância magnética de crânio e coluna, exame do líquor (LCR), exames laboratoriais de sangue, urina e pesquisa de anticorpos, entre outros. O CIEM/HC-UFMG, realiza em média, cem de consultas por mês, sendo referência no diagnóstico e tratamento em todo o Brasil. O CIEM disponibiliza um site com informações importantes e atualizadas sobre a doença.
Diversos medicamentos são utilizados para amenizar os efeitos da doença, diminuir a frequência das crises e proporcionar uma melhor qualidade de vida aos pacientes. “O tratamento não deve ser somente medicamentoso, e sim multidisciplinar, envolvendo a socialização do indivíduo, a psicoterapia, as artes e a musicoterapia”, alerta Marco Aurélio.
Ocorrência de esclerose múltipla em crianças
O neuropediatra Lucas Alves, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE/Ebserh), afirmou que a frequência da doença na infância é bem menor do que nos adultos e que a maioria dos pacientes tem idade acima de 11 anos, quando surgem os sintomas. Ele explica que a estimativa é que 3% a 5% de todos os casos ocorram antes dos 18 anos e as incidências variam de 0,13 a 0,64 indivíduos por 100 mil crianças/ano.
“O tratamento da EM na criança deve ser centrado no paciente, com o objetivo de minimizar o impacto da doença e melhorar seu bem-estar, devendo ser iniciado o mais breve possível, evitando-se sequelas motoras e cognitivas”, disse o neuropediatra. Para ele, a prática de exercícios físicos desempenha um papel fundamental no tratamento desse tipo de paciente, apresentando também impacto positivo no desempenho cognitivo, conforme resultados observados em diversos estudos.
O HC-UFPE oferece tratamento da doença através de atendimento médico, realização de exames para investigação (ressonância, LCR, exames laboratoriais), administração dos medicamentos e terapia de reabilitação (fonoaudiologia, terapia ocupacional, fisioterapia e psicologia).
Convívio com a doença
“A esclerose múltipla não é uma sentença de finalizações, mas é necessário ter cuidado e planejamento para se viver da melhor forma possível”, disse a paciente do Huol-UFRN, Antonieta de Jesus. Ela segue com o tratamento médico, e com mudanças de escolhas para melhorar sua qualidade de vida.
Antonieta percebeu que exercícios físicos, alimentação saudável, bom sono e familiares próximos, a ajudam a seguir em frente. “O amor e a fé são ingredientes reais e importantes na minha vida. Sou uma paciente imunossupressora que convivo com a fadiga, com a falha da memória que atrapalha meus estudos e meu dia a dia. Porém, sempre procuro prestar atenção às mudanças físicas e seguir o tratamento e as prescrições médicas”, relatou.
Avanços no tratamento
O neurologista Marco Aurélio Lana-Peixoto (CIEM/HC-UFMG) explicou que, nos últimos anos, o tratamento da EM tem evoluído muito com o desenvolvimento de novos medicamentos que agem diretamente nos diferentes mecanismos da doença. Eles previnem novos ataques e o aumento da incapacidade neurológica. “Estas novas drogas agem na imunomodulação, na imunossupressão de células inflamatórias, redução da produção ou no sequestro destas células que iniciam o processo inflamatório no sistema nervoso. Entre as novas terapias emergentes estão os inibidores da tirosian-quinase de Bruton, assim como novos medicamentos para remielinização e neuroproteção”, evidenciou o médico.
“Avançamos muito em termos de tratamento nos últimos 30 anos. Conseguimos controlar bem os surtos e reduzimos em 50%, a chance de o paciente entrar numa fase degenerativa. Porém, ainda temos muito a avançar. Ainda não controlamos bem os casos que têm o componente degenerativo da doença”, disse o médico neurologista Felipe Toscano, do Huol-UFRN. Ele afirma que hoje existem cerca de 15 opções de medicamentos, cada vez mais eficazes e seguros. “A cada ano, temos novidade. Este ano tivemos incorporação de um novo remédio oral, a Cladribina, que será uma excelente opção terapêutica”, disse.
Felipe Toscano destacou que o estudo sobre a doença é uma área em pleno avanço científico e que a pesquisa é fundamental para conhecimento dos tratamentos que beneficiam cada paciente, tanto para controlar a doença, como para melhorar sintomas.
Impacto na saúde mental e emocional do paciente
Toscano relatou que a pessoa com EM vive situações desafiadoras e de sofrimento crônico, sendo muito comum a associação com depressão e ansiedade, e por isso, é necessário atuar em todos os problemas causados pela doença. Ele também ressaltou que a família é sempre o maior suporte para o paciente, ajudando no cumprimento de suas atividades, na busca de medicamentos e realização de exames frequentes.
No Huol-UFRN, os usuários do SUS contam com um ambulatório exclusivo para pacientes com suspeita ou diagnóstico confirmado de esclerose múltipla. Eles são atendidos por uma equipe multidisciplinar (médicos, enfermeira, psicólogas e farmacêutica). Além disso, uma enfermaria dá suporte aos pacientes que estão em crise da doença, e há um Centro de Infusão, onde são aplicadas as medicações endovenosas.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Rosenato Barreto, com revisão de Danielle Campos
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh