Recuperar 10 milhões de hectares de terras degradadas na Caatinga até 2045, com protagonismo das comunidades do Semiárido, conservação do solo, da biodiversidade e da água, resiliência climática e promoção do Bem Viver na Caatinga. Uma estratégia que constrói, na prática, sinergias entre
Combate à Desertificação, Biodiversidade e Clima.
A caatinga: um bioma único, que precisa ser recuperado
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro. Ocupa cerca de 10% do país e abriga 28 milhões de pessoas. Mas a degradação da terra avança: hoje, 10 milhões de hectares estão em estado grave de degradação.
Ilustração da Caatinga: paisagem do Semiárido com mulheres colhendo alimentos, roçado de milho, agrofloresta e açude.
Sobre a obra. Nessa pintura, a artista desenhou uma criança trazendo consigo um galho de jurema e uma flor da barriguda — o simbolismo espiritual e a representação de plantas fundamentais para a manutenção e a recuperação do solo da Caatinga.
Sobre a artista. Simone Mendes é artista visual e ilustradora. Nasceu em Ouricuri (PE) e, após 19 anos vivendo em Recife, onde foi estudar, retornou à sua terra natal, no sertão do Araripe, e construiu o ateliê no jardim de casa. Desde 2005, dedica-se a aquarelas para identidade visual de marcas e a ilustrações para livros e revistas, além de murais e pinturas em aquarela e acrílica sobre tela.
Por que recuperar?
42,6% da vegetação nativa já foi desmatada e a Caatinga tem um dos contextos de degradação mais críticos entre os biomas do país. A Caatinga em pé vale muito para o seu povo e para o planeta: dados científicos mostram que o bioma tem potencial de captação de carbono da atmosfera da ordem de 1,5 a 5,7 tCO₂ por hectare/ano e de armazenamento no solo de 125 tCO₂ por hectare/ano.
O bioma se estende por nove estados do Nordeste e pelo norte de Minas Gerais. O mapa ao lado mostra a área da Caatinga e suas formações vegetais.
O PROGRAMA: O QUE É RECAATINGAR?
O ReCAATINGAR é um programa focado na recuperação de terras degradadas na Caatinga com as comunidades do Semiárido. Une conservação do solo, produção de alimentos saudáveis, recuperação de fontes naturais de água e da biodiversidade à geração de renda e à justiça climática. A isso o programa chama de recaatingamento, uma metodologia que nasce da prática de uso sustentável das comunidades e das organizações sociais da Caatinga.
- Contexto legal
O ReCAATINGAR é uma ação do Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação (PAB Brasil 2025–2045) e instrumento da Política Nacional de Combate à Desertificação. Seus principais marcos legais são: Constituição Federal de 1988, art. 225 — todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, cabendo ao Poder Público e à coletividade defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
Decreto Legislativo nº 28/1997 — aprova o texto da Convenção Internacional de Combate à Desertificação nos países afetados por seca, particularmente na África.
Decreto nº 2.741/1998 — promulga a Convenção Internacional de Combate à Desertificação.
Lei nº 13.153/2015 — institui a Política Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca.
Decreto nº 12.254/2024 — aprova a estrutura do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Decreto nº 11.932/2024 — dispõe sobre a Comissão Nacional de Combate à Desertificação (CNCD).
Portaria do Programa ReCAATINGAR — institui e regulamenta o Programa. A ser publicada.
- Diretrizes
O Programa de orienta por dez diretrizes estruturantes:
I. Reconhecimento e respeito aos conhecimentos, práticas e usos que as comunidades locais têm sobre a Caatinga.
II. Protagonismo das comunidades locais, com espaços de participação ativa e controle social.
III. Adoção da agroecologia e da convivência com o Semiárido, com sistemas produtivos diversificados e tecnologias sociais adaptadas e resilientes.
IV. Adoção preferencial das microbacias hidrográficas como unidades de mobilização, planejamento e execução.
V. Estímulo à participação ativa das juventudes rurais como atores estratégicos do Programa.
VI. Promoção da igualdade de gênero, valorizando os conhecimentos, práticas e a participação das mulheres na gestão da terra, da água e da biodiversidade.
VII. Promoção da transição justa, assegurando participação, inclusão social e produtiva e acesso a políticas públicas.
VIII. Articulação com políticas públicas, programas e marcos internacionais, potencializando sinergias e ampliando impactos.
IX. Criação de salvaguardas e protocolos de consulta que assegurem direitos, modos de vida, territórios e conhecimentos das comunidades, especialmente Povos Indígenas e comunidades tradicionais.
X. Participação ativa de públicos historicamente vulnerabilizados, com atenção à população negra e a grupos submetidos a exclusão e criminalização, fortalecendo a reintegração social e a justiça racial e climática.
- Público Prioritário
Agricultores e agricultoras familiares, assentados da reforma agrária, povos e comunidades tradicionais (incluindo fundo de pasto), povos indígenas e comunidades quilombolas.
