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Mestranda Kokama é a primeira indígena do sistema de cotas a defender dissertação no PPG-BOT do Inpa
O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) foi palco de um marco para a pós-graduação na Amazônia. A mestranda Jaiciana dos Santos Paiva, conhecida pelo nome indígena Nhumy Kokama, foi a primeira indígena com cota a defender a dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Botânica (PPG-BOT).
Jaiciana é da etnia Kokama, da comunidade de Porto Antunes e apresentou o trabalho intitulado “Briófitas como biomonitores de metais pesados: revisão da última década e aplicação do gênero Calymperes na avaliação ambiental no Amazonas”. A pesquisa analisou a deposição atmosférica de metais pesados nos municípios de Tefé, Jutaí, Manaus e em Porto Antunes, ao longo do Rio Solimões, por meio de biomonitoramento passivo com a briófita Calymperes palisotii.
Orientada pelo coordenador do PPG-BOT Charles Zartman, e coorientada pelo por Luiz Henrique Vieira Lima, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), a pesquisa integrou a revisão de estudos dos últimos dez anos sobre musgos e hepáticas como biomonitores com análises empíricas em paisagens urbano-florestais do Amazonas.
Com uma contribuição inédita para o monitoramento ambiental nas cidades do Baixo, Médio e Alto Solimões, Jaiciana concluiu que a Calymperes palisotii tem potencial como biomonitora no estado e que a deposição de metais variou conforme o grau de antropização.
Para Zartman, a defesa representa muito para as ações afirmativas e para a presença indígena na ciência amazônica. “Ela mostrou independência, inteligência e perseverança em tudo que fez. É muito inteligente e me ensinou talvez mais do que eu a ensinei”, destacou. O pesquisador lembra que o PPG-BOT já recebeu outros indígenas, mas Jaiciana é a primeira a ingressar por cota indígena.
A dissertação foi aprovada por unanimidade pela banca examinadora e a defesa de Jaiciana Nhumy Kokama demonstra um avanço na inclusão de povos originários na produção de conhecimento sobre a Amazônia, unindo ciência, território e representatividade.
De Jutaí ao mestrado
Jaiciana vive no município de Jutaí, a 753 km de Manaus e sonhava em estudar no Inpa há dez anos. A agora mestre explica que teve como motivação para a pesquisa o desejo de produzir dados sobre sua região.
“Eu acredito que, por não ter estudos, a gente não tem informações. A vida da pesquisa é conseguir fazer pesquisa em locais de difícil acesso”, pontua.
O caminho até a pós não foi simples e teve desafios para aprender o inglês e a falta de conexão de qualidade em sua comunidade que a impediram de participar do processo seletivo em 2014. Com o título, Jaiciana destaca que não houve diferenciação por ser indígena e agradece ao Inpa e aos professores pela orientação.
Texto: Valdete Araújo
Edição e revisão: Daira Martins