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JANEIRO ROXO
Campanha sobre Hanseníase reforça o papel dos hospitais universitários no diagnóstico, tratamento e combate ao estigma
Janeiro Roxo reforça a importância do diagnóstico precoce e do cuidado integral no tratamento da hanseníase (Imagem ilustrativa: Freepik).
BRASÍLIA (DF) - O Janeiro Roxo é uma campanha nacional dedicada à conscientização sobre a hanseníase, doença infecciosa crônica que ainda representa um importante desafio para a saúde pública no Brasil. O país é o segundo mais afetado no mundo, atrás apenas da Índia, e concentra mais de 90% dos novos casos diagnosticados nas Américas, segundo o Ministério da Saúde. Especialistas em atuação nos Hospitais Universitários Federais (HUFs) geridos pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) alertam para a importância de reconhecer sinais, compreender os fatores de risco e fortalecer a rede de cuidado integral.

Coordenadora da equipe multiprofissional do Programa de Hanseníase do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (HUCFF-UFRJ), Maria Kátia Gomes, ressalta que o elevado adoecimento, no país, deve-se à combinação entre determinantes sociais e fatores genéticos. “As pessoas nascem com uma tendência genética a adoecer de hanseníase ou não. Mas o segundo determinante é o social: casas apertadas, mal ventiladas e com muita gente concentrada aumentam a chance de adoecimento. Ou seja, a ocupação desordenada do espaço urbano”, destaca.
Em 2025, o estado de Mato Grosso liderou o número de registros de hanseníase no país, de acordo com o Mapa de Monitoramento Epidemiológico da Hanseníase, do Ministério da Saúde. A infectologista Letícia Cavalcante, do Hospital Universitário Júlio Muller, da Universidade Federal de Mato Grosso, (HUJM-UFMT), avalia que o cenário não representa um agravamento recente da doença, mas reflete uma condição historicamente endêmica no estado, agora mais visível em razão do fortalecimento da vigilância epidemiológica e da ampliação do diagnóstico clínico.
Ambas as especialistas enfatizam a importância da qualificação das equipes de saúde para identificar casos que antes permaneciam ocultos e do papel estratégico dos HUFs nas campanhas de enfrentamento à hanseníase por atuarem simultaneamente na assistência, no ensino e na pesquisa. “O diagnóstico precoce é a principal estratégia para interromper a transmissão e evitar sequelas neurológicas e incapacidades físicas, que representam o maior impacto da hanseníase na vida das pessoas”, resume Cavalcante.
Sinais de alerta
Com larga experiência em pesquisa e assistência no HUCFF, Maria Kátia lista os “sinais cardinais” fundamentais para o diagnóstico precoce da hanseníase: manchas claras na pele com diminuição de sensibilidade, redução dos pelos, caroços pelo corpo e dormência em mãos e pés são alguns dos principais alertas. “Em estágios mais avançados, podem surgir infiltrações na pele, perda de pelos das sobrancelhas e comprometimento do nariz e dos olhos. Os nervos periféricos podem estar comprometidos pelas reações hansênicas”, acrescenta a médica dermatologista.
O tratamento é padronizado em todo o mundo, financiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e distribuído gratuitamente pelo Sistema Único brasileiro (SUS). “A primeira dose elimina 99,9% dos bacilos. Em poucos dias, o paciente deixa de transmitir a doença”, explica Maria Kátia, reforçando que a hanseníase tem cura quando o tratamento é seguido corretamente.
Parceria SUS e MEC
O HUJM atua como referência estadual para casos complexos e como porta aberta para o atendimento de urgência de reações hansênicas, além de contribuir diretamente para a formação de profissionais da rede. “O Hospital Universitário Júlio Muller integra esse esforço de forma estratégica, atuando como campo de estágio, referência assistencial e espaço de ensino e pesquisa, contribuindo diretamente para a formação de profissionais qualificados e para a melhoria do cuidado prestado à população em Mato Grosso”, afirma Letícia Cavalcante.