- Objetivos
I. Combater a desertificação, contribuir para a neutralidade da degradação da terra e mitigar os efeitos da seca.
II. Recuperar terras degradadas na Caatinga, devolvendo sua capacidade produtiva e de oferta de serviços ecossistêmicos ao ambiente e às comunidades.
III. Promover a gestão de paisagens rurais por meio de práticas de manejo e uso sustentável, recuperando a biodiversidade e os recursos ambientais.
IV. Promover a adaptação e a melhoria da qualidade de vida das populações vulnerabilizadas pelas mudanças climáticas, com sistemas produtivos sustentáveis e conservação da água.
V. Fomentar a visibilidade das iniciativas com comunicação e arte que ampliem o conhecimento sobre a Caatinga e sua conservação.
VI. Gerar inclusão produtiva, social e econômica com sustentabilidade e estímulo à bioeconomia, fortalecendo a resiliência comunitária.
- Estratégia de implementação
A execução se organiza em seis eixos que se apoiam mutuamente:
I. Mobilização, articulação e cooperação com instituições públicas federais, estaduais e municipais, comitês de bacias hidrográficas, instituições privadas, organizações da sociedade civil e lideranças das comunidades beneficiárias, observadas as normas aplicáveis.
II. Fomento a projetos que promovam o recaatingamento, com a implementação de tecnologias sociais e de equipamentos agrícolas adaptados ao Semiárido, técnicas e práticas de recuperação e manejo sustentável do solo, recuperação de corpos hídricos naturais, produção de base agroecológica, sistemas agroflorestais e uso sustentável da Caatinga.
III. Formação, assistência técnica e extensão rural em recaatingamento para as comunidades locais, agentes socioambientais, agentes de assistência técnica e extensão rural e gestores locais, em práticas de recuperação e manejo sustentável do solo, recuperação de corpos hídricos naturais, produção de base agroecológica, implantação de sistemas agroflorestais e manejo sustentável da Caatinga.
IV. Comunicação e gestão do conhecimento, por meio da documentação de experiências, produção de materiais educativos, promoção de trocas de conhecimento e desenvolvimento de plataformas acerca do Programa.
V. Estímulo às atividades de pesquisa, de desenvolvimento tecnológico e de inovação, integrando os conhecimentos científicos e tradicionais na recuperação de terras degradadas.
VI. Gestão, monitoramento e avaliação, por meio de processo de planejamento e monitoramento participativo e colaborativo, utilizando metodologias e tecnologias apropriadas disponíveis.
- Governança e implementação
Coordenado pelo MMA (DCDE/SNPCT) e conduzido por um Comitê Gestor paritário, com 16 membros do governo e da sociedade civil. As ações são executadas por organizações parceiras: ONGs, órgãos públicos, universidades, institutos e governos estaduais e municipais.
- Monitoramento e avaliação
Um sistema próprio acompanha o progresso, mede o impacto e ajusta as ações ao longo de 2026–2045, com dados sobre a conservação da Caatinga e a restauração dos serviços ecossistêmicos.
MÉTODOS E PRÁTICAS: COMO A TERRA É RECUPERADA
Tudo começa com um diagnóstico feito junto com a comunidade. A partir dele, escolhem-se as práticas certas para cada área — sempre considerando os saberes locais. São mais de 50 práticas e tecnologias sociais, organizadas em cinco temas.
ÁREAS PRIORITÁRIAS: ONDE O PROGRAMA COMEÇA
Para agir primeiro onde é mais urgente, o MMA, com o Observatório da Caatinga e Desertificação (OCA/UFCG–INSA), classificou os municípios por um método técnico, aplicado estado por estado.
Quatro critérios definiram a prioridade:
- Degradação da terra
- Índice de aridez
- Frequência de secas
- Pobreza rural
Estado | Alta (C4) | Muito alta (C5) | Total no bioma |
Bahia | 61 | 53 | 225 |
Paraíba | 84 | 46 | 204 |
Ceará | 59 | 41 | 184 |
Rio Grande do Norte | 43 | 42 | 156 |
Piauí | 25 | 29 | 116 |
Pernambuco | 15 | 14 | 44 |
Alagoas | 6 | 8 | 32 |
Sergipe | 9 | 4 | 25 |
Total | 335 | 263 | 1.095 |
A lista completa dos municípios prioritários está nos anexos do documento-base do programa.
ASPECTOS QUALIFICADORES: PARCERIAS QUE FORTALECEM O PROGRAMA
Outros públicos e estruturas considerados no direcionamento das ações:
- Agricultores familiares (até 4 módulos fiscais)
- Assentamentos
- Terras Indígenas
- Quilombolas
Políticas sinérgicas
O ReCAATINGAR se articula com outras políticas e programas para somar esforços e recursos, entre eles:
- Proveg - Vegetação Nativa
- Planapo - Agroecologia
- Sementes do Semiárido
- Programa Cisternas
- Água Doce
- PAA - Aquisição de Alimentos
- Pronaf
- Projeto Sertão Vivo
- Projeto Dom Helder Câmara
- Estratégia Nacional de Bioeconomia
- PNGATI - PNGTAQ
- PNRH - Recursos Hídricos
- PNMC - Mudança do Clima
entre outras.
