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Sociobiodiversidade sem fronteiras: ICMBio fortalece parcerias com países latino-americanos
Após 35 anos, o Congresso Mundial de Áreas Protegidas voltará a ser realizado em um país da América Latina, o Panamá - Foto: Pérola Abreu/ICMBio
Durante cinco dias, quase mil participantes ocuparam salas e auditórios da Universidade de Brasília (UnB) no principal evento do país sobre conservação da biodiversidade e inclusão social. Além do XII Seminário Brasileiro sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social (Sapis) o, VII Encontro Latino-Americano (Elapis) recebeu representantes de 12 países, que debateram o fortalecimento da cooperação internacional e o reconhecimento do papel dos povos indígenas e das comunidades tradicionais neste cenário.
Neste ano, a programação contou com 170 atividades, entre conferências magnas, mesas temáticas e rodas de conversa, além da apresentação de 480 trabalhos e relatos de experiências.
Entre os eventos paralelos em que o olhar estava voltado ao subcontinente, a mesa-redonda “Caminhos do Futuro: Cultura e Natureza como Vocação da América Latina”, organizada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) teve destaque. A atividade reuniu representantes Yanomami e demais povos indígenas da Amazônia, que relataram a relação com a floresta e com o Parque Nacional do Pico da Neblina, localizado no município de São Gabriel da Cachoeira (AM).
“Queremos a floresta viva. Queremos a água do rio limpa, sem poluição. Porque a floresta é a nossa morada. É a morada dos espíritos, dos nossos pais e avós que já se foram. Queremos a nossa terra viva!”, exclamou João Figueiredo, presidente da Associação Yanomami do Rio Cauaburi e Afluentes (Ayrca), sediada em Maturacá, na Terra Indígena Yanomami Ye’kwana, no Amazonas.
A participação ativa de povos indígenas e comunidades tradicionais foi um dos eixos centrais do encontro. Esses grupos desempenham papel fundamental na gestão dos territórios protegidos, contribuindo com conhecimentos ancestrais e práticas sustentáveis de uso dos recursos naturais. Para além, são povos que extrapolam a compreensão das fronteiras nacionais, impostas em sentido geográfico e político posteriormente a já ocupação de territórios por distintas etnias do Norte ao Sul do país junto a países vizinhos.
A diretora de Gestão e Manejo dos Parques Nacionais e Naturais da Colômbia, Marta Dias, compartilhou a experiência em seu país. “Na Colômbia, são 65 grandes áreas de categoria nacional que mantêm relação direta com comunidades. Esse vínculo entre natureza e cultura possui um significado espiritual, relacionado às práticas tradicionais e aos meios de vida. Estamos falando de biodiversidade, mas também de identidade”, explicou.
O Elapis deu continuidade a uma trajetória iniciada em 2013, em Belo Horizonte, e fortalecida em edições posteriores, como a realizada em Lima, capital do Peru, em 2019. Segundo Claudio Maretti, coordenador da Comissão de Eventos Paralelos do Sapis/Elapis, houve crescimento do protagonismo de jovens lideranças e de representantes de povos indígenas e comunidades tradicionais. A criação e o fortalecimento de redes, como a de jovens profissionais de áreas protegidas na América Latina, foram apontados como alguns dos legados mais relevantes do processo.
“O encontro representa uma mudança importante na forma de encarar a conservação ambiental. Antes, a conservação era frequentemente vista como geradora de conflitos. Hoje, avançamos para uma perspectiva de alianças, com respeito entre os países e reconhecimento das similaridades e aprendizados compartilhados”, destacou o professor da Universidade de São Paulo (USP), que recebeu os eventos em 2023.
A diretora de Criação e Manejo de Unidades de Conservação (DIMAN), Iara Vasco, representou o presidente do ICMBio no encerramento do evento e destacou o papel estratégico do encontro para consolidar parcerias internacionais. “Estamos nos preparando para fortalecer essa rede de cooperação na América Latina. O ICMBio tem intensificado o diálogo com países vizinhos e já formalizou acordo com o Peru, além de avançar nas tratativas com Colômbia e Argentina”, afirmou.
Após 35 anos, o Congresso Mundial de Áreas Protegidas, organizado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) voltará a ser realizado em um país da América Latina, o Panamá.
As expectativas para o evento foram compartilhadas pela representante do Ministério do Meio Ambiente do país, Parveen Punjab. “Nós temos o privilégio e a responsabilidade de ser o próximo ponto de encontro da comunidade mundial da conservação. Em um momento em que enfrentamos diversos desafios, isso ajudará a fortalecer alianças e prioridades comuns”, afirmou.
Punjab também reforçou a importância do envolvimento das pessoas nos processos de conservação. “A conservação não existe sem as pessoas. Precisamos reconhecer e fortalecer os diferentes povos e comunidades. O futuro da conservação não depende apenas da proteção dos espaços geográficos, mas também da construção de relações mais justas entre as pessoas e a natureza”, finalizou.
Previsto para setembro de 2027, na Cidade do Panamá, o Congresso deve reunir cerca de 10 mil participantes de cerca de 170 países. O evento será realizado em um momento decisivo para o cumprimento das metas globais de proteção ambiental até 2030, com debates sobre financiamento da conservação, mudança climática, ampliação das áreas protegidas, turismo sustentável e o papel de povos indígenas e comunidades tradicionais na gestão dos territórios.
Para além do Sapis, demais parcerias internacionais
A atuação do ICMBio junto a demais nações do subcontinente tem por marca acordos de cooperação e articulações voltadas à conservação da biodiversidade e à gestão de áreas protegidas. Atualmente, há um acordo com o Peru e dois com a França, que tratam de trabalhos junto a Guiana Francesa.
“Também iniciamos diálogos com Colômbia e Argentina, além de avançar nas negociações com a Escola Latino-Americana de Áreas Protegidas (ELAP), sediada na Costa Rica”, diz o chefe da Divisão de Assuntos Internacionais do ICMBio, Raul Fontoura.
Entre as principais frentes de atuação está o manejo integrado do fogo. Fontoura destacou também as iniciativas conduzidas no âmbito da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), voltadas à conservação de espécies transfronteiriças na América do Sul e o monitoramento de espécies marinhas, trabalhando junto com Uruguai e Argentina.
O Instituto também participa ativamente da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), que reúne os oito países, que compartilham o bioma amazônico: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.
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