Entre as principais iniciativas em curso no HUJM, a infectologista lista estudos voltados a diferentes dimensões da hanseníase, com ênfase na detecção precoce, na avaliação do comprometimento neural, nas alterações ortopédicas e em estratégias terapêuticas voltadas à reabilitação funcional. Sempre articuladas às demandas da rede de atenção à saúde. Além das contribuições do Núcleo de Avaliação de Tecnologias em Saúde (NATS) para pareceres técnico-científico, “tais como sobre a eficácia e a segurança da neurólise associada ao uso de corticosteroides, contribuindo para decisões clínicas e institucionais baseadas em evidências”.
Esforço de muitas frentes
No HUCFF, referência no atendimento a casos de maior complexidade, o cuidado é realizado de forma multiprofissional e integrada. A assistência envolve Dermatologia, Neurologia, Ortopedia, Neurocirurgia, Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Serviço Social. Além do tratamento clínico e cirúrgico, o trabalho da equipe busca garantir reabilitação, reinserção social e qualidade de vida dos pacientes.
“O paciente é ensinado a observar o seu corpo todos os dias a fim de identificar alterações motoras e sensitivas que possam levar ao surgimento das incapacidades físicas”, descreve a fisioterapeuta do Ambulatório de Hanseníase e Ortopedia-Pé do HUCFF, Silvana Teixeira de Miranda. Para a profissional de saúde, a articulação entre o setor e a cirurgia, desde o pré até o pós-operatório, pode ser considerada determinante para melhores resultados.
No cotidiano assistencial, cabe à Fisioterapia auxiliar nos diagnósticos por meio de análises de sensibilidade, força muscular e amplitude de movimento, permitindo classificar o grau de incapacidade física dos pacientes. “Quando há indicação de tratamento, são adotadas condutas como cinesioterapia, manejo da dor, treino funcional e de marcha, uso de órteses, laserterapia para cicatrização e acompanhamento das reações hansênicas”, pontua Silvana.
Segundo a fisioterapeuta, o cuidado também envolve dimensões sociais e educativas. “Associado às nossas condutas terapêuticas assumimos também um importante papel social e educativo, oferecendo suporte para a redução do estigma associado à hanseníase”, afirma.
A barreira da desinformação
Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, a notícia de diagnóstico de hanseníase ainda provoca susto e insegurança quando a informação chega de forma fragmentada ou associada a estigmas. Diagnosticada na rede privada, em 2022, aos 26 anos, Isabela Souza relembra que o desconhecimento inicial foi um dos aspectos mais difíceis. “Eu não sabia o que era a doença. Quando eu procurei ler sobre é que descobri que, na verdade, era lepra. Aquilo me assustou demais, até por uma questão bíblica. Mas depois comecei o tratamento me tranquilizei, porque a partir do primeiro mês de medicação eu já não transmitia mais”, relata.
Monitorada mensalmente no HUCFF desde 2024, Isabela descreve uma rotina sem restrições sociais, incluindo vida laboral ativa. A paciente destaca que o acompanhamento por um hospital universitário contribui para confiança. “Foi uma experiência muito boa, porque aqui é o lugar que realmente resolve as coisas, por ter todos esses estudos”, conta.
Para a coordenadora do programa de Hanseníase do HUCFF, Maria Kátia, o enfrentamento à doença ainda é atravessado por forte preconceito que se manifesta no cotidiano do atendimento, por exemplo, quando pacientes demonstram medo do contato físico ou evitam revelar o diagnóstico até mesmo para familiares próximos. E a solução para o impasse passa necessariamente pela educação em saúde: “Não é só informar, é desconstruir conceitos arraigados”, avalia.
Saiba mais: janeiro com ênfase na hanseníase
Além da campanha Janeiro Roxo, o mês reforça a conscientização sobre a doença com o Dia Mundial contra a Hanseníase, celebrado no último domingo de janeiro. No Brasil, a data também marca o Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase, conforme a Lei nº 12.135/2009.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Elisa Andrade, com revisão de Andreia Pires
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh